Histórias de uma Curitiba Plural

It’s a béatch

Ludwig Berzelius Karma, guarda de trânsito em Liechtenstein, homem pacato, sem quaisquer ambições, avesso às menores controvérsias, conhecido na repartição pela timidez e pela sobriedade, cuja vida teria passado inteiramente despercebida se, naquela manhã de 1957, não tivesse multado Johannes Brichta Von Trompowski, figurão local que, em desobediência à placa indicativa de retorno obrigatório na rua sem saída, seguiu por cima da calçada até chegar à transversal.
O Guarda Karma, cioso de seus deveres, anotou a placa do transgressor no seu bloquinho de multas e a encaminhou ao Departamento de Trânsito para a adoção das medidas pertinentes.
Trompowski, ao receber a comunicação por correio, reagiu com a indignação das bestas, descobriu o nome do funcionário responsável pela lavratura da multa, foi até a sua casa e rachou-lhe a cabeça com um murro.
Mesmo os fleumáticos às vezes fervem: abandonando pela primeira vez na vida a sua natural impassibilidade, o guarda Karma reaprumou-se, limpou o sangue que lhe escorria pelas ventas e disse:

– A lei do retorno obrigatório nas ruas sem saída se aplica a todos, seu pulha, nem mesmo um cu de rato como você está acima dela

Então o guarda Karma devolveu o trompaço nas fuças do cidadão e o deixou desacordado por três dias.

***

Depois desse episódio, a Lei do Retorno ficou conhecida como Lei do Guarda Karma e, com o passar do tempo e o apagamento gradual de todas as coisas, apenas como Lei do Karma.

Maurício Popija

O inventor do pas de deux solo. Nas horas vagas, cultiva pequenas plantas e desafetos.

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