3 quadrinhos americanos para ler durante a quarentena

Desde sexta-feira, mas ganhando força nessa semana, o Brasil entrou em uma quarentena para conter o novo coronavírus. Esse vírus que não é tão letal, porém possui a transmissão rápida demais, além de poder ser bem preocupante para diversos grupos (idosos e imunodepressivos, especialmente). Você pode ver formas de prevenção aqui.

Pensando nisso, diversas pessoas pelo Brasil e pelo mundo tem feito diversas atitudes para tentar entreter as pessoas dentro de sua residência. O blog Nona Arte, então, irá fazer diversas listas toda semana – até o fim do período de quarentena – indicando três quadrinhos sempre de diferentes países, lugares, e etc, para que você possa se distrair durante esse tempo.

. Bloodshot

História que ganhou recente adaptação para os cinemas, que você poderá assistir assim que acabar a quarentena. E o melhor de tudo é que ela está disponível online, ou seja, não precisa ter nenhuma diferença para pedir – é só ler no Social Comics.

“Bloodshot” é uma HQ e um personagem da editora Valiant. Ele, que iniciou sua vida nos anos 90, tem uma forte inspiração das tramas de brucutu do cinema americano nos anos 80, além da forte relação tecnológica. Ele é um humano que vira uma máquina para matar biotecnologias, a partir de uma melhora física pela nanotecnologia. Entendo que é muita tecnologia envolvida, mas isso pouco importa porque a graça do quadrinho é a ação desenfreada. O personagem tem diversas versões, desde sua original em 1992, uma releitura em 1996, até sua versão mais recente, dos anos 2010, quando a Valiant voltou a investir no anti-herói. Vale a leitura de todas.

. Superman: Ano Um

Já temos como uma das maiores histórias de todos os tempos do Batman, a HQ “Batman: Ano Um”. Então, pensando nisso, a DC tenta trazer a mesma versão para o Superman, contando sua vida desde os primeiros passos, ao mesmo tempo que pensando em um lado filosófico do nascimento do herói. E, assim no homem-morcego, Frank Miller comanda os roteiros para traz toda essa questão de personalidade e pensamento desse ser alienígena.

A trama foca exatamente nisso: na vida e no crescimento de Clark Kent, ao ponto de se tornar o Superman. Lançada em junho de 2019 nos Estados Unidos, ela agora começa a ser publicada no Brasil, podendo ser achada com facilidade em diversos pontos, até na internet. É uma minissérie em três edições, que esquece um pouco toda a mitologia prévia, para formar algo novo desse universo, assim como em “Superman: Terra UM” e “Superman: Legado das Estrelas”.

. Watchmen

Ok, você que já acompanha o mundo da nona arte há algum tempo pode se perguntar porque coloquei só o quadrinho mais clássico de todos os tempos aqui. A resposta é bem simples: porque não há momento melhor para se ler a densidade dessa HQ, do que nesse período de quarentena. Conseguindo mais tempo, inclusive sem precisar dos deslocamentos em transportes, é a oportunidade perfeita de ler e reler trechos, além de estudar mais os aspectos da obra e, por fim, ver a incrível série da HBO, que dá continuidade ao material original.

Para aqueles que nunca leram “Watchmen”, a trama é sobre uma realidade onde os mascarados foram banidos. Eles não podem exercer vigilância nem nada. Porém, a morte de um dos membros do antigo grupo de vigilantes faz Roschach voltar a ativa e tentar chamar todos de volta para desvendar a situação. Nesse meio tempo, nos deparamos com questionamentos filosóficos, pensamos sobre existência, vigilantismo e segurança pública. Tudo com um roteiro espetacular de Alan Moore e os desenhos fantásticos de Dave Gibbons.

Capa de “Fala, Maria!”

Notícia da Semana. Está chegando ao fim o financiamento coletivo da HQ “Fala, Maria!”, uma belíssima história sobre uma garota com autismo. Trata de condição social, isolamento e como tratar essas pessoas, sempre com uma sensibilidade bem interessante e até única para aqueles que não sabem como lidar bem com casos assim.

