Os Inimigos

George Takei, o ator que interpretou o personagem Sulu na série original de “Star Trek”, nunca teve uma vida tão fácil. Em sua imagem pública, duas questões marcam mais aos olhos: o fato de ser uma pessoa com descendência nipônica, em meio a produções televisivas do período totalmente focalizadas em homens brancos, e a a luta posterior no movimento LGBT. Contudo, sua trajetória ganhar um caráter ainda mais complexo quando sabemos mais sobre as decorrências que o levaram até ali em “Eles Nos Chamavam de Inimigo”, HQ recém-lançada pela editora Devir. Takei sai de sua forma de artista para buscar um ideal quase primordial do que nos torna humanos.

Afim de descobrir as melhores maneiras de trazer sua história aos quadrinhos, o ator chamou Justin Eisinger e Steven Scott para ajudar nos roteiros e Harmony Becker com os desenhos. Não são nomes de extremo peso dentro da indústria, porém foram os suficientes a deixar essa história se buscar por si só. Não existe uma tratativa de idealizar uma linguagem da nona arte ou até buscar uma transposição dessa maneira. É uma trama bastante universal, podendo ganhar adaptações em qualquer outra mídia. A intenção de universalidade traz um certo sentido nisso tudo.

Takei retoma sua vivência no período da infância. Momento esse conturbado do mundo, que estava todo tomado pela 2º Guerra Mundial. As mortes se proliferavam e a principal luta passava a ser contra o facismo na Itália e o nazismo na Alemanha. Pois bem, um terceiro país fazia parte do chamado ‘Eixo’: o Japão. País esse menos badalado em termos de seu regime político e acabando por ser mais lembrado no conflito por causa das bombas atômicas de Hiroshima e Nagazaki. Um fato anterior, todavia, aconteceu para desencadear um certo retrospecto perante os japoneses ou descendentes deles. Esse foi o ataque de Pearl Harbor.

Ocorrido em 1941, ele foi fundamental a entrada dos Estados Unidos dentro do conflito. Feito pelo Japão, a base americana com esse nome foi quase totalmente destruída. E, mais do que isso, houve uma modificação eterna para sempre a existência do, até então, pequeno George. Ele, junto de sua família, acabou sendo levado para um campo de concentração americano exclusivo para nipônicos, devido a uma certa ‘insegurança’ com eles perto após o ataque.

Preso com sua família, o futuro ator de “Star Trek” viveu um pouco de tudo. Fome, sede, frio, calor, problemas de relacionamento. Não eram poucas as dificuldades, todas trazidas sob imensa dor nos detalhes buscados pela narração da HQ. O artista, hoje adulto, conta essa trajetória quase como uma história infantil, apesar do peso adquirido em cada ação. As situações levam sempre a questionamentos sob a própria noção de humanidade. Mesmo tão novo, o protagonista até mesmo se pergunta o que seria aquilo tudo. Até que ponto seria possível fazer tão mal a pessoas sem relação alguma com nada?

A potência de “Eles Nos Chamavam de Inimigo” reside muito mais nas discussões propostas do que mesmo em sua história. Aliás, é interessante como é possível analisar uma vontade de entender de que forma a intolerância persiste no mundo. Apesar de não adentrar afundo na política atual, os paralelos são claros sobre a condição de vida dos homens e mulheres na atualidade. Talvez por isso a vontade de, posteriormente, realizar “Star Trek”. George Takei queria quebrar apenas barreiras físicas que nos fazem diferente, indo aonde nenhum homem jamais esteve.

Capa da HQ “A Louca do Sagrado Coração”

Notícia da Semana. A maior discussão no mundo dos quadrinhos nessa semana foi sobre o caso da clássica HQ de Alejandro Jodorowsky e Moebius, “A Louca do Sagrado Coração”. Essa, lançada nos anos 90, fez extremo sucesso pelo mundo inteiro por ser a reunião de dois grandes nomes da arte pelo mundo no período. Foi distribuída em diversos lugares sob essa capa demonstrada acima.

Pois bem, a história ocorreu no dia 15 de janeiro, quando a transportadora DHL devolveu edições do quadrinho para a editora Veneta, que havia mandado para chegar a França, devido a questões contratuais. Segundo a Veneta falou em postagem, “a nova censura vem armada de algoritmos, esquemas monopolísticos e muito dinheiro”.

