O que são os Manhwa?

Nesse último domingo, dia 09, o filme “Parasita” ganhou o Oscar de Melhor Filme, um feito histórico para uma produção cinematográfica fora dos Estados Unidos. O acontecimento fez surgir uma série de dúvidas e curiosidades sobre a onda da produção cultural da Coreia do Sul, que se chama Hallyu. Esse movimento vem tomando todo o mundo, especialmente no quesito de utensílios de beleza, cinema e música.

Buscando explorar os horizontes das HQs sul-coreanas, trago hoje aqui o Manhwa. Pode soar um termo estranho – e até, propriamente, é -, contudo ele é a denominação para os mangás produzidos na Coreia. Porém, eles possuem sua particularidade, não sendo uma cópia ou tentativa de ser algo similar. Um dos exemplos mais claros disso é a sua forma ‘ocidental’ de ser lida, da esquerda para a direita, ao contrário dos mangás tradicionais.

Apesar de não ser inteiramente famoso, o termo ganhou destaque no país em 1920, quando foi colocado em cartoons, ou seja, histórias menores. Importante salientar como a ocupação japonesa nessa época afetava totalmente a maneira e o consumo cultural do povo. Posteriormente, após a Segunda Guerra Mundial, a influência americana veio muito forte, efeito esse que transformou as tradições do país oriental.

No Japão, os mangás são diversos, possuindo gêneros e formatos específicos para diferentes pessoas e tipos de público. Com os Manhwa, isso é até relativamente próximo, todavia também é diferente. Isso porque são dois os maiores sucessos com os leitores coreanos: histórias para meninas jovens e histórias com olhar muito erótico (mesmo não sendo pornográficas). A primeira ganhou força durante os anos 50 e 60, aonde era possível ler quadrinhos nos mais diversos lugares, com catálogos disponibilizados e abertos em cafés, por exemplo. Já o segundo advém do atual momento do mundo, mais colocado pela questão visual, especialmente com o crescimento de filmes e séries.

Durante os anos 60 e 70, o quadrinista Sanho Kim mudou-se para os Estados Unidos, levando diversas HQs para lá. Algumas delas foram publicadas em grandes editoras, como Marvel e Charlton Comics. A internacionalização – mesmo não tão forte – dessas obras foi iniciada, algo colaborado, ainda mais, pelos filmes de Bruce Lee, que traziam um olhar oriental dentro da ação nos EUA.

Dentre os mangás mais famosos estão ‘Chonchu – O Guerreiro Maldito’, ‘Angry’, ‘Priest’ e ‘Ragnarok’, todos esses publicados no Brasil. A última, baseada no game de enorme sucesso, demonstra todo esse olhar mais vistoso a cultura do ocidente. Essas histórias tentam trazer sempre uma complexa relação do ambiente da Coréia com questões como a sexualidade, religião, entre outros.

É complexo definir com exatidão o que seriam os Manhwa, porém eles representam um olhar tipicamente coreano para os mangás. Apesar de não conseguirem ainda tomar o mundo, eles demonstram o olhar que a Coréia do Sul tenta dar para tudo na sua cultura: de fazer algo próprio. Talvez – só talvez mesmo -, o Brasil poderia (e deveria) seguir o mesmo caminho.

Capa da primeira edição de ‘Batman: A Queda do Morcego’

Notícia da Semana. A editora Panini anunciou que, a partir desse mês, começará a republicação de ‘Batman: A Queda do Morcego’, uma das grandes obras-primas do personagem da DC. A história, publicada em 1993, é um dos marcos de grandes vilões do Homem Morcego, transformando Bane em parte desse hall. Além dele, há uma série de inimigos que aparecem, depois da fuga do Asilo Arkham.

Serão, no total, 3 edições com cerca de 600 páginas cada uma. A primeira terá o preço de R$85,90.

As depressões heróicas

É complexo entender os heróis. Cheios de ideias mirabolantes e também relações complexas mentalmente, eles aparentam normalidade, porém são quase inteiramente transtornados. Pegando o exemplo do Batman, um homem que, ao perder os pais, decide descontar em um combate contra a criminalidade na cidade. Ele apenas gera seus maiores vilões, a qual não existiam anteriormente. Ou o Superman, um alieníngena complexado que quer defender a Terra, mas sem nem entender a si mesmo. O que falar do Homem-Aranha? Um menino simples que quer ser maior do que realmente é.

Todos esses seres extrapolam uma certa noção moral e física da nossa sociedade, ultrapassando quase sentimentos também. Mas, e se persarmos nesses personagens também como quebrados? Como pessoas que tentam se acostumar a uma realidade que não estão inseridos? Tentando ser pessoas que realmente não são? É um pouco dessa perspectiva que Jeff Lemire traz em “Black Hammer”.

A HQ conta com 4 números lançados nos Estados Unidos – isso da série regular, com alguns outros em produções paralelas – e teve 3 delas já em solo brasileiro pela editora Intrínseca. Sua história é bem simples: um grupo de heróis, após lutar contra o indestrutível Antideus, são jogados para uma cidade no interior dos Estados Unidos. Eles não podem mais usar seus poderes nesse local e, caso tentem sair de uma bolha colocada, podem acabar morrendo. Um deles tenta e logo falece. Seu nome? Black Hammer, que dá título ao quadrinho.

É perpectível a tentativa de Lemire criar mais uma obra dramática do que propriamente sobre elementos “heróicos”. Seus protagonistas são quebrados por diversos motivos, porém o que todos acabam sentindo é a sólidão. Essa por estarem trancafiados em um ambiente de uma semi-destruição pessoal. Antes, eles eram considerados os melhores do mundo, e agora não são nada. De que adiantaria ter tantos poderes se não conseguem utilizá-los? Eles se questionam, enquanto o quadrinista usa o primeiro volume para apresentar todas essas peças do jogo. A relação dessa base mais pesada é elevada em um realismo vibrante da arte de Dean Ormston.

