Os “degenerados”

De acordo com o dicionário, degenerado é uma pessoa “que deixou de possuir as características particulares de sua espécie”. Outra interpretação pode ser também de um indíviduo “decadente”. Através de uma perspectiva irônica sobre isso, a francesa Chloé Cruchaudet realiza a HQ “Degenerado”. A obra, fruto de uma história real, trabalha de uma perspectiva do olhar da sociedade para um homem que começa a se vestir de mulher – visto como um “degenerado”. Contudo, os porquês disso são detalhados dentro do quadrinho.

E essa trama se inicia logo que Paul retorna da Primeira Guerra Mundial. Ele havia defendido as bandeiras da França, contudo acaba por desertar do ambiente devido a todos os traumas que sofreu, incluindo a perda de diversos amigos próximos. Retomando a vida de casado com a esposa Louise, ele adota uma maneira de conseguir sair na rua sem ser notado: se vestindo de mulher. Isso, porém, acaba confundindo Paul sobre até que ponto iria seu lado masculino e feminino.

Cruchaudet não tem medo de trabalhar sua narrativa sob pontos de vistas complexos. Isso incluíndo toda a relação que passa de um grande amor entre o casal para algo abusivo. A sensação de poder a qual o protagonista ganha se tornando uma “figura feminina” gera contornos mais do que apenas da natureza de gênero. Ele ganha uma imposição que não tinha antes, especialmente no senso de pertencer. Assim, é um espaço aberto também para debate sobre liberdade sexual – que ganharia mais força mundialmente nos anos 1960.

A narrativa, para dar conta desses elementos, caminha de uma forma que obstrui os momentos mais enérgicos, especialmente em discussões do casal, para dar um contexto mais forte aos olhares sobre padrões e gêneros. Por exemplo, em uma cena que vemos Paul saindo na rua travestido, Chloé usa planos muito mais abertos e coloridos, dando destaque a como o próprio personagem se observa (uma espécie de realeza). Contudo, nas situações mais soturnas, a autora adota tracejos mais contidos, sem detalhar muito os quartos, abrindo muito mais destaque para os diálogos.

“Degenerado” também explora bastante o papel que uma sociedade construída no início do século XX tem. Vemos diversas piadas machistas sendo feitas, por exemplo, incluíndo comportamentos dos protagonistas por si só. A cena que abrange toda a história, a qual se concentra em um tribunal, é, do mesmo modo, abordada sob um ótica da construção dessa sociedade em alguns estigmas que vão se perpetuando ao longo do tempo.

Graças que isso vem mudando de pouco em pouco. Pode não ser uma mudança abrupta, entretanto é importante fazer um espelho com acontecimentos da HQ para o mundo contemporâneo. Chloé Cruchaudet entende muito bem isso ao realizar um quadrinho real, e não apenas da perspectiva de acontecimentos, mas também de um mundo complexo.

Claudio Gabriel

Apaixonado por cultura pop no geral. Repórter da rádio CBN e editor-chefe do site Senta Aí.

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