Escrita e desenhada pelo artista mexicano Bef, ela pode ser apoiada por aqui. Não percam a chance!

O contratado de Deus

Morto em 2005, Will Eisner segue apontado como um dos maiores nomes dos quadrinhos de todos os tempos. Possivelmente, até o maior de todos, colocando troféus ao lado de Stan Lee, Jack Kirby, Alan Moore e Robert Crumb. Tudo bem, talvez incluiria alguns outros nomes GIGANTESCOS nessa lista, porém o intuito do post não é esse. Eisner é um nome tão grande que revolucionou tanto a maneira de produzir quadrinhos quanto o mercado da nona arte. Foi um dos primeiros a ser autoral nesse meio novo. Não à toa, até hoje o nome do maior prêmio do mundo dos quadrinhos leva seu nome.

Em grande parte de suas histórias ao longo do tempo, o autor sempre buscou trazer a novidade e, ao mesmo tempo, histórias que buscassem visibilidade. Essas histórias, não tão bem publicadas ao longo do tempo no Brasil e algumas ganhando destaque em uma belíssima edição da Devir, refletem especialmente um caráter urbano, de uma tristeza social perene na sociedade americana. É interessante como, apesar das suas tramas se passarem em diferentes tempos historicamente, ele sempre tem uma visão de uma tristeza social a toda sua volta. Algo bem típico de uma decadência americana pós-crise de 1929. Eisner, que sofreu pela crise na sua época de adolescência, olha com força ao vigor da sociedade.

Isso tudo faz chegarmos à sua grande HQ, intitulada “Contrato com Deus”. Ela foi a primeira produção sequencial em quadrinhos a ter sido chamada graphic novel mais popularmente, apesar do cartunista Richard Kyle ter cunhado o termo em 1964. Will, no entanto, colocou uma popularidade agressiva sobre a ideia de uma obra contada com diversas temáticas em um espaço fechado temporal. Publicado em 1978, o quadrinho se faz através de quatro contos – “Um Contrato com Deus”, “O Cantor de Rua”, “O Zelador” e “Cookalein” – contando a vida dos imigrantes em Nova York na década de 30. Como dito antes, um relato sobre uma decadência urbana, retratada em diversas vidas com ascensões e os costumeiros declínios. Não pense em ler o autor e não sair, no mínimo, contemplativo ao fim.

Nesse sentido, as obras de Eisner tem um cunho quase sociológico, para explorar as problemáticas sociais em um ponto de vista sempre complexo. Não há vilões, mocinhos, bom ou mal, qualquer coisa assim. As situações simplesmente acontecem dentro de um universo da realidade, a qual esses personagens estão amplamente conectados, estão totalmente relacionados a uma verdade de mundo. Para eles, a busca por sobreviver é o grande destaque, algo que pode significar até a própria morte. O título falando sobre o contrato com Deus é nada mais que uma explicação da relação desses indivíduos com o meio social. Por quem eles serão salvos no final, então? Parece não haver respostas fáceis, assim como precisa haver uma busca por entender o problema. Relatado por Will Eisner, a mesma miséria e situação continua, não apenas com imigrantes, mas com negros, mulheres, pessoas LGBT, entre outros. A pobreza segue causando, enquanto os contratos para salvação parecem não ter fim.


Capa de “O Máskara”

Notícia da Semana. A editora Pipoca e Nanquim anunciou a publicação da HQ “O Máskara”, de John Arcudi e Doug Mahnke. Com 380 páginas, esse primeiro volume reúne as três primeiras minisséries publicadas do personagem.

Com preço de capa de R$84,90, a obra será lançada em 31 de março.

Página de “Informe sobre Cegos”.

Notícia da Semana 2. Vai até o dia 10 de abril a campanha pelo Catarse da HQ “Informe Sobre Cegos”. Lançamento da editora Figura, a obra de Alberto Breccia que interpreta o livro do escritor argentino Ernesto Sabato. Publicado em 1993, esse foi o último lançamento de Breccia antes da morte. Você pode apoiar aqui.

