Histórias de uma Curitiba Plural

Uma semana para aqueles que não se encaixam

Começa nesta segunda-feira, dia 17 de janeiro, a edição 2022 do Rock Camp Curitiba. O manual das boas práticas jornalísticas indica que é de bom tom logo de início descrever o que é Rock Camp Curitiba. Mas infelizmente, apesar dos meus 20 anos de carreira, não dá para resumir no lead esse evento/colônia de férias/encontro de almas. Não realidade, difícil mesmo é escolher um substantivo adequado.

Dado o tamanho do desafio, nos próximos cinco dias estarei aqui tentando (e falhando miseravelmente) explicar o que é Rock Camp Curitiba e o que faz mais de 50 voluntárias se dedicarem durante sete dias a missão de ensinar um instrumento e ajudar pessoas jovens de 7 a 17 anos a formar uma banda e compor uma música.

Digo que irei falhar, mas não estou particularmente preocupada com isso. Nem tudo que merece ser retratado pode ser definido em palavras e categorias. O que quero fazer é registrar um pedaço desse encontro de pessoas que nem sempre se sentiram parte da comunidade em que estavam. Talvez seja justamente essa característica comum a todes. No mais, a palavra de ordem da semana é diversidade: de ideias, de ritmos, de instrumentos, de experiências.

Logo de cara, no sábado, quando a equipe do Rock Camp se reuniu, outra características comum: o choro engasgado na garganta. Na rodada de apresentação, além do nome, dos pronomes e do histórico do Camp, muitas pessoas compartilharam lágrimas, uma alegria e um suspiro de alívio de poder novamente estar entre seus.

Mesmo quem não está no Camp vai concordar que os últimos dois anos foram muito difíceis. Para carregar ainda mais de emoção esse retorno ao presencial (em 2021 o Camp aconteceu em versão remota), a onda de contaminações por Covid-19 e influenza e uma mudança de última hora no local do evento deixaram no ar até o último instante a chance de cancelamento.

De minha parte, estar entre mais de 50 pessoas voluntárias e 36 campistas é um choque. Foram dois anos em isolamento com três crianças, dois cachorros (e temporariamente um passarinho), um marido, um jornal e uma hérnia de disco. Minhas convicções sobre meu corpo, minha saúde mental e minha capacidade de conduzir uma conversa com outros seres humanos adultos foram seriamente desafiadas. Mas eu também sou da banda de quem não se encaixa, então eis que estamos aqui.

Dá para sentir a vibe de quem reprovou na aulinha de curitibanice padrão logo de cara. Não há topetes. Mas cabelos coloridos, camisetas estilosas e uma atitude geral de se sentir bem em quem se é (ou em quem está tentando descobrir ser). Pela primeira vez na vida minha falta de habilidade (e interesse) em escolher roupa não me colocou automaticamente no fundão.

Durante o sábado e o domingo, uma preocupação: como lidar com a diversidade de identidades de gênero de forma respeitosa. É um grupo sui generis, mas aqui também estamos nos adaptando. Há pessoas em diferentes estágios de autoconhecimento. De definir (ou mesmo entender) a identidade de gênero. Enquanto isso, o restante tenta lidar com o desconforto da mudança.

As próprias organizadoras do Camp em Curitiba mostraram estar preocupadas em demonstrar que o movimento também evoluiu. O espaço já recebia meninas, pessoas trans e não binárias desde o início, mas este ano o termo “Girls” foi retirado do nome para torná-lo mais inclusivo.

Observando as pessoas falarem sobre isso, penso repetidas vezes em algo que ouvi outro dia: o tempo só anda para frente. Essa própria reunião de gente que não se encaixava e agora encontrou um lugar, um grupo é a prova viva de que mesmo as tentativas mais intensas de impedir o progresso nada podem contra a marcha inclemente do tempo.

rocfreitas

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