Romantismo e autocomiseração estragam “Democracia em Vertigem”

Gostaria de ter estreado o blog nesta nova casa antes, falando sobre o documentário “Banquete Coutinho”, de Josafá Veloso. O filme exibido no dia 5 de junho abriu o Festival Internacional Olhar de Cinema deste ano. Mas o tempo foi curto e o acaso quase sempre tem um recado. Por isso, foi providencial a estreia na Netflix do filme “Democracia em Vertigem”, de Petra Costa. Em ambos os casos, já existia uma tese previamente estabelecida para nos apresentar o “tema”: a vida e a obra do maior documentarista do país; e o momento desafiador da democracia brasileira pós-PT.

Quando já se tem uma premissa antes da investigação (jornalística, documental, cinematográfica) o resultado é quase sempre desalentador, artificial e de pouca contribuição para o debate e para o diálogo, já que reafirma suas próprias opiniões a qualquer custo. É como o jornalista que sai da redação com uma pauta pré-definida e fecha olhos e ouvidos para o mundo ao tentar prová-la.

Obviamente é melhor ter “Banquete Coutinho” à disposição do que não tê-lo. O documentário parte da tese de que Coutinho fazia sempre o mesmo filme, e se aproveita de uma das poucas longas entrevistas que o cineasta de “Cabra Marcado Para Morrer” concedeu em vida. Josafá Veloso alterna uma espécie de “melhores momentos” da obra de Coutinho com reflexões filosóficas de ambos, como se quisesse justificar as cenas escolhidas. Coutinho previsivelmente assume uma persona na entrevista, e os melhores momentos são quando o vemos conscientemente distanciado de sua obra (e neste caso da tese de Josafá): cantando, explicando porque fuma, sorrindo. Coutinho foi quem deslocou o sentido do ato de entrevistar, com ênfase em paciência, pesquisa, entrega e silêncio. Por isso tenho a certeza de que nenhum de seus filmes surgiu a partir de uma tese. Foram encontros e acasos em comunhão com um olhar atento e incômodo sobre o mundo, particularmente sobre o Brasil. Novamente, é melhor ter “Banquete Coutinho” à disposição do que não tê-lo. Mas é um filme mal aproveitado, que soa arrogante e pretensioso mesmo que o intuito seja a homenagem.

A admiração e a proximidade à prova de questionamentos, quase promíscua, também é o ponto fraco de “Democracia em Vertigem”. O filme tem um olhar ultrarromântico sobre os governos de Lula e Dilma. Como o bizarro “documentário” “1964- O Brasil entre Armas e Livros”, lançado em março, a obra fala para os convertidos, embora com mais elegância e sensibilidade.

A tese simplista e demasiadamente engajada apresentada por Petra (que ao longo do filme cansa com sua narração chorosa em off), é a de que a democracia no Brasil começou a ruir, ou a entrar em vertigem, desde o impeachment de Dilma. Desde o fim do governo PT. Como apontou o amigo e poeta Rubens Akira Kuana, “não há absolutamente nada sobre Belo Monte e o genocídio indígena. Com a exceção de Eduardo Cunha, nadica de nada sobre o espaço e o poder que o PT concedeu aos evangélicos. Nada sobre criminalização dos protestos e leis antiterroristas. Nada sobre o apagão no trabalho de base do PT. Nada sobre o projeto de ‘conciliação de classes’ que Lula iniciou. Nada sobre a despolitização das pessoas. Nada sobre a bagunça que foi a campanha de Haddad ano passado. Nada. Bolsonaro simplesmente brotou dos porões da ditadura, foi direto para a votação do impeachment e depois para o Palácio do Planalto.”

Em “Democracia em Vertigem” há bastante espaço dedicado às reais transformações sociais dos governos Dilma e Lula (Bolsa Família, cotas e o aumento de universidades públicas). Há imagens de Lula e Dilma em momentos descontraídos, os bastidores do impeachment, os momentos que antecederam a prisão de Lula, e áudios e entrevistas de um jogo sujo que confirmam o golpe de 2016. Mas que, para qualquer brasileiro de bom senso e minimamente informado, servem mais para reavivar um senso de injustiça judicial do que como entendimento do porquê estarmos numa vertigem democrática.

Como não poderia deixar de ser, há uma enxurrada de imagens e declarações violentas e antidemocráticas de manifestantes de direita. É um novo soco no estômago, mas dessa vez gratuito. A certa altura do filme, as alianças firmadas são descritas, numa imagem de alto poder semiótico na posse de Dilma, e numa declaração de Lula, como os principais erros do PT. “Se Jesus viesse ao Brasil teria que fazer alianças até com Judas.”

Petra Costa é filha de Marília Andrade, herdeira da gigantesca construtora Andrade Gutierrez, investigada pela Operação Lava Jato. É interessante notar como a cineasta aborda essa relação com certo distanciamento, mea-culpa retroativa e bom senso. Justamente o que lhe faltou ao construir a frágil narrativa de seu documentário. “Democracia em Vertigem” identifica o PT como sinônimo de esquerda possível e lamenta que o fim da democracia esteja próximo por falhas que ela mesma não soube, ou não teve coragem de explicar.

Entre outras tantas guerras (semânticas, virtuais, de empoderamento), vivemos uma guerra de narrativas. Por isso, e talvez só por isso, é melhor ter “Democracia em Vertigem” à disposição do que não tê-lo.

2 comentários sobre “Romantismo e autocomiseração estragam “Democracia em Vertigem”

  1. Cris, a declaração sobre Jesus e Judas é da Dilma e no filme a diretora diz isso. Achei que você foi um pouco duro com a Petra no geral, mas entendo a reclamação. Pra mim o ponto mais grave de todos é o momento em que ela diz que Dilma deixou correr as investigações e que isso a derrubou. Ali ela perdeu totalmente a mão. Faltou muita coisa, mas tem o mérito de estar numa plataforma onde certamente atingirá um numero muito grande de pessoas. Só não dará nenhum Oscar ao Brasil, como andaram falando ai. haha abraço!

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