Festival reúne mais de 100 artistas em 12 horas de programação ao vivo

Cada vez mais, neste período de desafios e imposições de novas realidades, temos a certeza de que a cultura é uma atividade essencial. Principalmente para manter a sanidade, a esperança e a perspectiva de que algo bom possa sair deste lugar em que estamos metidos. O setor cultural foi o primeiro a fechar, e possivelmente será o último a abrir. Enquanto isso, artistas de diversas áreas se viram para manter seus trabalhos na ativa e também sua renda, que míngua a cada dia de isolamento social e à medida que planos de auxílio financeiro não saem do papel. Mas o encontro e a arte resistem, como tem de ser.

Karol Conka se apresenta às 19h45. Foto: Carlos Salles

Artistas do Paraná se uniram para a primeira edição do Contratempo Festival, evento online com mais de 100 ações ao vivo durante 12 horas consecutivas. As transmissões serão entre as 9 da manhã e as 9 da noite de amanhã, terça-feira (23), no canal do Instagram dos artistas. Karol Conka, Alexandre Nero, Fabíula Nascimento, A Banda Mais Bonita da Cidade, Ave Lola, Baque Mulher, Mandicuera, Mulamba, Cia dos Palhaços, Letícia Sabatella, Janine Mathias são alguns dos artistas participantes (veja programação completa abaixo).

O Contratempo também é um manifesto, dizem os organizadores. Ao contrário de outros estados, que logo no início da pandemia publicaram editais de auxílio emergencial ao setor, o Governo do Paraná segue sem ações efetivas. O tímido pacote de medidas de “apoio e fortalecimento do setor cultural”, anunciado para maio, ainda não aconteceu.

Live de Alexandre Nero é às 18h. Foto: Divulgação.

A Coragem – Rede de Profissionais da Música de Curitiba, articuladora do Contratempo Festival, ressalta que a classe artística rapidamente atendeu as determinações da OMS e segue apoiando a permanência do fechamento dos espaços culturais, por entender que o isolamento social é fundamental para atravessar este momento. Porém, diante da impossibilidade de continuar exercendo suas atividades profissionais, o setor necessita de medidas compatíveis com a situação emergencial que atinge todos os trabalhadores paranaenses da cultura. O Coletivo também participa de conversas com a prefeitura de Curitiba, com um grupo de trabalho criado para encaminhar ações concretas de apoio.