Máquinas que sonham

Jeff Lemire tornou-se um nome totalmente amado em solo brasileiro. Ok, não apenas aqui, mas também nas terras americanas, virando uma espécie de nova grande entidade dos quadrinhos. Um desses exemplos veio desse próprio blog há algumas semanas, quando abordei “Black Hammer”, talvez uma das grandes séries nas HQs publicadas no Brasil recentemente. Lemire, acima de tudo, não para de surpreender, de trazer histórias absurdas. Mesmo tendo iniciado sob passos mais lentos, seu crescimento foi colossal, virando o grande nome da indústria da nona arte no atual momento, especialmente dentro do mercado independente.

E, dentro desse quesito, “Descender” segue pelos mesmos trilhos. Uma trama que usa e abusa de uma simplicidade básica para traçar caminhos diversos, além dos seus sempre incríveis personagens. Aqui, no caso, temos Tim-21, um androide que acorda depois de 10 anos totalmente congelado e parado no tempo. Ele se encontra em um planeta solitário, sendo ajudado por um Perfurador, uma espécie de robô gigante protetor de outros robôs. Tim passa, assim, a ser perseguido por alguns Ceifadores. Nesse meio tempo, três enviados especiais da união galática têm a missão de buscar o protagonista, sem entender sua verdadeira relevância.

O grande trunfo dessa HQ é a relação que Lemire traça sobre esse universo. Uma história que, a priori, é basicamente comum, sobre um pequeno robô dentro desse universo, que parece ganhar cada vez mais vida. No entanto, o mais interessante do trabalho do roteiro é como ele traz as camadas de um embate galático subterrâneo. Nunca é propriamente comentado, porém as divisões de planetas, as caças, além das disputas políticas jogam esse terreno como uma correlação ao enredo principal. O básico é sobre o desenvolvimento de Tim tentando entender quem ele é, além de quais seriam suas verdadeiras individualidades – algo destacado na parte do sonho. Entretanto, é dentro de algo único do personagem principal que encontramos um emaranhado de histórias e passado, a serem explorados nos próximos volumes.

A arte em aquarela de Dustin Nguyen é ressaltada pelas composições sempre pertinentes. Por se tratar de uma ficção-científica, sempre há a possibilidade de cair em alguns clichês de mostrar o espaço e algumas tecnologias chave, todavia o mais interessante do desenho é como a criação dos quadros induz a alimentar um elemento de univeros ali. Por exemplo, o momento em que Tim-21 está sendo consertado e vemos um fundo totalmente branco, representando os pensamentos vazios do andróide. A imensidão dos planetas também serve de exemplo, sempre trabalhadas em uma gigantesca coloração.

Apesar de ser apenas o primeiro volume, “Descender” sabe bem como traçar sua trama para caminhos ainda mais intrigantes ao futuro. O melhor de tudo é que, ao fim do primeiro volume, Jeff Lemire parece colocar mais dúvidas do que realmente levar a algo. Isso pode soar um tanto quanto estranho, porém o melhor é como essa construção eleva ainda mais esse cosmo criado para a série. É esperar o que virá pela frente e salvar uma nova grande série no mundo das HQs que o autor está trazendo para nós.

Capa de Laerte Total vol.1

Notícia da Semana. A editora Z Edições vai lançar um compilado das histórias da incrível quadrinista Laerte. Serão 50 edições no total, sendo os primeiros compilando suas tiras de “O Condomínio”, clássica produção dos anos 80. O primeiro volume, contendo 92 páginas, já pode ser adquirido por meios digitais, mas ainda não há previsão sobre o material físico. Segundo informações do twitter “Gibi Foda” – esse dedicado a quadrinhos – serão 50 volumes no total, compilando o trabalho da artista.

