3 quadrinhos brasileiros para ler durante a quarentena (Parte 2)

Continuando com o post da última semana, agora vamos indicar 3 quadrinhos brasileiros que precisam ser adquiridos em edições físicas, visto que não estão disponíveis pelo meio digital. Tentando buscar algo diferente, pensei em 3 obras de diferentes patamares, porém que expressam a multiplicidade da produção quadrinística nacional.

. Dora

Um trabalho de horror. É assim que podemos definir o que Bianca Pinheiro cria em um clima extremamente macabro e igualmente impactantes. Em “Dora”, vemos a história de uma menina que parece ter poderes telepáticos e, além disso, parece ser responsável por mortes estranhas na sua vizinhança, ainda mais devido as suas atitudes e forma de ser. No meio disso tudo, vemos sua mãe e uma investigadora debatendo, cada um colocando o seu lado e a mãe da garota, especialmente, parece não acreditar nunca.

É um trabalho que vai crescendo com o tempo. Apesar de ser um trabalho fechado, os diversos traços de personalidades desses seres torna uma obra muito mais complexa do que parece a princípio. O terror nos quadrinhos nacionais, definitivamente, ganha muito com os traços esquisitos de Bianca.

. Culpa

Curtíssima HQ lançada no selo Ugritos, coleção de curtas histórias da loja Ugra Press (veja aqui). Em uma obra que retrata o peso da culpa na relação de dois irmãos, Cristina Eiko idealiza personalidades diferentes, complexificadas, além de colocar um peso na sua trajetória. São personagens aparentemente simples, até pelo fato de não haver páginas para um maior desenvolvimento narrativo, contudo eles sempre se apresentam como quase uma personificação de uma realidade.

Desse jeito, Eiko coloca uma produção aparentemente simples para divulgar o papel da culpa em uma condição infantil, ao mesmo tempo que trazer em como isso pode reverberar para sempre na mente dos leitores.

. Capa Preta

Lourenço Mutarelli dispensa muitas apresentações. Um dos grandes quadrinistas e romancistas contemporâneos, o autor faz suas obras sempre de uma maneira a misturar o choque com um sentimentalismo muito grande. Nesse sentido, é até difícil entender qual veia literária Mutarelli tenta trazer, pois parece um artista que busca muito mais um certo âmago humano que poucas inspirações artísticas trazem.

Em “Capa Preta”, é possível ler as primeiras publicações dele como quadrinista, contendo as HQs Transubstanciação (1991), Desgraçados (1993), Eu Te Amo Lucimar (1994) e A Confluência da Forquilha (1997). Para quem não está tão acostumado com a nona arte, talvez seja um trabalho de um impacto bem maior do que o esperado. Porém, para os que querem se aventurar, é, definitivamente, necessário.

“A Gangue da Margem Esquerda”, de Jason.

Notícia da Semana. A editora Mino lança a HQ “A Gangue Da Margem Esquerda” agora em abril. É o terceiro lançamento de Jason no país, depois de “Sshhhh!” e “Eu Matei Adolf Hitler”, duas grandes obras com um humor ácido e totalmente emotivas.

Vencedora do Eisner de Melhor Edição Americana de Material Internacional em 2007, a produção brinca com grandes autores da literatura. O preço de capa é R$44.

3 quadrinhos brasileiros para ler durante a quarentena (Parte 1)

Continuando as listas de quarentena, resolvi essa semana inovar. Assim, nessa e na outra, irei fazer duas listas com 3 quadrinhos brasileiros para serem lidos. A graça de hoje é que serão APENAS materiais que estão disponíveis digitalmente para serem lidas, algumas pelos próprios autores para ajudar na quarentena da população. Dessa forma, aproveite a oportunidade para ler grandes HQs e, obviamente, ficar em casa.

. Reparos

Uma das publicações mais recentes do quadrinista Brão Barbosa, que se tornou em um dos nomes mais interessantes da produção independente quadrinística nacional. Dentre suas outras obras estão “Feliz Aniversário, Minha Amada” e “Jesus Rocks”, materiais que também podem ser lidos no site de Brão gratuitamente.

