Protestos de junho de 2013 são analisados em livro

A democracia brasileira tem um antes e um depois dos grandes
protestos de junho de 2013. Antes, havia uma democracia de coalizão; depois, emergiu uma democracia radicalizada, com efeitos permanentes, mas sem direção política clara e previsível. Esta é uma das principais conclusões do professor de Comunicação da Universidade Federal do Paraná (UFPR) Mário Messagi Júnior no livro “Outros Junhos Virão: Protestos Organizados em Rede e as Democracias Radicalizadas”. Editado pela Kotter, o livro será lançado amanhã (27), no Mímesis Conexões Artísticas, em Curitiba.

Manifestantes ocupam o Congresso Nacional em junho de 2013. Foto: EBC/Divulgação

O livro é o resultado de uma pesquisa quantitativa realizada com jovens
de 15 a 29 anos de Curitiba no segundo semestre de 2013. A amostra tem 576 coletas e foi estratificada segundo os dados do IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística). O questionário levantou diversas questões, algumas muito debatidas durante e depois de 2013, como o caráter ideológico do movimento (esquerda ou direita), o papel das redes sociais e dos meios tradicionais, o perfil dos jovens que foram para as ruas e o que os motivou ou desmotivou para protestar.

Já é possível comprar o livro pelo site da Kotter e da Amazon (e-book).

Os dados confirmam algumas hipóteses correntes, como a de que
houve uma inflexão à direita ao longo dos protestos, mas rejeitam outras,
como a de que os jovens que foram para a rua eram de direita.
Majoritariamente, o perfil é progressista. Além disso, aqueles que protestaram estavam mais à esquerda que os que ficaram em casa. Enfim, junho de 2013 ainda precisa ser esclarecido e melhor compreendido, como afirma Mário Messagi Júnior nas questões que ele respondeu para este blog:

Os protestos de junho foram mal compreendidos e/ou mal analisados, pela imprensa e sociedade?
Os protestos foram pouco compreendidos. Boa parte das explicações foram apresentadas no calor do momento e fazem mais parte da tentativa de atribuir sentido, significado ao evento do que ao esforço legítimo de entendê-lo. Fazem parte de uma disputa de narrativa, muito forte em acontecimentos com esta característica. No Brasil e no mundo, vários protestos já foram e continuam sendo organizados de forma distribuída, ou seja, construídos a muitas mãos. Muitas vezes, as pessoas que constroem estes protestos têm apenas um adversário comum, real (como um governo) ou abstrato (como o sistema político), mas não uma agenda comum. Isto acaba se expressando nas ruas, em demandas muito amplas, por vezes contraditórias. Com esta característica, estes movimentos não conseguem, eles mesmos, dizer o que significam, como aconteceu recentemente com os coletes amarelos da França. E isso abre margem para que atores diversos, de forma honesta ou interessada, tentem eles explicar o que significam estes movimentos. De certo e claro, estes movimentos têm poucos consensos, em geral são: 1) Algo nos incomoda (geralmente o que incomoda são coisas distintas); 2) Identificamos um inimigo comum; 3) Queremos ser ouvidos; 4) Estamos dispostos a radicalizar.

O título do livro e alguns estudos sobre os protestos de junho de 2013 indicam que essas manifestações não acabaram, mas se transformaram. Se transformaram em quê?
No livro, afirmo que junho vai se repetir (está se repetindo), mas é claro que não da mesma forma que em 2013. Ali, foi a estreia, e atores de matizes ideológicas opostas foram para as ruas, não exatamente juntos, mas disputando a hegemonia do movimento, que foi da esquerda no começo e no fim, e da direita no meio (exatamente quando os protestos foram maiores). Não creio que estes atores voltarão para as ruas juntos, mas desde 2013 têm organizado eventos com características parecidas, cada um dos seu lado. Exemplo: os grandes protestos pelo impeachment, pela direita, e as ações contra o fim do Ministério da Cultura pelo governo Temer, pela esquerda. Mas há algo que todos os jovens disseram, de forma imatura às vezes, de forma autoritária eventualmente: queremos ser ouvidos. O exemplo da França mostra como uma das respostas seria abrir o sistema, como fez Macron com o Grande Debate Nacional. No Brasil, tentaram blindar o sistema, tentaram diminuir o espaço de debate. Não funcionou. Se o sistema não oferece espaço de diálogo, não se torna mais permeável, o radicalismo continua e as saídas autoritárias parecem, para muitos, o único caminho. Junho não é responsável por Bolsonaro, mas Bolsonaro é um capitulo da história que começou ali.

SERVIÇO
Lançamento do livro “Outros Junhos Virão: Protestos Organizados em Rede e as Democracias Radicalizadas”.
Dia 27 de junho, às 19h.
Local: Mímesis Conexões Artísticas (Rua Celestino Junior, 189, São Francisco, Curitiba)




Cristiano Castilho

Cristiano Castilho é jornalista formado pela UFPR e pós-graduado em Jornalismo Literário pela ABJL. É autor do livro "Crônicas da Cidade Inventada e Outras Pequenas Histórias" (Arte & Letra).

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