Nos trambiques de Lando

Lando é, talvez, um dos personagens mais cativantes da saga “Star Wars” nos cinemas. Obviamente não pelo seu desenvolvimento de personagem ou até arco marcante – pelo fato de pouco vermos isso -, mas sim devido ao seu carisma inigualável. As interpretações de Billy Dee Williams, na trilogia original, e Donald Glover, em “Han Solo”, ajudam também bastante nessa questão. O contrabandista é sexy, destemido e sempre acredita ser a voz da razão. Além disso, apenas coloca problemas dentro das aventuras. Porém, acima de tudo, ele não deixa de ser tão incrível quanto suas roupas.

Desde que a Disney comprou as empresas de George Lucas, o universo da saga foi retomado nos cinemas, nos livros, games e, claramente, nos quadrinhos. Uma nova série mensal foi colocada em pauta, sempre explorando os entornos da trilogia nova ou da clássica, mas também buscando tramas clássicas. Nesse sentido, “Lando” vem para suprir lacunas de desenvolvimento desse personagem. A graphic novel não chega a realmente desenvolver passado ou futuro, e sim entender seus traços personalísticos.

Assim, acompanhamos a história de Lando antes de realmente acreditar nos jedis e nos siths, apenas vivendo entorno da vida sob domínio imperial. Ele aplica diversos golpes, sempre com a ajuda de seu amigo Lobot. Devendo certo dinheiro para um mafioso, ele resolve fazer um robo maior do que todos, até então: de uma valiosa nave do Império.

O roteiro de Charles Soule sabe bem colocar diversas pernas na tridimensionalidade do protagonista. Na primeira cena, em que está se relacionando com uma mulher do império, ele se mostra desde honesto até cafajeste e destemido. Suas características comuns nos longas, aqui tornam-se elementos primordiais para entendermos como a trama irá avançar. A volta de sua personalidade é o mais interessante realmente de se acompanhar.

Isso porque o que vemos na história é algo básico e simples. Não existe tanto mais além disso, até porque a obra parece não ter o verdadeiro interesse de ir além. Com certas questões de suspense intrincadas na narrativa – especialmente envolvendo um caçador de recompensar -, a HQ parece nunca buscar explorar essas relações com afinco.

Assim, “Lando” mais diverte do que realmente tem propostas. Aliás, o mais divertido em si é retomar contato com um dos personagens mais amados da franquia “Star Wars”. Esse, que ficou reconhecido como um dos grandes nomes da cultura pop por sua maneira única de ser. Talvez, quem sabe, essa HQ poderia reproduzir um pouco desse lado único do anti-herói.

O que são os Manhwa?

Nesse último domingo, dia 09, o filme “Parasita” ganhou o Oscar de Melhor Filme, um feito histórico para uma produção cinematográfica fora dos Estados Unidos. O acontecimento fez surgir uma série de dúvidas e curiosidades sobre a onda da produção cultural da Coreia do Sul, que se chama Hallyu. Esse movimento vem tomando todo o mundo, especialmente no quesito de utensílios de beleza, cinema e música.

Buscando explorar os horizontes das HQs sul-coreanas, trago hoje aqui o Manhwa. Pode soar um termo estranho – e até, propriamente, é -, contudo ele é a denominação para os mangás produzidos na Coreia. Porém, eles possuem sua particularidade, não sendo uma cópia ou tentativa de ser algo similar. Um dos exemplos mais claros disso é a sua forma ‘ocidental’ de ser lida, da esquerda para a direita, ao contrário dos mangás tradicionais.

Apesar de não ser inteiramente famoso, o termo ganhou destaque no país em 1920, quando foi colocado em cartoons, ou seja, histórias menores. Importante salientar como a ocupação japonesa nessa época afetava totalmente a maneira e o consumo cultural do povo. Posteriormente, após a Segunda Guerra Mundial, a influência americana veio muito forte, efeito esse que transformou as tradições do país oriental.

