As depressões heróicas

É complexo entender os heróis. Cheios de ideias mirabolantes e também relações complexas mentalmente, eles aparentam normalidade, porém são quase inteiramente transtornados. Pegando o exemplo do Batman, um homem que, ao perder os pais, decide descontar em um combate contra a criminalidade na cidade. Ele apenas gera seus maiores vilões, a qual não existiam anteriormente. Ou o Superman, um alieníngena complexado que quer defender a Terra, mas sem nem entender a si mesmo. O que falar do Homem-Aranha? Um menino simples que quer ser maior do que realmente é.

Todos esses seres extrapolam uma certa noção moral e física da nossa sociedade, ultrapassando quase sentimentos também. Mas, e se persarmos nesses personagens também como quebrados? Como pessoas que tentam se acostumar a uma realidade que não estão inseridos? Tentando ser pessoas que realmente não são? É um pouco dessa perspectiva que Jeff Lemire traz em “Black Hammer”.

A HQ conta com 4 números lançados nos Estados Unidos – isso da série regular, com alguns outros em produções paralelas – e teve 3 delas já em solo brasileiro pela editora Intrínseca. Sua história é bem simples: um grupo de heróis, após lutar contra o indestrutível Antideus, são jogados para uma cidade no interior dos Estados Unidos. Eles não podem mais usar seus poderes nesse local e, caso tentem sair de uma bolha colocada, podem acabar morrendo. Um deles tenta e logo falece. Seu nome? Black Hammer, que dá título ao quadrinho.

É perpectível a tentativa de Lemire criar mais uma obra dramática do que propriamente sobre elementos “heróicos”. Seus protagonistas são quebrados por diversos motivos, porém o que todos acabam sentindo é a sólidão. Essa por estarem trancafiados em um ambiente de uma semi-destruição pessoal. Antes, eles eram considerados os melhores do mundo, e agora não são nada. De que adiantaria ter tantos poderes se não conseguem utilizá-los? Eles se questionam, enquanto o quadrinista usa o primeiro volume para apresentar todas essas peças do jogo. A relação dessa base mais pesada é elevada em um realismo vibrante da arte de Dean Ormston.

A partir do segundo é quando as coisas realmente saem do lugar. A partir dali, o tabuleiro mexe algumas vezes, incluíndo a aparição da jornalista Lucy Weber, filha de Black Hammer. Nesse instante, Lemire coloca uma questão interessante: o fato dela estar mais interessada em respostas do que quem está lá durante todo esse tempo. Ao aceitarem aquele mundo, eles passam a se integrar em uma outra lógica de vida. Estariam fugindo dessa amargura de viver? Das responsabilidades deixadas para trás pelo simples motivo de terem de proteger a todos? Nesse sentido, qual seria a missão dos heróis?

Somos colocados a muito mais questionamentos do que respostas, algo definitivo para causar maiores surpresas a frente. Os personagens ainda são desenvolvidos, todavia quase se encaixando em um outro padrão social. Eles não querem aquilo, mas observam como uma única forma de estar vivendo. As cenas envolvendo relação com suicídio, por exemplo, reforçam esse ar mais pesado da trama.

Entretanto, é no terceiro volume que as coisas tomam dimensões extraordinárias. Como já estamos totalmente conectados para com aqueles heróis, agora somos parte daquela rotina. Essa, que vira uma constante, uma realidade palpável. Para que retornar àquela vida de dificuldades? O fardo e o peso de vestir a roupa – risível para alguns – é necessária ao equilíbrio do mundo. Pode-se falar isso sem citar maiores spoilers, visto que é nesse momento que todo o meio social torna-se vigente aos heróis.

Em “Black Hammer” estamos em contato com seres falidos. Falidos moralmente, fisicamente, psicológicamente e mais. São peças descartáveis em uma sociedade altamente descartávle. Para que heróis, se esses criam os vilões? O questionamento das pessoas até faz sentido. Entretanto, Jeff Lemire traz: por que estamos vendo a máscara e não as pessoas?

Notícia da Semana. A editora Panini, respondendo uma pergunta dos fãs no Facebook, revelou que iniciará a publicação das HQs clássicas de “Asterix” em março. A coleção será dos formatos especiais para colecionadores, contendo 38 encadernados e 3 livros, porém sem valores revelados, por enquanto.

A série “Asterix” chegou a ser publicada por diversas editoras no país, como a Galera e a Record ainda nos anos 2010. Os quadrinhos originais foram publicados na França a partir de 1959 quando Albert Uderzo e René Goscinny se uniram. Ela é publicada até os dias de hoje, mesmo após a morte de Goscinny em 1977.

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