Após ver a repercussão negativa do caso, a distribuidora pediu desculpas e disse que irá fazer o envio do material sem cobrar nada. A Veneta, no entanto, ainda levantou a importante discussão sobre a moralidade e a questão da censura no caso. Segundo divulgado, apesar de tudo, “o mecanismo permanece intacto, a DHL não transporta o que considera pornografia. Quem conhece a história dos Comic Books sabe que os correios têm sido talvez a principal arma contra a liberdade de expressão nos Estados Unidos. Uma forma de driblar a Primeira Emenda”. Estejamos atentos.

Quadrinhos x Política

O desenhista brasileiro da Marvel, Jon Bennett, publicou em suas redes sociais, neste mês, uma defesa ao jornalista Augusto Nunes, após agressão ao também jornalista Glenn Greenwald no programa Pânico. A questão gerou uma intensa confusão de defensores e contrários na rede do artista, que acabou apagando a postagem e desculpando-se. 

O caso trouxe uma defesa de algumas pessoas para evitar o debate política nos quadrinhos, utilizando a hashtag “#quadrinhossempolítica”. Outro grupo trouxe um movimento contrário a atitude de Bennett, publicando uma imagem com o título “Quadrinistas Antifascistas”. 

Toda essa questão rememora como é impossível dissociar quadrinhos de política, assim como quaisquer outro tipo de arte. Entretanto, a nona arte, talvez por ganhar um pouco menos de espaço midiático, o debate perante ela acaba ficando um pouco de lado, a apenas certos nichos. Porém, a história das HQs sempre esteve intrinsecamente conectada a movimentos e ideologias políticas.

Impossível fazer essa correlação sem lembrar da estreia de Capitão América, em “Captain American Comics #1”, de 1940. A capa trazia a ilustração de Jack Kirby com o Capitão dando um soco em Hitler. Aliás, o personagem sempre esteve conectado ao combate perante o fascismo, pelo fato de seu maior antagonista – o Caveira Vermelha – ser um homem de grande escalão do exército nazista.

O combate a movimentos fascistas e a memória do holocausto também esteve presente em “Maus”, de Art Spiegelman, publicada entre 1980 e 1991. A minissérie, na qual foi a primeira a HQ vitoriosa no prêmio Pulitzer, é baseada em uma história dos pais de Spiegelman, que estiveram presentes em campos de concentração nazistas. 

Produções de heróis também tem espaço como, por exemplo, os clássicos “Watchmen”, de Alan Moore e Dave Gibbons, além de “O Cavaleiro das Trevas”, feita por Frank Miller. Ambas histórias da década de 80, elas têm um papel fundamental aos quadrinhos buscarem histórias mais adultas, além de tratar fortemente sobre legalidade, papel do Estado e mais.

Miller, mais recentemente, ficou marcado por críticos como fascista pela sua obra “Holy Terror”, na qual fala abertamente contra muçulmanos e imigrantes. Já Moore, afastado das produções de heróis há bastante tempo, fez “V de Vingança”, que ficou marcado como um clássico nas histórias de anarquistas.

O Comics Code Authority, de 1954, também faz parte dessa relação. Ele era uma censura regulamentada pelo governo e congresso dos Estados Unidos. O preceito era bastante moralista, e falava que os quadrinhos incentivavam violência, comportamentos fora do padrão e mais. Tudo baseado no livro “Sedução da Inocência”, de Fredric Wertham. O código foi se tornando irrelevante com o tempo, mas apenas parou de ser usado pela Marvel em 2001 e pela DC, Archie e Bongo Comics, em 2010. 

Os exemplos são vários e variados. Ainda poderiam ser citados aqui “Deus Ama, Homem Mata”, “Kamala Khan”, “Persépolis”, “Aisha”, “Refugiados”, “Guerra Civil”, “O Relatório de Brodeck”, “A Arte de Charlie Chan Hock Chye” e mais. Essas são apenas demonstrações de como os quadrinhos, inevitavelmente, são feitos por seres humano, esses cheios de ideologias e pensamentos pessoais políticos. A arte, colocada no meio da nossa sociedade, faz parte de como vemos o mundo nas diferentes maneiras. A nona arte faz parte disso.

Os quadrinhos são – e sempre serão – políticos.