Porém, abordando aqui “Reparos”, acompanhamos uma história de uma menina apaixonada por ciência, que começa a desenvolver uma amizade por um velho ranzinza. A trama se desenvolve de uma maneira sempre a levar para uma emoção única, sempre na relação entre esses dois personagens. Apesar de simples, ela leva para um caminho bem mais simples e até singelo que seus outros trabalhos, o que pode impressionar a alguns. Em tempos de confinamento, uma emoção genuína faz falta. E essa HQ pode fazer isso a você.

. A Insustentável Leveza do Ser

Não, não estamos falando do livro de Milan Kundera, um dos livros mais clássicos da literatura mundial. Estamos abordando um curtíssimo quadrinho de Laerte, que mostra sua genialidade como poucos. É, sem sombra de dúvidas, uma das produções narrativas em quadrinhos mais clássicas e importantes para o cenário brasileiro. Além de tudo, o mais incrível é como a autora usa desse estilo de narrativa para explorar novas maneiras de como fazer HQs.

Laerte ainda usa e abusa dos padrões sociais para descontruí-los de uma maneira que talvez só a autora tenha conseguido no período em que “A Insustentável Leveza do Ser” foi lançada, nos anos 80. Ela pode ser lida aqui.

. Aos Cuidados de Rafaela

Apesar de lançada em 2014, ouso falar que esse é um dos futuros clássicos da nona arte nacional. Pode ser um pouco prepotente ou até tentar prever algo com uma complicação gigantesca dentro da atual produção de quadrinhos brasileira. Porém, Marcelo Saravá e Marco Oliveira geram uma HQ com diversos contornos bem mais complexos do que realmente tem.

Na história, acompanhamos um homem que busca uma cuidadora para sua mãe, que possui problemas de relacionamento com diversas mulheres. Certo dia, Rafaela aparece e começa a fazer sua cabeça, pela paixão sexual que gera nele. A partir disso, uma disputa de egos, paixões e também dominação se inicia.

É uma produção que consegue brincar com os diversos caminhos da narrativa visual, desde o uso complexo de cores para entender os personagens, até a mistura de realidade/mentira/sonho. Definitivamente, um material que vale ser lido (e pode ser aqui), sem ser esquecido.

O desenhista Albert Uderzo.

Notícia da Semana. Morreu o desenhista Albert Uderzo, de 92 anos, um dos criadores do Asterix e Obelix, devido a uma parada cardíaca. O anúncio foi feita pela família nessa terça-feira, dia 24. Ele, junto de René Goscinny, fez história com os personagens franceses criados em 1959. HQs podem ser adquiridas aqui.

A linguagem dos quadrinhos

Há pouco tempo atrás, li, pela primeira vez, aquela que é uma das obras consideradas as maiores do século XXI e, possivelmente, figurando entre as grandes de todos os tempos. Estou falando de “Jimmy Corrigan – O Menino Mais Esperto do Mundo”, escrita e desenhada por Chris Ware, na qual ganhou uma edição caprichada e de tradução perfeita no Brasil pela editora Companhia das Letras, no selo Quadrinhos na Cia (a HQ, atualmente, está sendo republicada em terras nacionais).

Com base nessa leitura, pude refletir bastante no uso da linguagem própria do meio para contar uma história em quadrinhos. Até porque existe uma necessidade intrínseca a contar diversas histórias e utilizar o máximo da capacidade que aquela mídia pode transmitir. Como disse Marshall McLuhan: “o meio é a mensagem”.

Posso dar dois exemplos aleatórios com animações de heróis para ilustrar isso. Uma com “Operação Big Hero”, filme de 2014, que é bastante convencional ao tratar de uma narrativa com ideias da nona arte, além de ser baseada em uma. Tomemos a outra com “Homem-Aranha no Aranhaverso”, de 2018. Apesar de eu não gostar tanto dessa – entendendo bem quem ama -, é inegável a capacidade estética da produção ao usar a linguagem que apenas o cinema pode ter (imagem em movimento) em uma mistura com o mundo dos quadros.

