A primeira mulher desenhando Tex

Criado em 30 de setembro de 1948 em uma história de tiras semanais, que durou até 1967, Tex foi um dos personagens mais representativos de sua época. Advindo do sucesso absoluto dos faroestes no cinema, era uma herói bem claro, à moda clássica. Elaborado pela dupla de grande sucesso nas HQs italianas, Giovanni Luigi Bonelli e Aurelio Gallepini, sua iconografia sempre tratava do homem branco que salvava uma mulher indefensa, lutando com índios e negros para isso – em boa parte dos casos.

Os tempos mudaram e sua persona deveria ganhar uma nova dinâmica aos tempos atuais, certo? Bom, nem tanto. Ele continuou vendendo um número sempre razoável para um público de homens mais velhos, na suma maioria. Esses estavam totalmente relacionados àquela figura bem típica de um outro período da história do mundo. Não que não devesse existir ou ter existindo, mas é interessante pensar como suas características e pensamentos expressam tantas questões retrógradas, mesmo quando analisam algo mais crítico.

A grande questão desse texto em si é elucidar a demora para termos uma mulher envolvida com os desenhos de Tex. O convite aconteceu para Laura Zuccheri em 2014, a fim de ilustrar o quadrinho “A Vingança de Doc Holliday”, publicado pela Editora Mythos no Brasil agora em 2019. Muito tempo de estrada se passou para chegarmos a um momento excepcional como esse. Simplesmente precisaram se passar 66 anos desde seu nascimento pela nona arte para que houvesse a participação de uma mulher pela primeira vez.

Para além da necessidade de reafirmação pela maior participação feminina na indústria dos quadrinhos, essa questão foi importante ainda por outro sentido: Tex é um personagem extremamente machista. Com atitudes sempre reprováveis em relação às mulheres, sempre se mostrou urgente a necessidade de um outro ponto de vista, com a intenção de não sensualizar à toa – ou até pior. Por estarmos lidando com desenhos, as possibilidades de demonstração da figura da mulher precisam entrar em debate, como foi quase sempre com Vampirella, ou com Milo Manara pelo desenho da Mulher-Aranha.

Alguns nomes de mulheres têm despontado como pioneiras nessa discussão toda. Relembrando o século anterior, Trina Robbins e Jill Thompson são dois grandes nomes a não serem esquecidos (apenas a segunda, porém, continua na ativa, tendo feito “Mulher-Maravilha: A Verdadeira Amazona” e “Beasts of Burden” como maiores sucessos). Mais recentemente G. Willow Wilson foi uma das refrescantes novidades, tendo desenhando a série vencedora do Eisner da “Ms. Marvel”.

Trazendo para terras nacionais, temos personalidades como Lu Caffagi, em que participou de um dos maiores sucessos recentes dos quadrinhos (“Turma da Mônica: Laços”), e Germana Viana, que angariou destaque na quebra de preconceitos por “Lizzie Bordello e as Piratas do Espaço” e “Gibi de Menininha”, essa vencedora do Troféu HQMix.

Casos como o da quadrinista Laura Zuccheri precisam se repetir no mundo das HQs. Ao ser questionada por Gianmaria Contro – em uma entrevista que também está na edição lançada no Brasil -, sobre o faroeste estar “distante da sensibilidade feminina” e se a mesma estaria pronta para “desmentir isso”, ela responde que “sem hesitar!”. Só esperar agora que mais Lauras apareçam na nona arte.

Capa do especial de Robin.

Notícia da semana. A DC anunciou, ainda nas comemorações dos 80 anos do Batman, um especial do Robin. Na edição, sob o nome de “Robin 80th Anniversary 100-Page Super Spectacular”, Marv Wolfman, Tom Grummett, Chuck Dixon, Scott McDaniel, Dan Jurgens, Tom King, Mikel Janin, James Tynion IV, Peter J. Tomasi, entre outros, estarão participando da celebração ao ajudante do homem-morcego. Todos os personagens que estiveram com seu manto (ou seja, Dick Grayson, Jason Todd, Tim Drake, Stephanie Brown e Damian Wayne) terão tramas dentro da HQ.

O lançamento está previsto para março de 2020 e a capa que você confere acima é de Le Weeks.