No Japão, os mangás são diversos, possuindo gêneros e formatos específicos para diferentes pessoas e tipos de público. Com os Manhwa, isso é até relativamente próximo, todavia também é diferente. Isso porque são dois os maiores sucessos com os leitores coreanos: histórias para meninas jovens e histórias com olhar muito erótico (mesmo não sendo pornográficas). A primeira ganhou força durante os anos 50 e 60, aonde era possível ler quadrinhos nos mais diversos lugares, com catálogos disponibilizados e abertos em cafés, por exemplo. Já o segundo advém do atual momento do mundo, mais colocado pela questão visual, especialmente com o crescimento de filmes e séries.

Durante os anos 60 e 70, o quadrinista Sanho Kim mudou-se para os Estados Unidos, levando diversas HQs para lá. Algumas delas foram publicadas em grandes editoras, como Marvel e Charlton Comics. A internacionalização – mesmo não tão forte – dessas obras foi iniciada, algo colaborado, ainda mais, pelos filmes de Bruce Lee, que traziam um olhar oriental dentro da ação nos EUA.

Dentre os mangás mais famosos estão ‘Chonchu – O Guerreiro Maldito’, ‘Angry’, ‘Priest’ e ‘Ragnarok’, todos esses publicados no Brasil. A última, baseada no game de enorme sucesso, demonstra todo esse olhar mais vistoso a cultura do ocidente. Essas histórias tentam trazer sempre uma complexa relação do ambiente da Coréia com questões como a sexualidade, religião, entre outros.

É complexo definir com exatidão o que seriam os Manhwa, porém eles representam um olhar tipicamente coreano para os mangás. Apesar de não conseguirem ainda tomar o mundo, eles demonstram o olhar que a Coréia do Sul tenta dar para tudo na sua cultura: de fazer algo próprio. Talvez – só talvez mesmo -, o Brasil poderia (e deveria) seguir o mesmo caminho.

Capa da primeira edição de ‘Batman: A Queda do Morcego’

Notícia da Semana. A editora Panini anunciou que, a partir desse mês, começará a republicação de ‘Batman: A Queda do Morcego’, uma das grandes obras-primas do personagem da DC. A história, publicada em 1993, é um dos marcos de grandes vilões do Homem Morcego, transformando Bane em parte desse hall. Além dele, há uma série de inimigos que aparecem, depois da fuga do Asilo Arkham.

Serão, no total, 3 edições com cerca de 600 páginas cada uma. A primeira terá o preço de R$85,90.

As depressões heróicas

É complexo entender os heróis. Cheios de ideias mirabolantes e também relações complexas mentalmente, eles aparentam normalidade, porém são quase inteiramente transtornados. Pegando o exemplo do Batman, um homem que, ao perder os pais, decide descontar em um combate contra a criminalidade na cidade. Ele apenas gera seus maiores vilões, a qual não existiam anteriormente. Ou o Superman, um alieníngena complexado que quer defender a Terra, mas sem nem entender a si mesmo. O que falar do Homem-Aranha? Um menino simples que quer ser maior do que realmente é.

Todos esses seres extrapolam uma certa noção moral e física da nossa sociedade, ultrapassando quase sentimentos também. Mas, e se persarmos nesses personagens também como quebrados? Como pessoas que tentam se acostumar a uma realidade que não estão inseridos? Tentando ser pessoas que realmente não são? É um pouco dessa perspectiva que Jeff Lemire traz em “Black Hammer”.

A HQ conta com 4 números lançados nos Estados Unidos – isso da série regular, com alguns outros em produções paralelas – e teve 3 delas já em solo brasileiro pela editora Intrínseca. Sua história é bem simples: um grupo de heróis, após lutar contra o indestrutível Antideus, são jogados para uma cidade no interior dos Estados Unidos. Eles não podem mais usar seus poderes nesse local e, caso tentem sair de uma bolha colocada, podem acabar morrendo. Um deles tenta e logo falece. Seu nome? Black Hammer, que dá título ao quadrinho.

