Filme reconta o genocídio de povo amazônico durante a ditadura militar

Um curta-metragem de 27 minutos, disponível na plataforma MUBI (especializada em cinema independente e de arte), dá conta de explicar, sem muitas palavras, mas com belas imagens e uma ótima trilha sonora original de Guilherme Vaz, o genocídio praticado pelo exército brasileiro contra o povo Waimiri-Atroari, entre os anos de 1966 1977.

“Apiyemiyekî?” é o nome do filme. A expressão que significa “por quê?” na língua kinja iara. Muito comentado no último Festival de Berlim, o curta de Ana Vaz retoma com precisão poética os efeitos da construção da BR-174 (Manaus-Boa Vista), obra que começou durante a ditadura militar brasileira e terminou somente em 1998, no governo Fernando Henrique Cardoso.

Os Waimiri-Atroari são tradicionais da Amazônia, e seus povoados se localizam entre o norte do estado do Amazonas e o sul de Roraima. Durante muito tempo, este povo originário esteve presente no imaginário do resto do país como “guerreiro” e “violento”. A imagem contribuiu para que as autoridades governamentais da época (final dos anos 60), transferissem as responsabilidades das obras aos militares. A rodovia foi planejada para cortar a reserva ao meio, em direção ao norte.

O resultado foi um extermínio quase que geral. Segundo documentos da Comissão Nacional da Verdade, no anexo “Violações dos Direitos Humanos dos Povos Indígenas”, 2.500 pessoas pertencentes a tribos dos waimiri foram assassinadas. E de diversas maneiras: aos tiros, à pancadas, atirados ao fogo, com o uso de uma espécie de napalm (o ataque vinha de aviões) e por meio de substâncias químicas que “queimavam a garganta por dentro”. O “por quê” do título, assim, faz muito sentido.

Todas essas memórias, no filme, são reveladas pelos próprios waimiri por meio de desenhos. As imagens, estranhamente bonitas e coloridas, mas terrivelmente chocantes, datam dos anos 1980, quando os missionários Egydio e Doroty Schwade implementaram na etnia o método de alfabetização de Paulo Freire. Ana Vaz costura tudo isso com sobreposição de imagens da própria aldeia, da estrada em questão e de áudios de danças e músicas típicas.

Após ser denunciado internacionalmente, o Governo Federal, pressionado pelas instituições financiadoras da hidrelétrica de Balbina, outra tragédia para o povo originário, foi obrigado a criar medidas compensatórias. Uma delas foi a implementação, em 1988, do Programa Waimiri-Atroari, que oferece serviços, infraestrutura e assistências diversas aos povoados.

Em 1987, após o genocídio, eram 374 os waimiri. Em 2007, 232. Em 2011, quando foi realizado o último levantamento, o número era de 1515. A BR-174 é fechada diariamente no trecho que corta a reserva indígena, entre as 18h30 e as 6h do dia seguinte.

Cristiano Castilho

Cristiano Castilho é jornalista formado pela UFPR e pós-graduado em Jornalismo Literário pela ABJL. É autor do livro "Crônicas da Cidade Inventada e Outras Pequenas Histórias" (Arte & Letra).

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