A partir do segundo é quando as coisas realmente saem do lugar. A partir dali, o tabuleiro mexe algumas vezes, incluíndo a aparição da jornalista Lucy Weber, filha de Black Hammer. Nesse instante, Lemire coloca uma questão interessante: o fato dela estar mais interessada em respostas do que quem está lá durante todo esse tempo. Ao aceitarem aquele mundo, eles passam a se integrar em uma outra lógica de vida. Estariam fugindo dessa amargura de viver? Das responsabilidades deixadas para trás pelo simples motivo de terem de proteger a todos? Nesse sentido, qual seria a missão dos heróis?

Somos colocados a muito mais questionamentos do que respostas, algo definitivo para causar maiores surpresas a frente. Os personagens ainda são desenvolvidos, todavia quase se encaixando em um outro padrão social. Eles não querem aquilo, mas observam como uma única forma de estar vivendo. As cenas envolvendo relação com suicídio, por exemplo, reforçam esse ar mais pesado da trama.

Entretanto, é no terceiro volume que as coisas tomam dimensões extraordinárias. Como já estamos totalmente conectados para com aqueles heróis, agora somos parte daquela rotina. Essa, que vira uma constante, uma realidade palpável. Para que retornar àquela vida de dificuldades? O fardo e o peso de vestir a roupa – risível para alguns – é necessária ao equilíbrio do mundo. Pode-se falar isso sem citar maiores spoilers, visto que é nesse momento que todo o meio social torna-se vigente aos heróis.

Em “Black Hammer” estamos em contato com seres falidos. Falidos moralmente, fisicamente, psicológicamente e mais. São peças descartáveis em uma sociedade altamente descartávle. Para que heróis, se esses criam os vilões? O questionamento das pessoas até faz sentido. Entretanto, Jeff Lemire traz: por que estamos vendo a máscara e não as pessoas?

Notícia da Semana. A editora Panini, respondendo uma pergunta dos fãs no Facebook, revelou que iniciará a publicação das HQs clássicas de “Asterix” em março. A coleção será dos formatos especiais para colecionadores, contendo 38 encadernados e 3 livros, porém sem valores revelados, por enquanto.

A série “Asterix” chegou a ser publicada por diversas editoras no país, como a Galera e a Record ainda nos anos 2010. Os quadrinhos originais foram publicados na França a partir de 1959 quando Albert Uderzo e René Goscinny se uniram. Ela é publicada até os dias de hoje, mesmo após a morte de Goscinny em 1977.

A linguagem dos quadrinhos

Há pouco tempo atrás, li, pela primeira vez, aquela que é uma das obras consideradas as maiores do século XXI e, possivelmente, figurando entre as grandes de todos os tempos. Estou falando de “Jimmy Corrigan – O Menino Mais Esperto do Mundo”, escrita e desenhada por Chris Ware, na qual ganhou uma edição caprichada e de tradução perfeita no Brasil pela editora Companhia das Letras, no selo Quadrinhos na Cia (a HQ, atualmente, está sendo republicada em terras nacionais).

Com base nessa leitura, pude refletir bastante no uso da linguagem própria do meio para contar uma história em quadrinhos. Até porque existe uma necessidade intrínseca a contar diversas histórias e utilizar o máximo da capacidade que aquela mídia pode transmitir. Como disse Marshall McLuhan: “o meio é a mensagem”.

Posso dar dois exemplos aleatórios com animações de heróis para ilustrar isso. Uma com “Operação Big Hero”, filme de 2014, que é bastante convencional ao tratar de uma narrativa com ideias da nona arte, além de ser baseada em uma. Tomemos a outra com “Homem-Aranha no Aranhaverso”, de 2018. Apesar de eu não gostar tanto dessa – entendendo bem quem ama -, é inegável a capacidade estética da produção ao usar a linguagem que apenas o cinema pode ter (imagem em movimento) em uma mistura com o mundo dos quadros.

A obra de Chris Ware não é uma realização comum. Seus trabalhos sempre buscam uma correlação bem clara entre o formato e a trama. Nisso, adentramos em “Jimmy Corrigan”, uma HQ que utiliza isso até dizer chega. O que falar do início, com já algo sendo contado através do encarte? Em que outro estilo artístico poderíamos ter algo parecido? Além disso, a própria capa, ilustrando o personagem lateralmente, já denotam um certo sentido de uma realização não tão padronizada. Ware conta a vida de Jimmy, que realmente não é padrão. A disfuncionalidade, aliás, é o recorrente na sua existência. Pergunto a você leitor: será que existiria um impacto nessa produção feita para o cinema, literatura, teatro ou música? As diferentes formas de mídia trazem diferentes maneiras de produzir e fazer a audiência receber aquilo.

O autor não é único e nem exclusivo no meio dos quadrinhos. “Lone Sloane”, de Philippe Druillet, por exemplo, gera uma experimentação visual do meio desde os anos 1970. Aliás, parando para pensar, o primeiro quadrinho de herói pode ser chamado também de experimental, visto que destoava das realizações de seu período histórico. “Moonshadow”, criado por J.M. Dematteis e Jon J Muth em 1985, usa e abusa de elementos além do seu próprio tempo, afim de gerar situações e questões únicas na narrativa. Essa história só conseguem ser consumida dentro do meio.

Para não esquecer do Brasil, duas HQs são essenciais: “Você é um Babaca, Bernardo”, de Alexandre Lourenço, e “A Insustentável Leveza do Ser”, de Laerte. Ambas distantes temporalmente, todavia utilizando seu meio para buscar novidades.