É perpectível a tentativa de Lemire criar mais uma obra dramática do que propriamente sobre elementos “heróicos”. Seus protagonistas são quebrados por diversos motivos, porém o que todos acabam sentindo é a sólidão. Essa por estarem trancafiados em um ambiente de uma semi-destruição pessoal. Antes, eles eram considerados os melhores do mundo, e agora não são nada. De que adiantaria ter tantos poderes se não conseguem utilizá-los? Eles se questionam, enquanto o quadrinista usa o primeiro volume para apresentar todas essas peças do jogo. A relação dessa base mais pesada é elevada em um realismo vibrante da arte de Dean Ormston.

A partir do segundo é quando as coisas realmente saem do lugar. A partir dali, o tabuleiro mexe algumas vezes, incluíndo a aparição da jornalista Lucy Weber, filha de Black Hammer. Nesse instante, Lemire coloca uma questão interessante: o fato dela estar mais interessada em respostas do que quem está lá durante todo esse tempo. Ao aceitarem aquele mundo, eles passam a se integrar em uma outra lógica de vida. Estariam fugindo dessa amargura de viver? Das responsabilidades deixadas para trás pelo simples motivo de terem de proteger a todos? Nesse sentido, qual seria a missão dos heróis?

Somos colocados a muito mais questionamentos do que respostas, algo definitivo para causar maiores surpresas a frente. Os personagens ainda são desenvolvidos, todavia quase se encaixando em um outro padrão social. Eles não querem aquilo, mas observam como uma única forma de estar vivendo. As cenas envolvendo relação com suicídio, por exemplo, reforçam esse ar mais pesado da trama.

Entretanto, é no terceiro volume que as coisas tomam dimensões extraordinárias. Como já estamos totalmente conectados para com aqueles heróis, agora somos parte daquela rotina. Essa, que vira uma constante, uma realidade palpável. Para que retornar àquela vida de dificuldades? O fardo e o peso de vestir a roupa – risível para alguns – é necessária ao equilíbrio do mundo. Pode-se falar isso sem citar maiores spoilers, visto que é nesse momento que todo o meio social torna-se vigente aos heróis.

Em “Black Hammer” estamos em contato com seres falidos. Falidos moralmente, fisicamente, psicológicamente e mais. São peças descartáveis em uma sociedade altamente descartávle. Para que heróis, se esses criam os vilões? O questionamento das pessoas até faz sentido. Entretanto, Jeff Lemire traz: por que estamos vendo a máscara e não as pessoas?

Notícia da Semana. A editora Panini, respondendo uma pergunta dos fãs no Facebook, revelou que iniciará a publicação das HQs clássicas de “Asterix” em março. A coleção será dos formatos especiais para colecionadores, contendo 38 encadernados e 3 livros, porém sem valores revelados, por enquanto.

A série “Asterix” chegou a ser publicada por diversas editoras no país, como a Galera e a Record ainda nos anos 2010. Os quadrinhos originais foram publicados na França a partir de 1959 quando Albert Uderzo e René Goscinny se uniram. Ela é publicada até os dias de hoje, mesmo após a morte de Goscinny em 1977.

A linguagem dos quadrinhos

Há pouco tempo atrás, li, pela primeira vez, aquela que é uma das obras consideradas as maiores do século XXI e, possivelmente, figurando entre as grandes de todos os tempos. Estou falando de “Jimmy Corrigan – O Menino Mais Esperto do Mundo”, escrita e desenhada por Chris Ware, na qual ganhou uma edição caprichada e de tradução perfeita no Brasil pela editora Companhia das Letras, no selo Quadrinhos na Cia (a HQ, atualmente, está sendo republicada em terras nacionais).

Com base nessa leitura, pude refletir bastante no uso da linguagem própria do meio para contar uma história em quadrinhos. Até porque existe uma necessidade intrínseca a contar diversas histórias e utilizar o máximo da capacidade que aquela mídia pode transmitir. Como disse Marshall McLuhan: “o meio é a mensagem”.