:: CONTRATEMPO FESTIVAL – PROGRAMAÇÃO

09h às 10h

09h às 09h15- Leticia Sabatella/

09h15 às 09h30- Bia Figueiredo/Parabolé

09h30 às 09h45- Fotofolia/Iria Braga

09h45 às 10h- Katiuscia Canoro/Itaercio Rocha

:: 10h às 11h

10h às 10h15- Baque Mulher/Mano a Mano Trio

10h15 às 10h30- Maureen Miranda e Necos Yaros/Pé no Palco

10h30 às 10h45- Adri Menegale/Cia Portátil

10h45 às 11h- Grupo Fato/ Leonardo Cruz e Laremi Paixão

:: 11h às 12h

11h às 11h15- Cia Brasileira de Teatro/Diego Perin

11h15 às 11h30- Aminoácido/Jossane Ferraz

11h30 às 11h45- Léo Fressato/Luis Mello

11h45 às 12h- Rogeria Holtz/Rubyhoo

:: 12h às 13h

12h às 12h15- Raissa Fayet/Abacate Contemporaneo

12h15 às 12h30- Amanda Lyra/Partigianos

12h30 às 12h45-Conde Baltazar/O Tiziu

12h45 às 13h- Rimon Guimarães/Francisco Mallmann

:: 13h às 14h

13h às 13h15- Antropofocus/Bea Gerolin

13h15 às 13h30- Cultucada/Davi Henn

13h30 às 13h45- A banda mais bonita da cidade/ Um baile bom

13h45 às 14h- Dow Raiz/Mahallo


:: 14h às 15h

14h às 14h15- Fabiula Nascimento/Tuyo

14h15 às 14h30- Ave Lola/Bernardo Bravo

14h30 às 14h45- Festival Saliva/Juliana Cortes

14h45 às 15h- Londrina Ska Clube/Marcel Szymanski


:: 15h às 16h

15h às 15h15- Leandro Daniel/Caburé Canela

15h15 às 15h30- De ym filho, de um cego/

15h30 às 15h45- Chico Paes/Marcio Juliano Outro Samba

15h45 às 16h- Súbita/Casa do Suingue


:: 16h às 17h

16h às 16h15-Ethnya/Raquel Bombieri

16h15 às 16h30- Hause of X/Murillo Mongelo

16h30 às 16h45- Saulo Soul/

16h45 às 17h- Sofar Curitiba/Kendri Albuquerque

:: 17h às 18h

17h às 17h15- Gal Freire/Esperanza

17h15 às 17h30- Renara Melão/Vigor Mortis

17h30 às 17h45- Central Sistema de Som/Trupe da Periferia

17h45 as 18h- Goat Fest/Siamese

:: 18h às 19h

18h às 18h15- Alexandre Nero/Slam das Gurias

18h15 às 18h30- Familia Estranha/Obragem

18h30 às 18h45- Juana Profunda/Rubia Divino

18h45 às 19h- Janine Mathias/Babi Oeiras

:: 19h às 20h

19h às 19h15- Curitiba Jazz Festival/Cia Senhas

19h15 às 19h30- Mulamba/Cia dos Palhaços

19h30 às 19h45- Ricardo Pozzo/Roseane Santos

19h45 às 20h- Karol Conka/Selvátiva

:: 20h às 21h

20h às 20h15- Estrela Leminski e Teo Ruiz/Bloco Afropretinhosidade

20h15 às 20h30- Cia Stavis Damaceno/Mandicuera

20h30 às 20h45- Dalvinha Brandão/Mano Cappu

20h45 às 21h- Miss G/MUV

:: SERVIÇO

Contratempo Festival

data: 23 de junho, terça-feira.

horário: 9h às 21h

evento: https://www.facebook.com/events/662667810955583/

Festival de Curitiba será gratuito e a céu aberto; Emicida está confirmado

Previsto para acontecer entre 24 de março e 5 de abril deste ano, o Festival de Curitiba anunciou o adiamento da 29ª edição do evento a 12 dias da abertura. A decisão se mostrou acertada, conforme o avanço da pandemia no Brasil e em Curitiba.

Hoje, a organização do evento, um dos maiores das artes cênicas nacionais e internacionais, informou novas alterações em seu formato e programação, “entendendo esse momento único pelo qual todos passamos e vivemos, em observando a crítica condição econômica de diversos setores e, numa situação muito próxima a nós, a dos profissionais das artes – em especial os profissionais da nossa cidade”.

Emicida abre a edição 2020

O Festival de Curitiba acontece entre os dias 17 e 27 de setembro deste ano, de forma gratuita, em 12 espaços abertos da cidade, observando sempre as recomendações das autoridades competentes e o embasamento técnico/ científico “que podem, ainda, orientar a possibilidade de uma nova data”.

A organização do evento informa ainda que, neste ano, vai contratar exclusivamente profissionais e atrações de Curitiba, com a intenção de incentivar e apoiar financeiramente a atividade profissional local. E que o show do rapper Emicida está programado para a abertura do Festival, e será a única atração não local entre as 120 previstas. A programação completa será divulgada nos próximos dias.

A quem já adquiriu os ingressos, há três opções:

– Destinar total ou parcialmente o valor investido na aquisição dos bilhetes para a remuneração dos artistas e profissionais que trabalharão nessa edição especial do Festival. A integralidade do valor doado por você será alocada para o pagamento de cachês;

– Manter o valor investido para adquirir os ingressos da edição 2020 para a edição 2021 do Festival de Curitiba. O nosso compromisso é de não alterar o valor unitário de ingressos para a próxima edição. Portanto, o crédito financeiro poderá ser trocado em 2021 pela mesma quantidade de ingressos comprados para a edição que estava prevista para acontecer em março/abril de 2020. Quando anunciarmos a programação da edição de 2021, caso você não encontre um espetáculo a que queira assistir, os valores podem ser ressarcidos em dinheiro até a data de início da edição 2021 (a ser definida).

– Ser restituído integralmente do valor aportado na compra de ingressos. Nesse caso, a previsão de restituição é de até 31/12/2021, conforme prevê a legislação emergencial que versa sobre o tema, a Medida Provisória 948.

“Após bastante refletir, estamos seguros de que alternativa escolhida é a correta. Queremos realizar uma edição em que vamos celebrar com o público e com a cidade a retomada, o encontro e a alegria”, diz o comunicado.

Festival de cinema francês online e gratuito amplia catálogo

O Festival Varilux de Cinema, que anualmente apresenta produções recentes do cinema francês em diversas cidades do país, acontece de forma virtual e gratuita há um mês. A plataforma Looke disponibilizou uma série de filmes do tradicional circuito, e os números estão sendo comemorados pelos organizadores: até o dia 18 de maio, quase 500 mil usuários acessaram à página do festival online e 250 mil visualizações foram contabilizadas.