Apesar de ficarmos muitas vezes acostumados em nosso patamar de leitura, é extremamente necessária uma transformação. O mundo dos quadrinhos, hoje habitado por uma diversidade que não será a mesma daqui a algum tempo, precisou de modificações para ser o que é. Acima de tudo, precisou de autores que buscassem olhar para a sua linguagem elaborando novidades dentro dela. Gostando disso ou não, as artes sempre precisam de seu experimentalismo.

Capa da edição original de Sabrina.

Notícia da Semana. A editora Veneta anunciou seus lançamentos no meio dos quadrinhos para 2020 e, contando com outros excelentes títulos, dois se destacam mais: “Sabrina” e “Berlim”. As duas possuem diferentes maneiras de passar histórias diversas, porém relacionado bastante com o tema da coluna de hoje. O uso da nona arte é fundamental para compreender o buscado pelos quadrinistas realizadores.

Para conferir o catálogo completo da editora, clique aqui.

Os Inimigos

George Takei, o ator que interpretou o personagem Sulu na série original de “Star Trek”, nunca teve uma vida tão fácil. Em sua imagem pública, duas questões marcam mais aos olhos: o fato de ser uma pessoa com descendência nipônica, em meio a produções televisivas do período totalmente focalizadas em homens brancos, e a a luta posterior no movimento LGBT. Contudo, sua trajetória ganhar um caráter ainda mais complexo quando sabemos mais sobre as decorrências que o levaram até ali em “Eles Nos Chamavam de Inimigo”, HQ recém-lançada pela editora Devir. Takei sai de sua forma de artista para buscar um ideal quase primordial do que nos torna humanos.

Afim de descobrir as melhores maneiras de trazer sua história aos quadrinhos, o ator chamou Justin Eisinger e Steven Scott para ajudar nos roteiros e Harmony Becker com os desenhos. Não são nomes de extremo peso dentro da indústria, porém foram os suficientes a deixar essa história se buscar por si só. Não existe uma tratativa de idealizar uma linguagem da nona arte ou até buscar uma transposição dessa maneira. É uma trama bastante universal, podendo ganhar adaptações em qualquer outra mídia. A intenção de universalidade traz um certo sentido nisso tudo.

Takei retoma sua vivência no período da infância. Momento esse conturbado do mundo, que estava todo tomado pela 2º Guerra Mundial. As mortes se proliferavam e a principal luta passava a ser contra o facismo na Itália e o nazismo na Alemanha. Pois bem, um terceiro país fazia parte do chamado ‘Eixo’: o Japão. País esse menos badalado em termos de seu regime político e acabando por ser mais lembrado no conflito por causa das bombas atômicas de Hiroshima e Nagazaki. Um fato anterior, todavia, aconteceu para desencadear um certo retrospecto perante os japoneses ou descendentes deles. Esse foi o ataque de Pearl Harbor.

Ocorrido em 1941, ele foi fundamental a entrada dos Estados Unidos dentro do conflito. Feito pelo Japão, a base americana com esse nome foi quase totalmente destruída. E, mais do que isso, houve uma modificação eterna para sempre a existência do, até então, pequeno George. Ele, junto de sua família, acabou sendo levado para um campo de concentração americano exclusivo para nipônicos, devido a uma certa ‘insegurança’ com eles perto após o ataque.

Preso com sua família, o futuro ator de “Star Trek” viveu um pouco de tudo. Fome, sede, frio, calor, problemas de relacionamento. Não eram poucas as dificuldades, todas trazidas sob imensa dor nos detalhes buscados pela narração da HQ. O artista, hoje adulto, conta essa trajetória quase como uma história infantil, apesar do peso adquirido em cada ação. As situações levam sempre a questionamentos sob a própria noção de humanidade. Mesmo tão novo, o protagonista até mesmo se pergunta o que seria aquilo tudo. Até que ponto seria possível fazer tão mal a pessoas sem relação alguma com nada?

A potência de “Eles Nos Chamavam de Inimigo” reside muito mais nas discussões propostas do que mesmo em sua história. Aliás, é interessante como é possível analisar uma vontade de entender de que forma a intolerância persiste no mundo. Apesar de não adentrar afundo na política atual, os paralelos são claros sobre a condição de vida dos homens e mulheres na atualidade. Talvez por isso a vontade de, posteriormente, realizar “Star Trek”. George Takei queria quebrar apenas barreiras físicas que nos fazem diferente, indo aonde nenhum homem jamais esteve.

Capa da HQ “A Louca do Sagrado Coração”

Notícia da Semana. A maior discussão no mundo dos quadrinhos nessa semana foi sobre o caso da clássica HQ de Alejandro Jodorowsky e Moebius, “A Louca do Sagrado Coração”. Essa, lançada nos anos 90, fez extremo sucesso pelo mundo inteiro por ser a reunião de dois grandes nomes da arte pelo mundo no período. Foi distribuída em diversos lugares sob essa capa demonstrada acima.

Pois bem, a história ocorreu no dia 15 de janeiro, quando a transportadora DHL devolveu edições do quadrinho para a editora Veneta, que havia mandado para chegar a França, devido a questões contratuais. Segundo a Veneta falou em postagem, “a nova censura vem armada de algoritmos, esquemas monopolísticos e muito dinheiro”.

Após ver a repercussão negativa do caso, a distribuidora pediu desculpas e disse que irá fazer o envio do material sem cobrar nada. A Veneta, no entanto, ainda levantou a importante discussão sobre a moralidade e a questão da censura no caso. Segundo divulgado, apesar de tudo, “o mecanismo permanece intacto, a DHL não transporta o que considera pornografia. Quem conhece a história dos Comic Books sabe que os correios têm sido talvez a principal arma contra a liberdade de expressão nos Estados Unidos. Uma forma de driblar a Primeira Emenda”. Estejamos atentos.