Posso dar dois exemplos aleatórios com animações de heróis para ilustrar isso. Uma com “Operação Big Hero”, filme de 2014, que é bastante convencional ao tratar de uma narrativa com ideias da nona arte, além de ser baseada em uma. Tomemos a outra com “Homem-Aranha no Aranhaverso”, de 2018. Apesar de eu não gostar tanto dessa – entendendo bem quem ama -, é inegável a capacidade estética da produção ao usar a linguagem que apenas o cinema pode ter (imagem em movimento) em uma mistura com o mundo dos quadros.

A obra de Chris Ware não é uma realização comum. Seus trabalhos sempre buscam uma correlação bem clara entre o formato e a trama. Nisso, adentramos em “Jimmy Corrigan”, uma HQ que utiliza isso até dizer chega. O que falar do início, com já algo sendo contado através do encarte? Em que outro estilo artístico poderíamos ter algo parecido? Além disso, a própria capa, ilustrando o personagem lateralmente, já denotam um certo sentido de uma realização não tão padronizada. Ware conta a vida de Jimmy, que realmente não é padrão. A disfuncionalidade, aliás, é o recorrente na sua existência. Pergunto a você leitor: será que existiria um impacto nessa produção feita para o cinema, literatura, teatro ou música? As diferentes formas de mídia trazem diferentes maneiras de produzir e fazer a audiência receber aquilo.

O autor não é único e nem exclusivo no meio dos quadrinhos. “Lone Sloane”, de Philippe Druillet, por exemplo, gera uma experimentação visual do meio desde os anos 1970. Aliás, parando para pensar, o primeiro quadrinho de herói pode ser chamado também de experimental, visto que destoava das realizações de seu período histórico. “Moonshadow”, criado por J.M. Dematteis e Jon J Muth em 1985, usa e abusa de elementos além do seu próprio tempo, afim de gerar situações e questões únicas na narrativa. Essa história só conseguem ser consumida dentro do meio.

Para não esquecer do Brasil, duas HQs são essenciais: “Você é um Babaca, Bernardo”, de Alexandre Lourenço, e “A Insustentável Leveza do Ser”, de Laerte. Ambas distantes temporalmente, todavia utilizando seu meio para buscar novidades.

Apesar de ficarmos muitas vezes acostumados em nosso patamar de leitura, é extremamente necessária uma transformação. O mundo dos quadrinhos, hoje habitado por uma diversidade que não será a mesma daqui a algum tempo, precisou de modificações para ser o que é. Acima de tudo, precisou de autores que buscassem olhar para a sua linguagem elaborando novidades dentro dela. Gostando disso ou não, as artes sempre precisam de seu experimentalismo.

Capa da edição original de Sabrina.

Notícia da Semana. A editora Veneta anunciou seus lançamentos no meio dos quadrinhos para 2020 e, contando com outros excelentes títulos, dois se destacam mais: “Sabrina” e “Berlim”. As duas possuem diferentes maneiras de passar histórias diversas, porém relacionado bastante com o tema da coluna de hoje. O uso da nona arte é fundamental para compreender o buscado pelos quadrinistas realizadores.

Para conferir o catálogo completo da editora, clique aqui.

Os Inimigos

George Takei, o ator que interpretou o personagem Sulu na série original de “Star Trek”, nunca teve uma vida tão fácil. Em sua imagem pública, duas questões marcam mais aos olhos: o fato de ser uma pessoa com descendência nipônica, em meio a produções televisivas do período totalmente focalizadas em homens brancos, e a a luta posterior no movimento LGBT. Contudo, sua trajetória ganhar um caráter ainda mais complexo quando sabemos mais sobre as decorrências que o levaram até ali em “Eles Nos Chamavam de Inimigo”, HQ recém-lançada pela editora Devir. Takei sai de sua forma de artista para buscar um ideal quase primordial do que nos torna humanos.

