A linguagem dos quadrinhos

Há pouco tempo atrás, li, pela primeira vez, aquela que é uma das obras consideradas as maiores do século XXI e, possivelmente, figurando entre as grandes de todos os tempos. Estou falando de “Jimmy Corrigan – O Menino Mais Esperto do Mundo”, escrita e desenhada por Chris Ware, na qual ganhou uma edição caprichada e de tradução perfeita no Brasil pela editora Companhia das Letras, no selo Quadrinhos na Cia (a HQ, atualmente, está sendo republicada em terras nacionais).

Com base nessa leitura, pude refletir bastante no uso da linguagem própria do meio para contar uma história em quadrinhos. Até porque existe uma necessidade intrínseca a contar diversas histórias e utilizar o máximo da capacidade que aquela mídia pode transmitir. Como disse Marshall McLuhan: “o meio é a mensagem”.

Posso dar dois exemplos aleatórios com animações de heróis para ilustrar isso. Uma com “Operação Big Hero”, filme de 2014, que é bastante convencional ao tratar de uma narrativa com ideias da nona arte, além de ser baseada em uma. Tomemos a outra com “Homem-Aranha no Aranhaverso”, de 2018. Apesar de eu não gostar tanto dessa – entendendo bem quem ama -, é inegável a capacidade estética da produção ao usar a linguagem que apenas o cinema pode ter (imagem em movimento) em uma mistura com o mundo dos quadros.

A obra de Chris Ware não é uma realização comum. Seus trabalhos sempre buscam uma correlação bem clara entre o formato e a trama. Nisso, adentramos em “Jimmy Corrigan”, uma HQ que utiliza isso até dizer chega. O que falar do início, com já algo sendo contado através do encarte? Em que outro estilo artístico poderíamos ter algo parecido? Além disso, a própria capa, ilustrando o personagem lateralmente, já denotam um certo sentido de uma realização não tão padronizada. Ware conta a vida de Jimmy, que realmente não é padrão. A disfuncionalidade, aliás, é o recorrente na sua existência. Pergunto a você leitor: será que existiria um impacto nessa produção feita para o cinema, literatura, teatro ou música? As diferentes formas de mídia trazem diferentes maneiras de produzir e fazer a audiência receber aquilo.

O autor não é único e nem exclusivo no meio dos quadrinhos. “Lone Sloane”, de Philippe Druillet, por exemplo, gera uma experimentação visual do meio desde os anos 1970. Aliás, parando para pensar, o primeiro quadrinho de herói pode ser chamado também de experimental, visto que destoava das realizações de seu período histórico. “Moonshadow”, criado por J.M. Dematteis e Jon J Muth em 1985, usa e abusa de elementos além do seu próprio tempo, afim de gerar situações e questões únicas na narrativa. Essa história só conseguem ser consumida dentro do meio.

Para não esquecer do Brasil, duas HQs são essenciais: “Você é um Babaca, Bernardo”, de Alexandre Lourenço, e “A Insustentável Leveza do Ser”, de Laerte. Ambas distantes temporalmente, todavia utilizando seu meio para buscar novidades.

Apesar de ficarmos muitas vezes acostumados em nosso patamar de leitura, é extremamente necessária uma transformação. O mundo dos quadrinhos, hoje habitado por uma diversidade que não será a mesma daqui a algum tempo, precisou de modificações para ser o que é. Acima de tudo, precisou de autores que buscassem olhar para a sua linguagem elaborando novidades dentro dela. Gostando disso ou não, as artes sempre precisam de seu experimentalismo.

Capa da edição original de Sabrina.

Notícia da Semana. A editora Veneta anunciou seus lançamentos no meio dos quadrinhos para 2020 e, contando com outros excelentes títulos, dois se destacam mais: “Sabrina” e “Berlim”. As duas possuem diferentes maneiras de passar histórias diversas, porém relacionado bastante com o tema da coluna de hoje. O uso da nona arte é fundamental para compreender o buscado pelos quadrinistas realizadores.

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