A obra de Chris Ware não é uma realização comum. Seus trabalhos sempre buscam uma correlação bem clara entre o formato e a trama. Nisso, adentramos em “Jimmy Corrigan”, uma HQ que utiliza isso até dizer chega. O que falar do início, com já algo sendo contado através do encarte? Em que outro estilo artístico poderíamos ter algo parecido? Além disso, a própria capa, ilustrando o personagem lateralmente, já denotam um certo sentido de uma realização não tão padronizada. Ware conta a vida de Jimmy, que realmente não é padrão. A disfuncionalidade, aliás, é o recorrente na sua existência. Pergunto a você leitor: será que existiria um impacto nessa produção feita para o cinema, literatura, teatro ou música? As diferentes formas de mídia trazem diferentes maneiras de produzir e fazer a audiência receber aquilo.

O autor não é único e nem exclusivo no meio dos quadrinhos. “Lone Sloane”, de Philippe Druillet, por exemplo, gera uma experimentação visual do meio desde os anos 1970. Aliás, parando para pensar, o primeiro quadrinho de herói pode ser chamado também de experimental, visto que destoava das realizações de seu período histórico. “Moonshadow”, criado por J.M. Dematteis e Jon J Muth em 1985, usa e abusa de elementos além do seu próprio tempo, afim de gerar situações e questões únicas na narrativa. Essa história só conseguem ser consumida dentro do meio.

Para não esquecer do Brasil, duas HQs são essenciais: “Você é um Babaca, Bernardo”, de Alexandre Lourenço, e “A Insustentável Leveza do Ser”, de Laerte. Ambas distantes temporalmente, todavia utilizando seu meio para buscar novidades.

Apesar de ficarmos muitas vezes acostumados em nosso patamar de leitura, é extremamente necessária uma transformação. O mundo dos quadrinhos, hoje habitado por uma diversidade que não será a mesma daqui a algum tempo, precisou de modificações para ser o que é. Acima de tudo, precisou de autores que buscassem olhar para a sua linguagem elaborando novidades dentro dela. Gostando disso ou não, as artes sempre precisam de seu experimentalismo.

Capa da edição original de Sabrina.

Notícia da Semana. A editora Veneta anunciou seus lançamentos no meio dos quadrinhos para 2020 e, contando com outros excelentes títulos, dois se destacam mais: “Sabrina” e “Berlim”. As duas possuem diferentes maneiras de passar histórias diversas, porém relacionado bastante com o tema da coluna de hoje. O uso da nona arte é fundamental para compreender o buscado pelos quadrinistas realizadores.

Para conferir o catálogo completo da editora, clique aqui.

Entrevista com Leandro Assis, de Os Santos

Ilustrador, Leandro Assis começou sua carreira buscando realizar perfis, personalidades, entre outros. O mundo político entrou em sua vida com uma força tremenda, fazendo o quadrinista realizar trabalhos sempre bastante críticos a diversas forças da direita, desde o juíz e atual Ministro da Justiça, Sérgio Moro, até o presidente brasileiro, Jair Bolsonaro. Algumas dessas tiras podem ser vistas aqui.

Após participar da coletânea “Moluscontos”, na qual será impressa através do financiamento pelo Catarse, ele começou uma série de tiras chamada, incialmente de “Os Bolsominions”. A mudança ocorreu e agora a produção possui o título de “Os Santos”, contudo a ideia é a mesma: contar, de forma bem direta e dura, sobre o que é a elite brasileira. Isso, através de uma trama diversa e que ressoa de maneira precisa com os dias atuais.

Cláudio Gabriel: Você mudou o nome das tiras de Os Bolsominions para Os Santos. Por que essa escolha?

Leandro Assis: A ideia de fazer a tira veio da vontade de falar sobre um tipo de eleitor do Bolsonaro. Mas vários Bolsominions passaram a entrar no meu perfil alegando que eu estaria generalizando, chamando todos os Bolsominions de preconceituosos e racistas. Claro que não estava fazendo isso. Estava falando de um determinado tipo de eleitor do Bolsonaro. Enfim. Para não permitir que os Bolsominions entrassem no perfil para reclamar e desviar o foco das tiras para essa questão, decidi mudar o título. 

