Histórias de uma Curitiba Plural

Eu, mãe, campista por três edições

Dia desses uma das minhas irmãs mandou no grupo da família um link dirigido à Olívia, minha filha mais nova. Era de uma matéria sobre os dez anos do Girls Rock Camp no Brasil. A mensagem me fez lembrar de uma dívida, que era escrever este texto, e do quanto esse encontro anual está incorporado à nossa vida e às nossas conversas.
Alguns dias depois, soubemos do lançamento da versão 18 + do Rock Camp Curitiba e foi dada a largada para uma campanha a favor da minha inscrição. A Olívia consultou a irmã (Clara, que também já foi campista), o pai e trouxe o parecer: todos concordamos que você deve participar. Eu me sinto muito tentada, mas ainda não parei para pensar no assunto. Sim, eu sei. As inscrições acabam rapidinho e estou de olho.
Mesmo que eu não me torne uma campista real e oficial, já me sinto parte dessa brincadeira séria. Nossa participação começou motivada pela amiga Carla, organizadora que coloca lindamente seu 1,80 m (mais ou menos), alma, talento e coração a serviço da empreitada. Mas depois ganhou motivações próprias, renovadas a cada ano.
Por ser a primogênita, a Clara tem aberto caminho para muitas das nossas experiências aqui em casa. Aos 11 anos, participou da primeira edição do acampamento, que ainda era chamado de Girls Rock Camp. Nunca fomos pai e mãe superprotetores, daqueles que ficam controlando cada minuto da saída das filhas. Mas a curiosidade nos deixou roendo unhas naquela semana. Cada notícia, cada post nas redes, cada volta para casa era cercada de expectativa.
Como foi bonito ver aquela menininha descobrindo um mundo novo. Oficina de defesa pessoal, diversidade, aula de guitarra, empresária, produtora, rock ’n’roll, logo, camiseta! A cabecinha fervilhava. A dela e as nossas, é claro. A irmã, ainda com seus 5 anos, achava tudo curioso e um tanto injusto não poder fazer o mesmo. A chance veio dois anos depois, em 2020, um pouco antes de a nossa vida ser colocada naquele estado de desconforto e estranhamento pandêmicos.
O Camp Curitiba foi responsável por colocar as duas irmãs num mesmo mundinho, que era muito delas e cheio de novidades. De novo, a mulherada empoderada daquela colônia de férias sacudiu a vida das nossas meninas. Se elas já tinham uma forte tendência a acolher a diversidade e se apropriar do “girl power”, depois disso, minha gente, o mundo ganhou mais duas ativistas.
A conexão foi tanta que o apelido da pequena no camp, Pipoca, se transformou em tatuagem no braço da incrível Babi, baterista-guru-produtora-de-banda-amada que virou “ídola” da nossa caçula. Uma prova de amor que me deixou meio sem chão, entre encantada e comovida. A Olívia ainda participou da edição pós-pandemia, agora em 2022, construiu em casa uma bateria com tampas de panela e suporte de bicicleta, contou histórias, fez amizades e dormiu como um anjo todas as noites depois de quebrar tudo por uma semana no camp.
Ah, e também teve música, claro. Nas três edições, foram quatro bandas montadas (duas de cada filha). Foram três vezes guitarristas e uma vez baterista, como a Babi e o Ricardo, que olhou pras filhas com um tipo de orgulho especial que só os caras que têm rock correndo nas veias sentem. Nas três edições, tios, primos, avós, amigos, pai e mãe foram pro bar prestigiar as meninas. A gente acaba sendo campista com elas, mesmo sem ter tocado (ainda) na banda. Tem sido lindo e transformador. Tem muito de rock ’n’roll, mas tem mais ainda de amor. Vida longa ao Rock Camp!

Texto de Lenise Aubrift Klenk

Suzie Marçal

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