Afim de descobrir as melhores maneiras de trazer sua história aos quadrinhos, o ator chamou Justin Eisinger e Steven Scott para ajudar nos roteiros e Harmony Becker com os desenhos. Não são nomes de extremo peso dentro da indústria, porém foram os suficientes a deixar essa história se buscar por si só. Não existe uma tratativa de idealizar uma linguagem da nona arte ou até buscar uma transposição dessa maneira. É uma trama bastante universal, podendo ganhar adaptações em qualquer outra mídia. A intenção de universalidade traz um certo sentido nisso tudo.

Takei retoma sua vivência no período da infância. Momento esse conturbado do mundo, que estava todo tomado pela 2º Guerra Mundial. As mortes se proliferavam e a principal luta passava a ser contra o facismo na Itália e o nazismo na Alemanha. Pois bem, um terceiro país fazia parte do chamado ‘Eixo’: o Japão. País esse menos badalado em termos de seu regime político e acabando por ser mais lembrado no conflito por causa das bombas atômicas de Hiroshima e Nagazaki. Um fato anterior, todavia, aconteceu para desencadear um certo retrospecto perante os japoneses ou descendentes deles. Esse foi o ataque de Pearl Harbor.

Ocorrido em 1941, ele foi fundamental a entrada dos Estados Unidos dentro do conflito. Feito pelo Japão, a base americana com esse nome foi quase totalmente destruída. E, mais do que isso, houve uma modificação eterna para sempre a existência do, até então, pequeno George. Ele, junto de sua família, acabou sendo levado para um campo de concentração americano exclusivo para nipônicos, devido a uma certa ‘insegurança’ com eles perto após o ataque.

Preso com sua família, o futuro ator de “Star Trek” viveu um pouco de tudo. Fome, sede, frio, calor, problemas de relacionamento. Não eram poucas as dificuldades, todas trazidas sob imensa dor nos detalhes buscados pela narração da HQ. O artista, hoje adulto, conta essa trajetória quase como uma história infantil, apesar do peso adquirido em cada ação. As situações levam sempre a questionamentos sob a própria noção de humanidade. Mesmo tão novo, o protagonista até mesmo se pergunta o que seria aquilo tudo. Até que ponto seria possível fazer tão mal a pessoas sem relação alguma com nada?

A potência de “Eles Nos Chamavam de Inimigo” reside muito mais nas discussões propostas do que mesmo em sua história. Aliás, é interessante como é possível analisar uma vontade de entender de que forma a intolerância persiste no mundo. Apesar de não adentrar afundo na política atual, os paralelos são claros sobre a condição de vida dos homens e mulheres na atualidade. Talvez por isso a vontade de, posteriormente, realizar “Star Trek”. George Takei queria quebrar apenas barreiras físicas que nos fazem diferente, indo aonde nenhum homem jamais esteve.

Capa da HQ “A Louca do Sagrado Coração”

Notícia da Semana. A maior discussão no mundo dos quadrinhos nessa semana foi sobre o caso da clássica HQ de Alejandro Jodorowsky e Moebius, “A Louca do Sagrado Coração”. Essa, lançada nos anos 90, fez extremo sucesso pelo mundo inteiro por ser a reunião de dois grandes nomes da arte pelo mundo no período. Foi distribuída em diversos lugares sob essa capa demonstrada acima.

Pois bem, a história ocorreu no dia 15 de janeiro, quando a transportadora DHL devolveu edições do quadrinho para a editora Veneta, que havia mandado para chegar a França, devido a questões contratuais. Segundo a Veneta falou em postagem, “a nova censura vem armada de algoritmos, esquemas monopolísticos e muito dinheiro”.

Após ver a repercussão negativa do caso, a distribuidora pediu desculpas e disse que irá fazer o envio do material sem cobrar nada. A Veneta, no entanto, ainda levantou a importante discussão sobre a moralidade e a questão da censura no caso. Segundo divulgado, apesar de tudo, “o mecanismo permanece intacto, a DHL não transporta o que considera pornografia. Quem conhece a história dos Comic Books sabe que os correios têm sido talvez a principal arma contra a liberdade de expressão nos Estados Unidos. Uma forma de driblar a Primeira Emenda”. Estejamos atentos.