A velocidade de Luciano Salles

Devo admitir que, por um gigantesco erro pessoal, nunca havia lido anteriormente uma obra de Luciano Salles. A vontade sempre foi imensa, porém sempre acabava deixando passar os financiamentos coletivos e acabava esquecendo de economizar para conseguir comprar. De toda forma, já agendei a compra de suas HQs anteriores, pois tive a oportunidade de ler “Grand Prix Metanoia”, seu novo trabalho e que – dessa vez – consegui apoiar pelo Catarse.

Bom, na história temos, basicamente, uma corrida de carros em um ambiente inóspito. De um lado está Velociptor V, do outro Alba Troz. Quem fala um pouco sobre todos os acontecimentos são Lavi e Vinci, narradores desconhecidos por parte do público, todavia presentes para contar cada passo da história. Essa presente em um deserto extremamente esquisito e com alguns dinossauros capazes de mudar o rumo dos acontecimentos.

É impossível aqui não destacar o efeito de velocidade trazido na disputa. Salles sabe, como poucos nas histórias em quadrinhos, dar uma dimensão de velocidade absurda dentro da sua narrativa. Os carros ultrapassam qualquer limite, enquanto ele brinca com questões das dimensões de espaço do ambiente e dos veículos nesse meio. Em uma parte, por exemplo, abre o plano para mostrar aqueles dois aparatos eletrônicos de se locomover bem pequenos, quase insignificantes – remetendo bastante a algo mais cinematográfico, como em “Mad Max: Estrada da Fúria”. Ao mesmo tempo que, quando estamos aproximados desses personagens, há um efeito de a relação entre essa velocidade e os próprios, digno da corrida de podracers, a melhor coisa de “Star Wars: A Ameaça Fantasma”.

Com tudo isso, o autor transforma seus protagonistas em meros aparatos de todo esse meio, servindo a, meramente, correr. Quando a ruptura acontece, próximo ao fim das 24 páginas, tudo faz mais sentido. Não soltarei spoilers, prometo, contudo é ali que ocorre o maior fascínio por essa produção. Os elementos estéticos e físicos daquilo visto antes, fazem muito mais parte de todo esse cosmo criado.

De toda forma, Luciano Salles traz para essa sua HQ algo deveras interessante em termos narrativos: como usar a velocidade. Em filmes hollywodianos isso pode parecer até mais “fácil”, com carros explodindo a esmo e perseguições em alta velocidade. Mas, de qual forma passar isso para uma resolução em quadrinhos? Como conseguir trabalhar esse modelo a ponto de o leitor sentir esse vento passando pelo seu corpo? Para saber isso, recomendo ao leitor apenas ler “Grand Prix Metanoia”. Essa correira do mundo ultrapassa pequenos caminhos temporais, chegando até aos nossos olhos.

Arte de Rafael Grampá.

Notícia da semana. O que falar das manifestações em Hong Kong, com inspiração em uma arte de capa de “The Dark Knight Returns: The Golden Child”, que ainda nem foi lançada (essa acima)? No desenho, feito pelo brasileiro Rafael Grampá e colorido pelo também brasileiro Pedro Cobiaco, Carrie Kelly – agora como Batwoman – aparece lançando um coquetel molotov. A ilustração, sem qualquer relação oriental, gerou um grande impacto na China, aludindo à ideia de aquilo ser uma força aos protestos de Hong Kong. Teve até jornal chinês defendo a Marvel contra a DC.

O fato é que, ao fim de tudo, os manifestantes do local agora estão utilizando a arte como forma de protesto. E “The Dark Knight Returns: The Golden Child” sai nos Estados Unidos em 11 de dezembro.