Cena de “Luta de Classes”, de Michel Leclerc

Quinze novos títulos foram incluídos no catálogo nesta semana. Entre eles, “O Ignorante”, de Paul Vecchiali com Catherine Deneuve; “As Falsas Confidências”, com Isabelle Huppert; “Marguerite”, com Catherine Frot; “Quem me ama me Segue”, com Daniel Auteuil; “Meu Rei”, com Vincent Cassel, Emmanuelle Bercot e Louis Garrel; e “Party Girl”, vencedor do Prêmio Camera d´Or no Festival de Cannes. Também vale a pena dar uma chance a “Marvin”, da diretora Anne Fontaine, e “Normandia Nua”, com François Cluzet e Toby Jones. Todos os filmes têm legenda em português.

O Festival Varilux em Casa segue até o dia 27 de agosto. Para acessar a seleção, basta acessar festivalvariluxemcasa.com.br  e  fazer um cadastro simples. A iniciativa é da produtora Bonfilm com patrocínio da Embaixada da França e da Essilor/Varilux.

Canal Brasil exibe “Em Chamas” e outros destaques de Cannes

O Festival de Cinema de Cannes deste ano foi cancelado devido à pandemia de coronavírus, mas alguns ótimos filmes nacionais e estrangeiros de edições anteriores podem ser assistidos no Canal Brasil entre os dias 8 e 24 de maio.

Serão nove longas-metragens, exibidos sempre sextas, sábados e domingos às 23h10. O destaque é “Em Chamas”, filmaço do diretor e roteirista Lee Chang-dong. Baseado no conto “Barn Burning”, de Haruki Murakami e também numa obra de mesmo nome do escritor William Faulkner, “Em Chamas” é um longo (2h30) suspense asfixiante, e também um estudo de personagem.

Durante um dia normal de trabalho como entregador, Jong-soo (Yoo Ah-In) reencontra Hae-mi (Jeon Jong-seo), uma antiga amiga que vivia no mesmo bairro que ele. A jovem está com uma viagem marcada para o exterior e pede para Jong-soo cuidar de seu gato de estimação enquanto está longe. Hae-mi volta para casa na companhia de Ben (Steven Yeun), um jovem misterioso que conheceu na África. No entanto, o forasteiro tem um hobby peculiar, que está prestes a ser revelado aos amigos.

Longos planos-sequência, com luz natural e câmera na mão, nos remetem a ótimos filmes realistas, com cenas de sexo e tensão pulsantes e uma trilha sonora competente. “Em Chamas” discute política (a tensão invisível com a Coreia do Norte, as decisões de Trump transmitidas na televisão) e também nossa disposição (mais resiliente nos últimos tempos) em defender alguma espécie de crime, por um “bem maior”. O filme sul-coreano venceu o prêmio FIPRESCI e de Melhor Direção de Arte, e foi indicado à Palma de Ouro no Festival de Cannes de 2019. Memorável.

Outro destaque é “A Vida Invisível”, de Karim Aïnouz, coprodução do Canal Brasil, que venceu a mostra “Um Certo Olhar”, também na edição do ano passado. O francês “Dois Dias, Uma Noite”, de Jean-Pierre Dardenne e Luc Dardenne, que estreia por aqui no dia 15, foi indicado ao Oscar de melhor atriz e à Palma de Ouro. O alemão “Em Pedaços”, drama de Fatih Akın, chega ao Canal Brasil dia 22 depois de levar o prêmio de melhor atriz pela interpretação de Diane Kruger e foi indicado à Palma de Ouro no festival francês.

A programação traz ainda obras que cruzaram o tapete vermelho do Palais des Festival na Riviera Francesa. Filmes como “Gabriel e a Montanha”, “Aquarius”, “Diamantino”, “Carandiru” “Eu Tu Eles” também compõem a mostra.

Mostra Festival de Cannes

De 8 a 24 de maio (sextas, sábados e domingos), às 23h10

Sexta, 8/05 – “EM CHAMAS”

Sábado, 9/05 – “GABRIEL E A MONTANHA”

Domingo, 10/05 – “AQUARIUS”

Sexta, 15/05 – “DOIS DIAS, UMA NOITE”

Sábado, 16/05 – “DIAMANTINO”

Domingo, 17/05 – “CARANDIRU”

Sexta, 22/05 – “EM PEDAÇOS”

Sábado, 23/05 – “EU, TU, ELES”

Domingo, 24/05 – “A VIDA INVISÍVEL”

“É tempo de dançar pra frente”: ouça “Incendeia”, novo single da banda Ímã

O coletivo curitibano Ímã continua a divulgar as músicas que farão parte do primeiro disco da turma, previsto para 20 de abril. Depois de “Memória do Chão” e “Mangueador” (esta com participação de Cacau de Sá, da Mulamba), a banda lançou nesta segunda-feira (13), a música e o clipe de “Incendeia”, faixa mais quente e agregadora até agora.