Entrevista com Leandro Assis, de Os Santos

Ilustrador, Leandro Assis começou sua carreira buscando realizar perfis, personalidades, entre outros. O mundo político entrou em sua vida com uma força tremenda, fazendo o quadrinista realizar trabalhos sempre bastante críticos a diversas forças da direita, desde o juíz e atual Ministro da Justiça, Sérgio Moro, até o presidente brasileiro, Jair Bolsonaro. Algumas dessas tiras podem ser vistas aqui.

Após participar da coletânea “Moluscontos”, na qual será impressa através do financiamento pelo Catarse, ele começou uma série de tiras chamada, incialmente de “Os Bolsominions”. A mudança ocorreu e agora a produção possui o título de “Os Santos”, contudo a ideia é a mesma: contar, de forma bem direta e dura, sobre o que é a elite brasileira. Isso, através de uma trama diversa e que ressoa de maneira precisa com os dias atuais.

Cláudio Gabriel: Você mudou o nome das tiras de Os Bolsominions para Os Santos. Por que essa escolha?

Leandro Assis: A ideia de fazer a tira veio da vontade de falar sobre um tipo de eleitor do Bolsonaro. Mas vários Bolsominions passaram a entrar no meu perfil alegando que eu estaria generalizando, chamando todos os Bolsominions de preconceituosos e racistas. Claro que não estava fazendo isso. Estava falando de um determinado tipo de eleitor do Bolsonaro. Enfim. Para não permitir que os Bolsominions entrassem no perfil para reclamar e desviar o foco das tiras para essa questão, decidi mudar o título. 

CG: Qual a importância de trazer esse olhar sobre a elite brasileira, especialmente em um período forte ideologicamente no país?

LA: Temos uma elite escravocrata, preconceituosa, classicista e extremamente egoísta. Nossa elite luta furiosamente para não perder privilégios e manter toda uma parcela da população na condição de subalterno. Até quando? E a eleição do Bolsonaro é a reação direta dessa elite a um momento em que os pobres tiveram alguma melhoria de vida. Estamos em um momento triste, em que a política neo liberal e os retrocessos nos costumes vão representar uma piora na vida dos pobres e das minorias. Só nos resta enfrentar isso. Falar dessa situação. Tentar promover discussão, reflexão e constranger a elite. 

CG: Como você vê a força da sua obra na atual realidade do país? Contando também o fato que diversas produções brasileiras retratam a disputa de classe do país.

LA: Eu não sei avaliar a força do meu trabalho. Sei que a reação está sendo muito maior do que eu poderia imaginar. Professores vieram me dizer que estão usando as tiras em sala de aula. Leitores dizem que tem refletido mais sobre como agir. Domésticas me procuram para agradecer, dizem que se sentem representadas. Enfim. Obviamente as tiras estão tocando muita gente. E se isso ajudar a promover discussão sobre racismo e desigualdade social já terá sido espetacular 

CG: Vejo muitos comentários retratando sempre uma tristeza aos ler as tiras. Como você vê isso?

LA: Acho que as tiras expõem a falta de empatia da elite. E como essa falta de empatia leva à exploração de outros brasileiros. E essa é uma situação extremamente triste para quem a vive na pele. Vem daí a tristeza vista nas tiras. Mas eu espero não ficar apenas na tristeza. Não é para ser uma série sobre pessoas que só fazem sofrer. E quem sabe haverá reviravoltas nessa história?

CG: A história tem sido publicada através das redes sociais. De que forma você observa esse processo? É diferente do que realizar em um meio tradicional?

LA: Essa tira foi pensada para ser lida no Instagram. Tive essa ideia depois lendo as tiras do “Pacha Urbano”, As traumáticas aventuras do filho do Freud. Gostei muito da experiência de ler quadro a quadro. Ou seja, a história está sendo contada nesse formato porque foi pensada pro Instagram. Se eu tivesse sentado para fazer uma graphic novel, certamente seria bem diferente.

Além disso, há a resposta imediata dos leitores. Os comentários. A troca. Tudo muito rico e estimulante. O livro, nesse aspecto, é mais frio. Por outro lado, muita gente vem pedindo para que eu lance as tiras em livro (o que está nos planos), que tem a vantagem de ler todas as tiras reunidas, em ordem etc.

CG: Ao fim das tiras, há uma possibilidade de haver uma edição reunindo todas? Como você tem visto isso?

LA: Sim. É praticamente certo reunir as tiras em um livro. Só é precisa que a história tenha fôlego para isso! 

Capa de O Gourmet Solitário

Notícia da Semana. A editora Devir lança no Brasil a HQ “O Gourmet Solitário”, escrita por Masayuki Kusumi e desenhada por Jiro Taniguchi. O mangá acompanha o selo tsuru, de obras clássicas japonesas trazidas pelo Brasil, como já haviam sido trazidas antes “O Homem que Passeia”, “Nonnonba”, entre outros.

Na história, acompanhamos uma passeio por diversas regiões de Tóquio enquanto o protagonista saboreia os mais variados sabores, além de adentrar em um mundo diferente a cada prato comido. A obra custa o preço de capa de R$45 reais.

O mundo Silvestre de Wagner Willian

A floresta pode ser sempre um território dúbio aos humanos. Enquanto traz diversas sensações de desespero e um lado até desolador, pode ser quase um abraço a quem sente-se solitário, imaginando a quantidade de espécies por ali. Da mesma forma, a natureza pode buscar o pior e o melhor da espécie, causando sempre uma curiosidade de vivência por parte dos seres racionais aqui presentes.

Em busca de entender através de preceitos filosóficos sobre quem somos em torno desse espaço, Wagner Willian realiza seu mais novo trabalho, “Silvestre”. Na história, um caçador anda por uma floresta tentando se encontrar e buscar uma presa. Ele acaba, no entanto, sendo capturado por todo esse espírito local, incluindo diversos seres mágicos, e participando de um ritual ali dentro. Estaria ele sendo levado para algum lugar? Até que ponto tudo isso serve de bem ou de mal para esse ser? O ambiente pode simplesmente destruir ou criar tudo? Questionamentos como esses são levantados na ideia de entender o que realmente é silvestre.