CG: Qual a importância de trazer esse olhar sobre a elite brasileira, especialmente em um período forte ideologicamente no país?

LA: Temos uma elite escravocrata, preconceituosa, classicista e extremamente egoísta. Nossa elite luta furiosamente para não perder privilégios e manter toda uma parcela da população na condição de subalterno. Até quando? E a eleição do Bolsonaro é a reação direta dessa elite a um momento em que os pobres tiveram alguma melhoria de vida. Estamos em um momento triste, em que a política neo liberal e os retrocessos nos costumes vão representar uma piora na vida dos pobres e das minorias. Só nos resta enfrentar isso. Falar dessa situação. Tentar promover discussão, reflexão e constranger a elite. 

CG: Como você vê a força da sua obra na atual realidade do país? Contando também o fato que diversas produções brasileiras retratam a disputa de classe do país.

LA: Eu não sei avaliar a força do meu trabalho. Sei que a reação está sendo muito maior do que eu poderia imaginar. Professores vieram me dizer que estão usando as tiras em sala de aula. Leitores dizem que tem refletido mais sobre como agir. Domésticas me procuram para agradecer, dizem que se sentem representadas. Enfim. Obviamente as tiras estão tocando muita gente. E se isso ajudar a promover discussão sobre racismo e desigualdade social já terá sido espetacular 

CG: Vejo muitos comentários retratando sempre uma tristeza aos ler as tiras. Como você vê isso?

LA: Acho que as tiras expõem a falta de empatia da elite. E como essa falta de empatia leva à exploração de outros brasileiros. E essa é uma situação extremamente triste para quem a vive na pele. Vem daí a tristeza vista nas tiras. Mas eu espero não ficar apenas na tristeza. Não é para ser uma série sobre pessoas que só fazem sofrer. E quem sabe haverá reviravoltas nessa história?

CG: A história tem sido publicada através das redes sociais. De que forma você observa esse processo? É diferente do que realizar em um meio tradicional?

LA: Essa tira foi pensada para ser lida no Instagram. Tive essa ideia depois lendo as tiras do “Pacha Urbano”, As traumáticas aventuras do filho do Freud. Gostei muito da experiência de ler quadro a quadro. Ou seja, a história está sendo contada nesse formato porque foi pensada pro Instagram. Se eu tivesse sentado para fazer uma graphic novel, certamente seria bem diferente.

Além disso, há a resposta imediata dos leitores. Os comentários. A troca. Tudo muito rico e estimulante. O livro, nesse aspecto, é mais frio. Por outro lado, muita gente vem pedindo para que eu lance as tiras em livro (o que está nos planos), que tem a vantagem de ler todas as tiras reunidas, em ordem etc.

CG: Ao fim das tiras, há uma possibilidade de haver uma edição reunindo todas? Como você tem visto isso?

LA: Sim. É praticamente certo reunir as tiras em um livro. Só é precisa que a história tenha fôlego para isso! 

Capa de O Gourmet Solitário

Notícia da Semana. A editora Devir lança no Brasil a HQ “O Gourmet Solitário”, escrita por Masayuki Kusumi e desenhada por Jiro Taniguchi. O mangá acompanha o selo tsuru, de obras clássicas japonesas trazidas pelo Brasil, como já haviam sido trazidas antes “O Homem que Passeia”, “Nonnonba”, entre outros.

Na história, acompanhamos uma passeio por diversas regiões de Tóquio enquanto o protagonista saboreia os mais variados sabores, além de adentrar em um mundo diferente a cada prato comido. A obra custa o preço de capa de R$45 reais.

O mundo Silvestre de Wagner Willian

A floresta pode ser sempre um território dúbio aos humanos. Enquanto traz diversas sensações de desespero e um lado até desolador, pode ser quase um abraço a quem sente-se solitário, imaginando a quantidade de espécies por ali. Da mesma forma, a natureza pode buscar o pior e o melhor da espécie, causando sempre uma curiosidade de vivência por parte dos seres racionais aqui presentes.

