Um discreto mal passado, por favor!

E um efervescente, em caso de indigestão.

Um dias desses, talvez ontem ou hoje mesmo, eu estava dando uma olhada no cardápio Gay de Curitiba e região e, puxa vida – OH, JESUS, GROSS! – Pra quem não sabe sobre o meio gay, nós praticamente temos um delivery de corpos em aplicativos como o Grindr, Scruff e Hornet, onde cada mana coloca sua fotinho com as informações que julga necessárias (e que talvez ajudem a vender).

Nossa, mas parece que você trata as gays apenas como um corpo, sem sentimentos e que devem se encaixar em determinadas características… Querida, não banca a Alice, porque essa é a verdade e todas nós temos culpa!

Os aplicativos de pegação são a prova de que uma parcela da comunidade Gay ainda cultua padrões estabelecidos por uma sociedade heteronormativa. É louco se pararmos para pensar que todas nós, LGBTS, sofremos preconceito diariamente, por meio de uma palavra, de um deboche, de um tapa na cara ou de um tiro no rosto. Ninguém está aqui pra cagar regra sobre como cada indivíduo deve viver, isso é uma escolha pessoal, mas é necessário refletirmos sobre como nossas ações individuais afetam no coletivo.

O cardápio que eu mencionei lá no início é recheado de “Discretos” e que não curtem “Afeminados”. Mais uma vez, cada um escolhe como viver. Se pra você ser discreto é não “dar pinta” usando bermuda estampada curta, não relar na bandeira LGBT e não usar mocassim sem meia ou alpargata, tudo bem, gata! Eu também tenho minhas preferências, como não usar boné e a palavra TOP.

E é geralmente no perfil dos “discretos” que a gente encontra a observação “não curto afeminados”. A gente estabelece a relação de que se a POC que ser discretíssima ela não pode ter uma bicha pintosa por perto, ou pelo menos, no convívio social. Talvez, se tivéssemos a possibilidade de relativizar essa questão, colocaríamos essa escolha como uma preferência entre loiros, morenos ou ruivos. Mas a gente é bicha, e aqui NADA SE RELATIVIZA!

Wake Up, Girl! O problema aqui é muito mais sério do que uma “preferência”. Quantas Damares piradas já baixaram na nossa vida dizendo que azul é de menino e rosa é de menina. Que homem não chora, não vai no salão de beleza, não ajuda nos afazeres domésticos e não entende de maquiagem. Quantas de nós já apanharam e tiveram que segurar o choro, porque fragilidade é coisa de menina?

Esse mundo dividido e intransponível não é páreo para as nossas afeminadas. As gays que dão a cara a tapa, que estão na linha de frente levando tiro, para que os “discretos” da nossa nação possam desfrutar de mais um dia vivos e ativos nos apps. Dos trejeitos aos tons tidos como femininos, as afeminadas são a principal resistência do movimento gay. Essa preferência por não afeminadas talvez seja o retrato de uma criação baseada em padrões heteronormativos, que acabam criando repulsa por quem não se enquadra no feminino OU masculino, sem a possibilidade de estar ENTRE.

Para todas essas características que tentam ditar o que é ser homem, sejam eles héteros ou homossexuais, temos a chamada masculinidade tóxica. Ela basicamente é uma receita para criar seres humanos desastrosos e de grande periculosidade: brutos, insensíveis e preconceituosos. E é aí que a gente se engana quando pensa que apenas homens héteros podem ser tóxicos. Seja você “padrãozinho”, discreta ou afeminada, todas somos masculinas e, por consequência, corremos o risco de perpetuar a toxicidade.

Precisamos estar atentas aos detalhes dessa forma tóxica que somos expostas ou expomos o próximo. Talvez não houvesse problema nenhum em adicionar ao cardápio dos aplicativos que você não curte afeminados, mas nós sabemos que essa “opção” vem construída por meio do preconceito e, para nós, ele pode ser o último match que veremos.

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