Para colocar isso de frente, Willian divide sua história em três capítulos: Seguia um Rastro de um Raro Animal, A Celebração e O Apressado Come Cru. Dentro dessas divisões é possível compreender claramente toda a relação imagética colocada pelos traços do autor. Aliás, imagem é o que realmente causa o maior impacto de “Silvestre”, uma HQ que – definitivameente – só poderia ser feita através da nona arte. A mistura de pincel, tinta, lápis e até sangue do artista colocam toda uma questão de cor e desenhos gerando um mundo novo, praticamente irreal, contudo com alguns traços de um mundo palpável.

É possível perceber toda a dicussão temática tendo como maior influência o autor naturalista Henry David Thoreau. Há ainda citações por parte de Wagner do pintor Eugène Delacroix e do filme “Dersu Uzala”, de Akira Kurosawa. Essas misturas de elementos ainda trazem mais força quando estão em contato com as colocações culturais diversas em representações simbólicas, especialmente nos rituais. Seres de diversas religiões, mitologias e crenças ao longo da trajetória humana causam impacto por sua mescla, todavia sempre pertencentes e criadas pelos homens/mulheres aqui presentes. A crença, algo tão debatido mais recentemente, passa a ser um ideal mágico e menos relacionado a um mundo específico, mas sim a todos.

Nessa perspectiva, Wagner Willian coloca “Silvestre” como um quadrinho afim de debater perspectivas. Essas podendo ser sobre crenças, assim como a relação dos humanos com a natureza, e como entendemos nossa própria vivência na Terra. O sexo, dessa forma, acaba por ser um elemento fundamental de toda essa concepção de universo, proposto como nossa colocação fora de uma racionalidade, movida a uma emoção. Emoções tão típicas de humanos, todavia tão colocadas de lado pelos mesmos. Afinal, e se realmente nos assumíssemos como silvestres? Seriam as cidades as verdadeiras florestas? Isso cabe apenas a reflexão buscar respostas.

Logo da novo evento da editora

Notícia da Semana. A Marvel Comics anunciou “Empyre” como sua mais nova megasaga (ou evento) nos quadrinhos. Com previsão de início para abril, a série irá contar uma história unindo os Vingadores e o Quarteto Fantástico, porém ainda sem uma previsão anterior de quantas edições terá por completo. O que é sabido da trama, por enquanto, é que os vilões serão os Kree e os Skrulls atacando a Terra.

O roteiro será de Wal Ewing e Dan Slott, enquanto os desenhos ficam a cargo de Valerio Schiti. Pelo que tem sido prometido, será um “épico interestellar”.

Capa da primeira edição da volta de Condorito.

Notícia da Semana 2. Depois de 27 anos, o personagem Condorito, nome da famosa HQ chilena de Pepo, voltará a ser publicada no Brasil. Os quadrinhos mesclam de influências e sendo influenciados por alguns dos nomes de maior destaque da Disney, como Zé Carioca, Mickey, Pateta, entre outros.

“Condorito” traz uma história sobre pessoais em condições de maior pobreza dentro do Chile, visto que é um Condor, ave símbolo do país sul-americano.

Com previsão de chegar em março desse ano e com uma história inédia de 48 páginas, o quadrinho já pode ser apoiado através do Catarse. Veja aqui as recompensas e como garantir o seu.

Melhores HQs de 2019

O blog A Nona Arte convidou diversos apaixonados por quadrinhos para elegerem seus melhores do ano. Juntando as listas (em conjunto com a minha) fizemos um top 10 “médio”, para dizer assim, ou seja, contando a partir de votos segundo escolha de colocações de todos. As disputas foram bastante acirradas e decididas em pequenas posições.

Os participantes da lista foram Ticiano Osório (jornalista do Gaúcha ZH), Érico Assis (tradutor e jornalista), Ricardo Seelig (criador do site Collector’s Room), Laice Cardoso (leitora), Flavia Fernandes (leitora), Lucas Leal (leitor) e eu, Cláudio Gabriel, escritor desse blog. Importante destacar que outros influenciadores e nomes participantes de portais, sites, grupos, canais, entre outros, direcionados a HQs foram chamados, porém nem todos responderam de volta ou puderam atender o pedido.

Antes de iniciar a lista, é interessante destacar que houveram apenas duas regras: só valiam lançamentos do Brasil entre dezembro de 2018 e dezembro de 2019 e relançamentos não contavam. Outra observação é a de Érico, que preferiu não colocar seus trabalhos de tradução na lista. Com isso tudo, seguimos ao top 10:

10º – Virgem Depois dos 30 (Atsuhiko Nakamura e Bargain Sakuraichi)

Lançada ainda em maio pela editora Pipoca e Nanquim, o autor Atsuhiko Nakamura faz um mangá documental sobre os virgens no Japão que já passaram dos 30 anos. Relato bruto, cruel e até deveras bizarro sobre uma situação oriunda dessa sociedade. A HQ, não a toa, foi uma das obras mais comentadas do ano.

9º – Duplo Eu (Navie e Audrey Lainé)

A quadrinista francesa Navie conta uma história autobiográfica sobre sua relação com o própio peso. Na busca de se entender corporalmente, ela faz uma espécie de relato complexo sobre como sentia sendo uma pessoa obesa, suas dificuldades de aceitação na sociedade e diariamente. Um dos trabalhos mais singelos lançados esse ano. A edição é da editora Nemo.