Em busca de entender através de preceitos filosóficos sobre quem somos em torno desse espaço, Wagner Willian realiza seu mais novo trabalho, “Silvestre”. Na história, um caçador anda por uma floresta tentando se encontrar e buscar uma presa. Ele acaba, no entanto, sendo capturado por todo esse espírito local, incluindo diversos seres mágicos, e participando de um ritual ali dentro. Estaria ele sendo levado para algum lugar? Até que ponto tudo isso serve de bem ou de mal para esse ser? O ambiente pode simplesmente destruir ou criar tudo? Questionamentos como esses são levantados na ideia de entender o que realmente é silvestre.

Para colocar isso de frente, Willian divide sua história em três capítulos: Seguia um Rastro de um Raro Animal, A Celebração e O Apressado Come Cru. Dentro dessas divisões é possível compreender claramente toda a relação imagética colocada pelos traços do autor. Aliás, imagem é o que realmente causa o maior impacto de “Silvestre”, uma HQ que – definitivameente – só poderia ser feita através da nona arte. A mistura de pincel, tinta, lápis e até sangue do artista colocam toda uma questão de cor e desenhos gerando um mundo novo, praticamente irreal, contudo com alguns traços de um mundo palpável.

É possível perceber toda a dicussão temática tendo como maior influência o autor naturalista Henry David Thoreau. Há ainda citações por parte de Wagner do pintor Eugène Delacroix e do filme “Dersu Uzala”, de Akira Kurosawa. Essas misturas de elementos ainda trazem mais força quando estão em contato com as colocações culturais diversas em representações simbólicas, especialmente nos rituais. Seres de diversas religiões, mitologias e crenças ao longo da trajetória humana causam impacto por sua mescla, todavia sempre pertencentes e criadas pelos homens/mulheres aqui presentes. A crença, algo tão debatido mais recentemente, passa a ser um ideal mágico e menos relacionado a um mundo específico, mas sim a todos.

Nessa perspectiva, Wagner Willian coloca “Silvestre” como um quadrinho afim de debater perspectivas. Essas podendo ser sobre crenças, assim como a relação dos humanos com a natureza, e como entendemos nossa própria vivência na Terra. O sexo, dessa forma, acaba por ser um elemento fundamental de toda essa concepção de universo, proposto como nossa colocação fora de uma racionalidade, movida a uma emoção. Emoções tão típicas de humanos, todavia tão colocadas de lado pelos mesmos. Afinal, e se realmente nos assumíssemos como silvestres? Seriam as cidades as verdadeiras florestas? Isso cabe apenas a reflexão buscar respostas.

Logo da novo evento da editora

Notícia da Semana. A Marvel Comics anunciou “Empyre” como sua mais nova megasaga (ou evento) nos quadrinhos. Com previsão de início para abril, a série irá contar uma história unindo os Vingadores e o Quarteto Fantástico, porém ainda sem uma previsão anterior de quantas edições terá por completo. O que é sabido da trama, por enquanto, é que os vilões serão os Kree e os Skrulls atacando a Terra.

O roteiro será de Wal Ewing e Dan Slott, enquanto os desenhos ficam a cargo de Valerio Schiti. Pelo que tem sido prometido, será um “épico interestellar”.

Capa da primeira edição da volta de Condorito.

Notícia da Semana 2. Depois de 27 anos, o personagem Condorito, nome da famosa HQ chilena de Pepo, voltará a ser publicada no Brasil. Os quadrinhos mesclam de influências e sendo influenciados por alguns dos nomes de maior destaque da Disney, como Zé Carioca, Mickey, Pateta, entre outros.

“Condorito” traz uma história sobre pessoais em condições de maior pobreza dentro do Chile, visto que é um Condor, ave símbolo do país sul-americano.

Com previsão de chegar em março desse ano e com uma história inédia de 48 páginas, o quadrinho já pode ser apoiado através do Catarse. Veja aqui as recompensas e como garantir o seu.