Foto: Tárcilo Pereira.
O clipe colaborativo foi gravado à distância e tem participação de amigos e fãs da banda, e também das cantoras Roseane Santos e da argentina Soema Montenegro. A faixa é um samba reggae com pegada latina, devido à participação da percussionista Matê Magnabosco. Elementos bem brasileiros, como o violão de 7 cordas, unem-se a efeitos de guitarra, criando novamente o estilo híbrido que faz parte da essência da Ímã.

“A música tem a ver com a festa e a guerra que acontecerem simultaneamente. E também é, de certo modo, uma resposta política. Incendiar os próprios corpos e as ideias, a gente mesmo, para que elas sejam força de mudança”, diz Luciano Faccini, compositor de “Incendeia”.

Novidades na quarentena: ouça Juliana Cortes e Julio Borba

Como vão de quarentena? Não se esqueçam de se espreguiçar. De ouvir quem se preocupa com você. De tomar sol. Por estes dias meio estranhos que talvez nos ofereçam a nova normalidade, a música segue como aliada indispensável. E dois lançamentos recentes aqui da terrinha merecem sua atenção.

A cantora e compositora Juliana Cortes divulgou há poucos dias o single “Andorinhas”. Esta é a faixa escolhida para apresentar seu novo disco, “Álbum 3”, sucessor de “Invento” (2013) e do ótimo “Gris” (2016). A canção é um poema musicado, escrito por João Ortácio e Guilherme Becker.

O músico e produtor Ian Ramil assina a produção do álbum, e assim dá início à parceria com Juliana, que havia trabalhado com seu pai, Vitor Ramil, em seus dois discos anteriores. Juliana explica que o single “representa uma fusão de linguagens minimalistas”. O arranjo foi criado de forma coletiva, e o resultado é uma interpretação experimental, com vocal em registrado em três oitavas diferentes. “Registramos sensações e impressões daquele instante em conjunto, no estúdio. Da escuta, criou-se as camadas da rabeca e banjo que costuram toda a música. ‘Andorinhas’ é uma faixa em que estão presentes todos os elementos do disco, especialmente na forma mais direta do meu canto. Além disso, a canção traz uma poesia singela que insiste em existir na dureza de uma cidade com suas tantas delicadezas”, explica Juliana.

O terceiro álbum da artista é resultado de um processo de imersão que reuniu compositores e poetas de duas capitais sulistas brasileiras: Curitiba e Porto Alegre. Buscando novas manifestações, interferências e experiências, Juliana Cortes convidou artistas dispostos a pensar e questionar as relações estético-culturais das suas cidades e de suas próprias produções para a criação de uma obra completa. De Curitiba, Estrela Leminski, Rodrigo Lemos e Juliana Cortes. De Porto Alegre, Ian Ramil, Guilherme Ceron, Zelito Ramos e Guilherme Becker. Em conjunto, após quatro dias de residência artística em Curitiba, 9 obras inéditas foram compostas para o registro do disco.

Ouça o single “Andorinhas”:

Outro lançamento importante e inspirador por esses dias é “Entroncamento”, primeiro disco do violonista Julio Borba, mais nova empreitada do selo Onça Discos. Nascido no Mato Grosso do Sul, Julio radicou-se em Curitiba a fim de pesquisar a música instrumental de seu estado natal, com foco no chamamé, gênero regional que tem como principais referências os acordeonistas Zé Correa e Dino Rocha.

Julio já tocou com Rosa Passos, Lula Galvão e João Egashira e fez um show memorável no Curitiba Jazz Festival de 2018. “Entroncamento” tem direção musical de Santiago Beis, e um trio de instrumentistas igualmente afiados: além de Julio no violão 7 cordas, há Pedro Mila na bateria e Leonardo Lopes no contrabaixo acústico elétrico.

Com 10 faixas, o álbum é um chamamento: à contemplação, à essência das coisas, ao pé no chão. Sonoridades bucólicas e cosmopolitas se confundem justamente no encontro dos músicos no chamamé, gênero naturalmente cativante.