8º – Senhor Milagre (Tom King e Mitch Geralds)

A história de Tom King, que já havia feito extremo sucesso no Brasil e no mundo com sua versão do “Visão”, traz um Senhor Milagre diferente daquele conhecido de sua criação por Jack Kirby nos anos 1970. Dividida em duas edições, a HQ, publicada no Brasil pela editora Panini, traz um protagonista quebrado e muito mais complexo que produções rotineiras da Marvel e DC.

7º – Eu Matei Adolf Hitler (Jason)

Jason realiza um trabalho um tanto quanto curioso. Em um quadrinho que passa de viagem no tempo, entendimento sobre a vida e assassinos de aluguel sendo profissionais comuns no mundo, temos uma produção na qual retrata de forma intrigante o peso do tempo. Seja para ideologias ou para pequenas histórias. Lançamento da editora Mino.

6º – O Homem Sem Talento (Yoshiharu Tsuge)

Yoshiharu Tsuge se transformou em um dos autores mais impactantes dos quadrinhos japoneses. Nessa sua forma conhecida como “quadrinhos do eu” (gênero watakushi), há um relato bastante triste sobre a vida de um homem que parece não ter talento para nada. Na busca de uma forma de sustentação enquanto tem dificuldades com a família, ele se vê sempre invisibilizado por tudo e todos. A edição é da editora Veneta.

5º – Tina: Respeito (Fefê Torquato)

Primeira e única HQ nacional da lista, o trabalho de Fefê Torquato aqui – em um dos lançamentos da Graphic MSP pela editora Panini – retoma o atual momento do movimento #MeToo pelo mundo. Tina não é mais uma personagem secundária, como nas histórias da Turma da Mônica, mas assume um papel de bastante força e personalidade, além de enfrentar o machismo do dia a dia.

4º – Intrusos (Adrian Tomine)

Em uma produção de contos sobre vizinhos e histórias cotidianas, Adrian Tomine busca as histórias sobre pessoas comuns em lugares comuns. Pode até ser algo devidamente desinteressante, mas não é assim que a própria vida é? Por isso, “Intrusos” acaba tornando-se tão interessante. Toda essa relação ainda dá as mãos para a narrativa gráfica potente, em uma obra que só poderia ser lido através da nona arte. O lançamento no Brasil foi pela editora Nemo.

3º – Aurora das Sombras (Fabien Vehlmann e Kerascoët)

É uma história que poderia ser muito mais singela e tranquila, porém os tons sombrios e bizarros a tornam totalmente única. Escrita por Fabien Vehlmann e desenhada pelo casal Marie Pommepuy e Sébastien Cosset, que assina como Kerascoët, vemos uma espécie de novo clássico das HQs de terror. Uma mistura bem profunda de psicodelia, metáforas, crescimento e “Alice no País das Maravilhas”, esse lançamento da editora DarkSide Books vale ouro.

2º – O Relatório de Brodeck (Manu Larcenet)

Adaptação de um romance francês de Philippe Claudel, “O Relatório de Brodeck” é uma história potente. Talvez potente seja até uma palavra pequena para expressar as diversas camadas histórias e de personalidade em um mundo de desilusão após a Segunda Guerra Mundial. A morte dá cheiros e contornos para uma obra praticamente impecável. A edição brasileira é da editora Pipoca e Nanquim.

1º – Gideon Falls (Jeff Lemire e Andrea Sorrentino)

Mesmo tendo começado a ser lançada no Brasil em novembro de 2018, foi nesse 2019 que “Gideon Falls” consolidou-se como uma da grandes HQs do momento. Tendo saído, por enquanto, em três edições pela editora Mino, a história ainda trará muito mais. Em uma mistura de terror e suspense, temos um dos possíveis novos clássicos das produções americanas, trazendo uma narrativa complexa e bastante tensa.

Outros quadrinhos citados: “Black Hammer”, “Spinning”, “Devilman”, “Oblivion Song”, “Tabu”, “Black Science”, “O Preço da Desonra”, “A Canção de Roland”, “Minha Coisa Favorita é Monstro”, “Astolat”, “O Mundo Sombrio de Sabrina”, “Luz que Fenece”, “Os Mitos de Cthulhu”, “Heimat”, “Benzimena”, “Exorcismo: O Ritual Romano”, “Três Buracos”, “Floresta dos Medos”, “Aquele Verão”, “Silvestre”, “Luzes de Niterói”, “Golias”, “Squeak the Mouse”, “Black Monday” e “Sob o Solo”.

E quais seriam seus quadrinhos favoritos do ano?

Julio Shimamoto e seu Ditador Frankenstein

No ano de 1969, em São Paulo, o diretor artístico Julio Shimamoto andava para fora de seu escritório quando foi revelado que dois homens o esperavam. Esses se disseram agentes federais e colocaram o homem, de então 30 anos, em um camburão. Diversas possibilidades de tortura foram ventiladas nos ouvidos de Julio, porém, por uma sorte do destino, não teve nada realizado perante seu corpo – visto que seu psicológico já estava abalado. O caso marcou a carreira do então jovem Shimamoto, na qual tornaria-se um dos maiores nomes dos quadrinhos do Brasil. O mesmo caso marcou sua maneira de fazer HQs para sempre.

Com base nisso, o editor Márcio Paixão Júnior, da editora MMarte, colocou no mundo um trabalho prévio e histórico. Digo isso pois, na intensa dificuldade de trabalhar e ler materiais clássicos da nona arte brasileira, o feito de Márcio não é menos que incrível. Lançando “O Ditador Frankenstein e outras histórias de terror, tortura e milicos”, temos 11 histórias (e uma relançada em outro formato) em um encadernado único. Todas as histórias com desenhos de Julio, e outras até com seu roteiro, que retratam toda uma fúria contida desse passado obscuro da trajetória brasileira.