Julio Shimamoto e seu Ditador Frankenstein

No ano de 1969, em São Paulo, o diretor artístico Julio Shimamoto andava para fora de seu escritório quando foi revelado que dois homens o esperavam. Esses se disseram agentes federais e colocaram o homem, de então 30 anos, em um camburão. Diversas possibilidades de tortura foram ventiladas nos ouvidos de Julio, porém, por uma sorte do destino, não teve nada realizado perante seu corpo – visto que seu psicológico já estava abalado. O caso marcou a carreira do então jovem Shimamoto, na qual tornaria-se um dos maiores nomes dos quadrinhos do Brasil. O mesmo caso marcou sua maneira de fazer HQs para sempre.

Com base nisso, o editor Márcio Paixão Júnior, da editora MMarte, colocou no mundo um trabalho prévio e histórico. Digo isso pois, na intensa dificuldade de trabalhar e ler materiais clássicos da nona arte brasileira, o feito de Márcio não é menos que incrível. Lançando “O Ditador Frankenstein e outras histórias de terror, tortura e milicos”, temos 11 histórias (e uma relançada em outro formato) em um encadernado único. Todas as histórias com desenhos de Julio, e outras até com seu roteiro, que retratam toda uma fúria contida desse passado obscuro da trajetória brasileira.

E digo fúria porque é realmente uma fúria contida dentro dos traços de Shimamoto. Um caráter nada formal, nada relacionado a uma estética feita por Angeli e Laerte, por exemplo. Há um certo conceito bastante pesado para desenhar cada pequeno detalhe, especialmente os militares. Logo no enredo título desse volume, “O Ditador Frankenstein”, escrito por Luiz Antonio Aguiar, observamos uma dualidade entre a paranóia e o rídiculo. Os militares, ainda vigentes no controle político do período, são retratados sempre como bobos, quase impossíveis de estarem naquele comando. Sua aura maquiavélica causa uma relação interessante com os mais diversos gêneros.

Falando nisso, o apuro de escolha por parte de Marcio foi deveras interessante, a ponto de trazer um verdadeiro volume, com pouco mais de 200 páginas, quase puramente voltado a tramas de gênero. Ficção-científica e horror se misturam a quase todo instante, trazendo possibilidades a serem exploradas perante essas figuras inimigas. Um desses casos mais emblemáticos são as HQs escritas por Basílio de Almeida, em que acompanhamos casos de um repórter vislumbrando lados sobrenaturais de personagens da ditadura militar brasileira – sejam eles mortos ou soldados. Aliás, há um intrigante olhar para o início da milícia no período dentro da história “O Esquadrão dos Mortos!”.

Com esses elementos mais claros de ficção e menos documentais, é perpectível as diferenças de realização nos quadrinhos roteirizados também por Shimamoto. Ali, mais do que apenas essa relação forte com os traços, sempre bastante aguerridos, existe também uma carga forte de melancolia, contrastando com o cômico de outros enredos. Parece haver um sentimento mais pesado, rememorando até histórias pulp e de terror dos anos 40 e 50, sempre trabalhando um lado dramático muito forte dos personagens e, do mesmo modo, nos monstros.

“O Ditador Frankenstein e outras histórias de terror, tortura e milicos” fecha o ano de 2019 em uma maneira quase perfeita. Julio Shimamoto volta para os catálogos e para as possibilidades de ser repensado em tempos contemporâneos. Quando ondas cada vez mais ditadoriais retomam o discurso em terras brasileiras, o falado pelo autor há muito anos atrás reverbera quase como um espelho. Um espelho não muito bonito de ser olhado, mas sim pesado, cheio de marcas e impossível de ser esquecido pela memória.

Notícia da Semana. A Amazon divulgou no último dia 20, sexta, a lista das 20 HQs mais vendidas em sua loja virtual no ano de 2019. Impulsionados ainda pela série, “Watchmen” fica no topo desbancando a todos. Impressionantes são os números de “Akira”, com os volumes 2, 3 e 4 na listra, mostrando-se um sucesso, assim como “Drunna” e “Black Hammer”. A maior surpresa de todas fica por conta de “O Preço da Desonra” estar presente em uma posição tão alta e “Maus”, trazendo um certo paralelo com o complexo ano.

Veja abaixo os 5 primeiros lugares. A lista completa pode ser conferida aqui.

