Primeiro disco de Diego Perin conecta quem achou estar só perante o absurdo

“Cuidado ao Ficar Muito à Vontade”. É este o providencial título do primeiro álbum de Diego Perin, ex-baixista da Banda Gentileza. Lançado no dia 28 de junho, sucede o EP “Cabresto” (2018). O disco une de forma inequívoca a ironia quase distópica de nossos tempos a mensagens potencialmente otimistas sobre com ser um bom humano neste início de século, marcado por fé cega, narcisismo tóxico e falta de posição assertiva no mundo. O show de lançamento acontece neste sábado (6), a partir das 5 da tarde, em local secreto, revelado após a compra do ingresso (à venda aqui).

Diego entrega com grooves tudo o que tem, nas ideias, nos princípios e em suas guerras particulares. Com influências musicais de Beatles, rock dos anos 90, Zé Ramalho e do próprio suingue urbano da Banda Gentileza, nos oferece sua visão de mundo, compartilhada naturalmente por quem quase enlouqueceu ou duvidou de si mesmo nestes últimos anos, nestes tristes trópicos.

Foto: Nicolas Salazar

São vários os momentos e as cenas de “Cuidado ao Ficar Tão à Vontade”, um disco também cinematográfico. “O Que é Que Falta” abre o álbum exibindo um riff de guitarra que ecoaria de alguma banda do início dos anos 2000 numa Quarta Rock dos bons tempos. Se os versos são um quase diário de alguém inconformado, mas consciente, o refrão é uma indagação em busca, enfim, do equilíbrio coletivo, não individualista: “o que é que falta em nós?/ o que é que sobre em nós?”

“Não Vou Buzinar”, a terceira faixa, é uma crônica ensolarada sobre os absurdos cotidianos com os quais tememos nos acostumar. Neste caso, sobre aquele pulha que buzina depois de dois segundos de sinal fechado. “Você também se sente perdido neste mundo?”, canta Diego, aproximando seus pares, neste disco que também é uma espécie de ímã para quem está atento e ainda humano.

“Heróis” é coisa séria e dialoga de forma impressionante com as certezas convertidas e o mito do herói moderno, e talvez bem brasileiro. Aquele que sufraga sua missão suposta e perigosamente messiânica ao atropelar tudo e todos com as bençãos de quem acredita que o outro, por pensar diferente, é o capeta em pessoa. A música é soturna, e dilui-se em sua própria efemeridade, não por acaso.

A emocionante “Treta” é uma bandeira branca em forma de música a amigos e amores antes infinitos que sucumbiram à distopia vigente. Feridas expostas, cicatrizes de quem perdeu a referência e o coração em grupos de whatsapp? Diego, buena onda, acha que a escolha pela ignorância e alienação é, na verdade, uma baita de uma bad trip.

“Walstreet” segue a jornada irônica, mas nunca vazia, deste disco. É sobre aqueles que subverteram sua identidade ao que é finito. Neste caso, uma SUV prateada que fura o sinal. Zé Ramalho é influência explícita num pop country que descola símbolos da jacuzice e da arrogância para levá-los a um lugar musicalmente divertido.

Nesta jornada de exposição, diálogo, perguntas e incertezas, Diego Perin está acompanhado de Douglas Vicente (bateria), Ruan de Castro (baixo), Vinicius Nisi (teclados e sintetizadores), Rodrigo Lemos (guitarra), também produtor do álbum. Há participações de Valderval Oliveira (timbales), Vitor Salmazzo (percussão), Leandro Dalmonico (viola), Bernardo Stumpf e Thiago Ramalho (voz).

“Cuidado ao Ficar Muito à Vontade” é um disco importante porque serve como documento histórico subjetivo para um período que ainda desafia a compreensão. E como suporte musical para quem achava estar sozinho no meio do mundo.

Cristiano Castilho

Cristiano Castilho é jornalista formado pela UFPR e pós-graduado em Jornalismo Literário pela ABJL. É autor do livro "Crônicas da Cidade Inventada e Outras Pequenas Histórias" (Arte & Letra).

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