E digo fúria porque é realmente uma fúria contida dentro dos traços de Shimamoto. Um caráter nada formal, nada relacionado a uma estética feita por Angeli e Laerte, por exemplo. Há um certo conceito bastante pesado para desenhar cada pequeno detalhe, especialmente os militares. Logo no enredo título desse volume, “O Ditador Frankenstein”, escrito por Luiz Antonio Aguiar, observamos uma dualidade entre a paranóia e o rídiculo. Os militares, ainda vigentes no controle político do período, são retratados sempre como bobos, quase impossíveis de estarem naquele comando. Sua aura maquiavélica causa uma relação interessante com os mais diversos gêneros.

Falando nisso, o apuro de escolha por parte de Marcio foi deveras interessante, a ponto de trazer um verdadeiro volume, com pouco mais de 200 páginas, quase puramente voltado a tramas de gênero. Ficção-científica e horror se misturam a quase todo instante, trazendo possibilidades a serem exploradas perante essas figuras inimigas. Um desses casos mais emblemáticos são as HQs escritas por Basílio de Almeida, em que acompanhamos casos de um repórter vislumbrando lados sobrenaturais de personagens da ditadura militar brasileira – sejam eles mortos ou soldados. Aliás, há um intrigante olhar para o início da milícia no período dentro da história “O Esquadrão dos Mortos!”.

Com esses elementos mais claros de ficção e menos documentais, é perpectível as diferenças de realização nos quadrinhos roteirizados também por Shimamoto. Ali, mais do que apenas essa relação forte com os traços, sempre bastante aguerridos, existe também uma carga forte de melancolia, contrastando com o cômico de outros enredos. Parece haver um sentimento mais pesado, rememorando até histórias pulp e de terror dos anos 40 e 50, sempre trabalhando um lado dramático muito forte dos personagens e, do mesmo modo, nos monstros.

“O Ditador Frankenstein e outras histórias de terror, tortura e milicos” fecha o ano de 2019 em uma maneira quase perfeita. Julio Shimamoto volta para os catálogos e para as possibilidades de ser repensado em tempos contemporâneos. Quando ondas cada vez mais ditadoriais retomam o discurso em terras brasileiras, o falado pelo autor há muito anos atrás reverbera quase como um espelho. Um espelho não muito bonito de ser olhado, mas sim pesado, cheio de marcas e impossível de ser esquecido pela memória.

Notícia da Semana. A Amazon divulgou no último dia 20, sexta, a lista das 20 HQs mais vendidas em sua loja virtual no ano de 2019. Impulsionados ainda pela série, “Watchmen” fica no topo desbancando a todos. Impressionantes são os números de “Akira”, com os volumes 2, 3 e 4 na listra, mostrando-se um sucesso, assim como “Drunna” e “Black Hammer”. A maior surpresa de todas fica por conta de “O Preço da Desonra” estar presente em uma posição tão alta e “Maus”, trazendo um certo paralelo com o complexo ano.

Veja abaixo os 5 primeiros lugares. A lista completa pode ser conferida aqui.

HQs mais vendidas pela Amazon em 2019.

A primeira mulher desenhando Tex

Criado em 30 de setembro de 1948 em uma história de tiras semanais, que durou até 1967, Tex foi um dos personagens mais representativos de sua época. Advindo do sucesso absoluto dos faroestes no cinema, era uma herói bem claro, à moda clássica. Elaborado pela dupla de grande sucesso nas HQs italianas, Giovanni Luigi Bonelli e Aurelio Gallepini, sua iconografia sempre tratava do homem branco que salvava uma mulher indefensa, lutando com índios e negros para isso – em boa parte dos casos.

Os tempos mudaram e sua persona deveria ganhar uma nova dinâmica aos tempos atuais, certo? Bom, nem tanto. Ele continuou vendendo um número sempre razoável para um público de homens mais velhos, na suma maioria. Esses estavam totalmente relacionados àquela figura bem típica de um outro período da história do mundo. Não que não devesse existir ou ter existindo, mas é interessante pensar como suas características e pensamentos expressam tantas questões retrógradas, mesmo quando analisam algo mais crítico.

A grande questão desse texto em si é elucidar a demora para termos uma mulher envolvida com os desenhos de Tex. O convite aconteceu para Laura Zuccheri em 2014, a fim de ilustrar o quadrinho “A Vingança de Doc Holliday”, publicado pela Editora Mythos no Brasil agora em 2019. Muito tempo de estrada se passou para chegarmos a um momento excepcional como esse. Simplesmente precisaram se passar 66 anos desde seu nascimento pela nona arte para que houvesse a participação de uma mulher pela primeira vez.

Para além da necessidade de reafirmação pela maior participação feminina na indústria dos quadrinhos, essa questão foi importante ainda por outro sentido: Tex é um personagem extremamente machista. Com atitudes sempre reprováveis em relação às mulheres, sempre se mostrou urgente a necessidade de um outro ponto de vista, com a intenção de não sensualizar à toa – ou até pior. Por estarmos lidando com desenhos, as possibilidades de demonstração da figura da mulher precisam entrar em debate, como foi quase sempre com Vampirella, ou com Milo Manara pelo desenho da Mulher-Aranha.

Alguns nomes de mulheres têm despontado como pioneiras nessa discussão toda. Relembrando o século anterior, Trina Robbins e Jill Thompson são dois grandes nomes a não serem esquecidos (apenas a segunda, porém, continua na ativa, tendo feito “Mulher-Maravilha: A Verdadeira Amazona” e “Beasts of Burden” como maiores sucessos). Mais recentemente G. Willow Wilson foi uma das refrescantes novidades, tendo desenhando a série vencedora do Eisner da “Ms. Marvel”.

Trazendo para terras nacionais, temos personalidades como Lu Caffagi, em que participou de um dos maiores sucessos recentes dos quadrinhos (“Turma da Mônica: Laços”), e Germana Viana, que angariou destaque na quebra de preconceitos por “Lizzie Bordello e as Piratas do Espaço” e “Gibi de Menininha”, essa vencedora do Troféu HQMix.