HQs mais vendidas pela Amazon em 2019.

Entrevista com Felipe Kroll, de Os Fantasmas do Vento

Felipe Kroll já um nome reconhecido pelas suas artes sempre estunteantes de personagens como Hellboy, Capitão América, entre outros. Contudo, o autor agora começa uma nova jornada com sua história “Os Fantasmas do Vento”, na qual teve seu primeiro capítulo publicado completo no Instagram do artista.

A trama traz uma melancolia presente, sem tantas respostas, por agora, mas com um ar filosófico e intrigante no ar. Sua existência, decorrida de incentivos da prefeitura de Rio Preto e do Governo do Estado de São Paulo, era para ter saído diretamente no site do projeto. Entretanto, a publicação na sua rede social colaborou para que mais pessoas conhecessem essa obra. A expectativa fica, agora, para o que virá pela frente.

Como surgiu a ideia da história de “Os Fantasmas do Vento”? Existe já uma ideia de com quantos capítulos era será finalizada?

Os fantasmas tomou forma a partir de um texto que escrevi em 2018 intitulado “Nós Vamos Desaparecer”. Não tinha intenção nenhuma de fazer um livro, até porque era um texto bem pequeno, quase um poema em forma de conto narrando questionamentos do “Abel”, que hoje se tornou um dos personagens. Inicialmente era um texto de apoio de uma outra história minha, mas durante a produção percebi que tinha mais a dizer e as páginas foram aumentando, novos personagens foram surgindo e a história acabou tomando vida própria. Serão 15 capítulos, com, aproximadamente, 80 páginas de história.

Por que publicar direto no Instagram? Como surgiu esse pensamento?

Publicar no Instagram não foi nada previamente pensado. A publicação mesmo será no site oficial da história, que está acabando de ser produzido. No entanto, achei que seria válido, antes de lançar o site completo no ar, ir postando os capítulos pra atrair e construir um público. Escolhi o instagram apenas pelo fato de achar mais prático e ter o formato quadrado de postagem – próximo ao das páginas do livro. Mas poderia ter sido qualquer outra rede social… Estou inclusive postando trechos no facebook, deviant art e art station.

Acredita que essa publicação nas redes sociais é uma forma de popularizar os quadrinhos?

Sim.

O Instagram permite apenas poucas fotos continuamente, por isso o primeiro capítulo acaba sendo curto. Acredita que isso possa ser um empecilho para seu pensamento ou “Os Fantasmas do Vento” foi pensado desde o início assim?

Este projeto não foi produzido pensando no Instagram ou em ser moldado em postagens, mas o capítulo I mesmo está do tamanho e formato que foi idealizado sem nenhum corte ou adaptação. Então com certeza acredito que não é empecilho nenhum, pode ser que aconteça uma divisão de capítulos em duas postagens, mas ainda assim toda a ideia do livro será transmitida perfeitamente.

Existe alguma ideia em mente de um volume compilando os capítulos posteriormente?

Vai sair a versão impressa e e-book, no entanto o livro continuará na integra gratuito nas redes sociais e site.

A HQ é feita através de incetivos da prefeitura de Rio Preto e do Governo do Estado de São Paulo. Quanto importante foi o apoio desses entes estatais para a realização dessa obra?

Se não houvesse esse apoio provavelmente este projeto não seria realizado. Agradeço muito o incentivo na minha história, (eu mesmo não acreditava), e espero fazer valer a pena todo esse investimento.

Capa de Mondo Urbano.

Notícia da Semana. A Editora Mino relançou, na Comic Con Experience 2019, a HQ “Mondo Urbano”. Produzida por Mateus Santolouco, Eduardo Medeiros e Rafael Albuquerque – alguns dos nomes do selo Stout Club -, ela se transformou em uma das publicações independentes de maior sucesso com o público brasileiro quando saiu, em 2009. Na história, música e ritmo são os destaques principais.

A edição comemorativa, sob o preço de R$64,90, conta com diversos extras e um making of especial. O modelo similar ao lançamento recente de outra edição especial, no caso de “Mesmo Delivery”, de Rafael Grampá, publicado também pela Mino.

