Livro estuda o “fluxo de impermanências” no Baixo São Francisco

Inferninho boêmio curitibano revisitado e rediscutido durante a última década, parte do centro histórico de Curitiba e todas as suas idiossincrasias são tema de um livro tão esclarecedor quanto questionador. “Baixo São Francisco – Impulsos de Uma (Re)ocupação Urbana”, da cientista social Selma Baptista, oferece uma narrativa antropológica e histórica para explicar o que ela, acertadamente, chama de “fluxo de impermanências” daquele palco a céu aberto que já viu manifestações culturais, polêmicas, tensões históricas, violência e higienismo.

Rua São Francisco. Foto: Shigueo Murakami.

O Baixo São Francisco engloba ruas como Treze de Maio, Riachuelo, Presidente Carlos Cavalcanti, São Francisco, Barão do Cerro Azul, Trajano Reis e outras que datam do princípio do povoamento da capital. Em tom ora de crônica etnográfica, ora de ensaio, Selma discute desde o Baixo da metade do século 19, quando Curitiba tinha 3 mil habitantes e seu limite era a atual Rua das Flores; até eventos recentes como o fechamento do Bar Bodeguita (Rua Inácio Lustosa). Selma recupera a mensagem de despedida do estabelecimento. “Resistir, muitas vezes, é deixar fluir. Acreditamos também que cumprimos nosso papel como agentes da resistência cultural numa cidade que, a cada dia, mostra sua face mais reacionária, machista e fascista: a face lustrosa de uma elite ignorante que se incomodou com nossas ocupações, com a arte e com a alegria contagiante de nossos clientes. Eles não admitem sorrisos gratuitos!” O ano era 2018.

Fotos de arquivo (de Haraton Maravalhas e Cid Destefani) e atuais, de Shigueo Murakami, dialogam saborosamente com recortes históricos aprofundados sobre importantes episódios socioculturais curitibanos. Selma relembra, por exemplo, o quiprocó para a construção da Igreja de São Francisco de Paula, no “alto do morro” – em oposição ao “baixo” São Francisco. O projeto foi abandonado e a capela-mor foi destruída em 1915 – dando origem às “Ruínas de São Francisco”. Os clubes de jazz da década de 50, e a música como fio condutor da vida social daquela região também são destaque.

Bares que marcaram época como o Wonka (2005-2016), na Rua Trajano Reis, têm quase uma biografia própria na obra de Selma. “Os happenings do Wonka, observados em retrospectiva, tornam-se muito reveladores deste locus cultural que o bar criou, como um nicho identitário de marcas profundas e indeléveis”, escreve a autora. A influência de outros estabelecimentos, como O Torto Bar, o Camaleão Cultural, o Bar do Fogo, o Jokers, o Villa Bambu e o Purple Reis também é apresentada sob uma análise rara, que mistura relatos, poesia, filosofia, história e antropologia.

Rua São Francisco. Foto: Shigueo Murakami.

Área de preservação histórica, o Baixo São Francisco recentemente foi o centro de polêmicas relativas à ocupação do espaço público, e aos hábitos de consumo de quem o frequenta versus a ação da municipalidade e da polícia. “O Baixo São Francisco vem sendo alvo de contínuas propostas de revitalização, sem muito êxito. Queríamos compreender a razão destes desencontros de projetos diante de uma realidade pouco analisada até então”, diz Selma Baptista, em entrevista por e-mail.

Ao longo do livro, de edição ágil e quase interativa, percebemos que a história e a tradição de ocupação do Baixo São Francisco é problemática. “Será que ‘o Baixo’ é ‘baixo’ em função de sua topografia, no caso, uma toponímia, ou seria este adjetivo uma metáfora derivada de um valor moral, tendo o ‘alto’ como local de distinção dos mais ricos e o ‘baixo’ como desvalorização dos populares de baixa renda?”, questiona a autora, pós-doutora em Antropologia pela USP e professora aposentada da UFPR.

Segundo Selma, a prefeitura tem planos para uma região “de patrimônio”, o que, por consequência, atrai um turismo mais elitizado. E este projeto dá de encontro com a ocupação mais espontânea, “natural”, da região, pelas classes mais populares. “A fronteira entre o permissível, o desejável e o real se confrontam facilmente diante de códigos díspares”.

Um dos temas mais recentes e relevantes tratados no livro “Baixo São Francisco” é a gentrificação, algo que “existe na realidade” segundo a autora. “A dinâmica desse ‘centrinho’ é buscar, de maneira natural, quase inconsciente por parte de donos de estabelecimentos e consumidores, um certo equilíbrio, que ora tende a aceitar certas imposições e solicitações da municipalidade para ‘limpar’ a área, e ora abrem suas portas e fecham seus olhos para certas práticas no intuito de manterem seu movimento. Aí reside este movimento quase inapreensível que o livro busca sugerir”, explica Selma.

Centro histórico de Curitiba. Foto: Shigueo Murakami.

Com a pandemia e as restrições impostas a bares e restaurantes, o Baixo São Francisco esfriou, embora ainda seja percebido algum movimento nas ruas, principalmente na Trajano Reis, espécie de espinha dorsal da boemia da região. “Sinto uma certa melancolia ao imaginar que nada será como antes. Mas a vida sempre se renova. Há que se esperar”, diz a antropóloga.

Filme
Parte integrante do projeto “Baixo São Francisco: Impulsos de Uma (Re)ocupação Urbana” é o filme “Hip Hop no Corre no Baixo”, de Jessica Candal – assista abaixo. A cineasta dirigiu o documentário que também trata do ethos particular da região a partir do cotidiano de Mano Jhow e KBU, rappers cativos do bairro, que transitam pela cena hip hop de Curitiba. Jessica Candal é bacharela em audiovisual pela ECA-USP e escreveu, com Aly Muritiba, o roteiro do longa-metragem “Ferrugem” (2018).

Baixo São Francisco: Impulsos de Uma (Re)ocupação Urbana” tem incentivo da Caixa Econômica Federal, Fundação Cultural de Curitiba e Prefeitura de Curitiba.

No site oficial do projeto, é possível baixar o livro gratuitamente.

Cristiano Castilho

Cristiano Castilho é jornalista formado pela UFPR e pós-graduado em Jornalismo Literário pela ABJL. É autor do livro "Crônicas da Cidade Inventada e Outras Pequenas Histórias" (Arte & Letra).

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Voltar ao topo