Casos como o da quadrinista Laura Zuccheri precisam se repetir no mundo das HQs. Ao ser questionada por Gianmaria Contro – em uma entrevista que também está na edição lançada no Brasil -, sobre o faroeste estar “distante da sensibilidade feminina” e se a mesma estaria pronta para “desmentir isso”, ela responde que “sem hesitar!”. Só esperar agora que mais Lauras apareçam na nona arte.

Capa do especial de Robin.

Notícia da semana. A DC anunciou, ainda nas comemorações dos 80 anos do Batman, um especial do Robin. Na edição, sob o nome de “Robin 80th Anniversary 100-Page Super Spectacular”, Marv Wolfman, Tom Grummett, Chuck Dixon, Scott McDaniel, Dan Jurgens, Tom King, Mikel Janin, James Tynion IV, Peter J. Tomasi, entre outros, estarão participando da celebração ao ajudante do homem-morcego. Todos os personagens que estiveram com seu manto (ou seja, Dick Grayson, Jason Todd, Tim Drake, Stephanie Brown e Damian Wayne) terão tramas dentro da HQ.

O lançamento está previsto para março de 2020 e a capa que você confere acima é de Le Weeks.

Entrevista com Felipe Kroll, de Os Fantasmas do Vento

Felipe Kroll já um nome reconhecido pelas suas artes sempre estunteantes de personagens como Hellboy, Capitão América, entre outros. Contudo, o autor agora começa uma nova jornada com sua história “Os Fantasmas do Vento”, na qual teve seu primeiro capítulo publicado completo no Instagram do artista.

A trama traz uma melancolia presente, sem tantas respostas, por agora, mas com um ar filosófico e intrigante no ar. Sua existência, decorrida de incentivos da prefeitura de Rio Preto e do Governo do Estado de São Paulo, era para ter saído diretamente no site do projeto. Entretanto, a publicação na sua rede social colaborou para que mais pessoas conhecessem essa obra. A expectativa fica, agora, para o que virá pela frente.

Como surgiu a ideia da história de “Os Fantasmas do Vento”? Existe já uma ideia de com quantos capítulos era será finalizada?

Os fantasmas tomou forma a partir de um texto que escrevi em 2018 intitulado “Nós Vamos Desaparecer”. Não tinha intenção nenhuma de fazer um livro, até porque era um texto bem pequeno, quase um poema em forma de conto narrando questionamentos do “Abel”, que hoje se tornou um dos personagens. Inicialmente era um texto de apoio de uma outra história minha, mas durante a produção percebi que tinha mais a dizer e as páginas foram aumentando, novos personagens foram surgindo e a história acabou tomando vida própria. Serão 15 capítulos, com, aproximadamente, 80 páginas de história.

Por que publicar direto no Instagram? Como surgiu esse pensamento?

Publicar no Instagram não foi nada previamente pensado. A publicação mesmo será no site oficial da história, que está acabando de ser produzido. No entanto, achei que seria válido, antes de lançar o site completo no ar, ir postando os capítulos pra atrair e construir um público. Escolhi o instagram apenas pelo fato de achar mais prático e ter o formato quadrado de postagem – próximo ao das páginas do livro. Mas poderia ter sido qualquer outra rede social… Estou inclusive postando trechos no facebook, deviant art e art station.

Acredita que essa publicação nas redes sociais é uma forma de popularizar os quadrinhos?

Sim.

O Instagram permite apenas poucas fotos continuamente, por isso o primeiro capítulo acaba sendo curto. Acredita que isso possa ser um empecilho para seu pensamento ou “Os Fantasmas do Vento” foi pensado desde o início assim?

Este projeto não foi produzido pensando no Instagram ou em ser moldado em postagens, mas o capítulo I mesmo está do tamanho e formato que foi idealizado sem nenhum corte ou adaptação. Então com certeza acredito que não é empecilho nenhum, pode ser que aconteça uma divisão de capítulos em duas postagens, mas ainda assim toda a ideia do livro será transmitida perfeitamente.

Existe alguma ideia em mente de um volume compilando os capítulos posteriormente?

Vai sair a versão impressa e e-book, no entanto o livro continuará na integra gratuito nas redes sociais e site.

A HQ é feita através de incetivos da prefeitura de Rio Preto e do Governo do Estado de São Paulo. Quanto importante foi o apoio desses entes estatais para a realização dessa obra?

Se não houvesse esse apoio provavelmente este projeto não seria realizado. Agradeço muito o incentivo na minha história, (eu mesmo não acreditava), e espero fazer valer a pena todo esse investimento.

Capa de Mondo Urbano.

Notícia da Semana. A Editora Mino relançou, na Comic Con Experience 2019, a HQ “Mondo Urbano”. Produzida por Mateus Santolouco, Eduardo Medeiros e Rafael Albuquerque – alguns dos nomes do selo Stout Club -, ela se transformou em uma das publicações independentes de maior sucesso com o público brasileiro quando saiu, em 2009. Na história, música e ritmo são os destaques principais.

A edição comemorativa, sob o preço de R$64,90, conta com diversos extras e um making of especial. O modelo similar ao lançamento recente de outra edição especial, no caso de “Mesmo Delivery”, de Rafael Grampá, publicado também pela Mino.

Capa de Cascão, nova Graphic MSP

Notícia da Semana 2. Durante o painel da Maurício de Souza Produções na CCXP 2019, foram anunciadas as novas Graphic MSP que terão em 2020. A maior noviade fica para o anúncio de “Cascão”, na qual será feita por Camilo Solano. Além dela, foram reveladas continuações de Jeremias (“Jeremias 2”), Astronauta (“Astronauta V”) e Penadinho (“Penadinho 2”).