Capa de Cascão, nova Graphic MSP

Notícia da Semana 2. Durante o painel da Maurício de Souza Produções na CCXP 2019, foram anunciadas as novas Graphic MSP que terão em 2020. A maior noviade fica para o anúncio de “Cascão”, na qual será feita por Camilo Solano. Além dela, foram reveladas continuações de Jeremias (“Jeremias 2”), Astronauta (“Astronauta V”) e Penadinho (“Penadinho 2”).

A velocidade de Luciano Salles

Devo admitir que, por um gigantesco erro pessoal, nunca havia lido anteriormente uma obra de Luciano Salles. A vontade sempre foi imensa, porém sempre acabava deixando passar os financiamentos coletivos e acabava esquecendo de economizar para conseguir comprar. De toda forma, já agendei a compra de suas HQs anteriores, pois tive a oportunidade de ler “Grand Prix Metanoia”, seu novo trabalho e que – dessa vez – consegui apoiar pelo Catarse.

Bom, na história temos, basicamente, uma corrida de carros em um ambiente inóspito. De um lado está Velociptor V, do outro Alba Troz. Quem fala um pouco sobre todos os acontecimentos são Lavi e Vinci, narradores desconhecidos por parte do público, todavia presentes para contar cada passo da história. Essa presente em um deserto extremamente esquisito e com alguns dinossauros capazes de mudar o rumo dos acontecimentos.

É impossível aqui não destacar o efeito de velocidade trazido na disputa. Salles sabe, como poucos nas histórias em quadrinhos, dar uma dimensão de velocidade absurda dentro da sua narrativa. Os carros ultrapassam qualquer limite, enquanto ele brinca com questões das dimensões de espaço do ambiente e dos veículos nesse meio. Em uma parte, por exemplo, abre o plano para mostrar aqueles dois aparatos eletrônicos de se locomover bem pequenos, quase insignificantes – remetendo bastante a algo mais cinematográfico, como em “Mad Max: Estrada da Fúria”. Ao mesmo tempo que, quando estamos aproximados desses personagens, há um efeito de a relação entre essa velocidade e os próprios, digno da corrida de podracers, a melhor coisa de “Star Wars: A Ameaça Fantasma”.

Com tudo isso, o autor transforma seus protagonistas em meros aparatos de todo esse meio, servindo a, meramente, correr. Quando a ruptura acontece, próximo ao fim das 24 páginas, tudo faz mais sentido. Não soltarei spoilers, prometo, contudo é ali que ocorre o maior fascínio por essa produção. Os elementos estéticos e físicos daquilo visto antes, fazem muito mais parte de todo esse cosmo criado.

De toda forma, Luciano Salles traz para essa sua HQ algo deveras interessante em termos narrativos: como usar a velocidade. Em filmes hollywodianos isso pode parecer até mais “fácil”, com carros explodindo a esmo e perseguições em alta velocidade. Mas, de qual forma passar isso para uma resolução em quadrinhos? Como conseguir trabalhar esse modelo a ponto de o leitor sentir esse vento passando pelo seu corpo? Para saber isso, recomendo ao leitor apenas ler “Grand Prix Metanoia”. Essa correira do mundo ultrapassa pequenos caminhos temporais, chegando até aos nossos olhos.

Arte de Rafael Grampá.

Notícia da semana. O que falar das manifestações em Hong Kong, com inspiração em uma arte de capa de “The Dark Knight Returns: The Golden Child”, que ainda nem foi lançada (essa acima)? No desenho, feito pelo brasileiro Rafael Grampá e colorido pelo também brasileiro Pedro Cobiaco, Carrie Kelly – agora como Batwoman – aparece lançando um coquetel molotov. A ilustração, sem qualquer relação oriental, gerou um grande impacto na China, aludindo à ideia de aquilo ser uma força aos protestos de Hong Kong. Teve até jornal chinês defendo a Marvel contra a DC.

O fato é que, ao fim de tudo, os manifestantes do local agora estão utilizando a arte como forma de protesto. E “The Dark Knight Returns: The Golden Child” sai nos Estados Unidos em 11 de dezembro.