Ouça o álbum “Entroncamento”:

Novo filme de Aly Muritiba dá voz a jovens da periferia de Curitiba

“Nóis por Nóis”, novo filme de Aly Muritiba e Jandir Santin, estreia nesta quinta-feira, 12 de março. O longa-metragem acompanha a vida de jovens da Vila Sabará, comunidade da periferia de Curitiba. Com atores profissionais e amadores, o filme aborda o movimento negro e a cultura periférica do Brasil, incluindo o rap e o hip hop (assista ao trailer abaixo).

A Vila Sabará é a maior ocupação urbana de Curitiba e tem um longo histórico de luta e resistência. A ideia do filme partiu de Jandir Santin, que atuava como educador na comunidade. O foco é retratar o cotidiano de meninas e meninos que tentam sobreviver e criar naquele ambiente adverso.

Depois de falar sobre bullying virtual em “Ferrugem”, Muritiba revisita esse universo com “Nóis por Nóis”, mas com diferentes abordagens. “As questões que atravessam os jovens periféricos são de outra natureza, são mais urgentes e diretas, menos existencialistas e mais físicas. O simples fato de estar no mundo, de se locomover nas ruas, já constitui uma situação de insegurança quando se é preto, pardo ou ‘mina’. É por isso que neste filme os corpos estão nas ruas, ocupando e reivindicando o direito à existência”, explica o diretor.

“Nóis por Nóis” tem distribuição da Olhar.

Ficha técnica:  
2018 | Brasil | DCP| 89 min.
Com Ma Ry (Mari), Matheus Moura (Japa), Maicon Douglas (Gui), Otávio Linhares (Cabo Rocha), Luiz Bertazzo (Nando), Matheus Correa (Café), Stephanie Fernandes (Jana), Felipe Shat (Shat)
Classificação indicativa: a verificar
Sinopse: O Baile rola solto e enquanto o RAP ecoa das caixas de som, quatro amigos vagam pela pista com objetivos bem distintos. O que eles não sabem é que seus destinos estarão selados para sempre após esta noite.

Orquestra Sinfônica executa trilha de “2001: Uma Odisseia no Espaço”

Em outra galáxia, a evolução humana. Do macaco surge o homem, a tecnologia, a inteligência artificial, o realismo científico e ainda mais indagações. Esta é – mais ou menos – a premissa do sempre impactante e influente filme “2001: Uma Odisseia no Espaço” (1968), do diretor, produtor e roteirista norte-americano Stanley Kubrick (1928-1999).

Efeitos especiais pioneiros, imagens ambíguas que se aproximam do surrealismo, e a trilha sonora memorável fazem do longa-metragem uma das obras mais impressionantes do cinema. Para homenagear o clássico, a Orquestra Sinfônica do Paraná realiza a 3ª edição da série Clássicos Universais com o concerto “Assim Falou Kubrick”. O espetáculo acontece no dia 15 de março, às 10h30, no Teatro Guaíra. Nos dias 10 e 11 de março serão promovidos ensaios abertos para crianças das redes pública e privada de ensino, no Grande Auditório do Teatro Positivo.

O concerto será regido por Stefan Geiger, maestro alemão que está à frente da Orquestra Sinfônica do Paraná. Serão executadas quatro obras da trilha sonora do filme e uma faixa bônus, composta por John Williams para o filme “Contatos Imediatos de Terceiro Grau” (1978).

Cena de “2001: Uma Odisseia no Espaço”. Foto: Reprodução

Compositores
Os compositores das trilhas sonoras são György Ligeti, Aram Kachaturian, Richard Strauss, Johann Strauss II e John Williams. O húngaro György Ligeti foi um dos vanguardistas mais importantes da segunda metade do século XX. Junto a Boulez, Berio, Stockhausen e Cage, é considerado um dos caras mais inovadores e influentes do seu tempo. Seus trabalhos iniciais foram influenciados pelos conterrâneos Bela Bartók e Zoltán Kodály e, como eles, Ligeti estudou e transcreveu diversas obras de música folclórica húngara. Aram Kachaturian foi um compositor armênio nascido em Tbilisi, Georgia. Ao lado de Sergei Prokofiev e Dmitri Shostakovich, Kachaturian é um dos grandes compositores do período soviético. O adágio de seu ballet “Gayane” também será apresentado pela Orquestra Sinfônica do Paraná neste concerto.

De Strauss, a composição escolhida por Kubrick para ilustrar as extensas cenas de estações espaciais e suas aterrissagens lunares foi a valsa “Danúbio Azul”. O último compositor presente no repertório  é John Williams, que nasceu em Nova Iorque em 1932. Desde a década de 1970, Williams elaborou a trilha sonora de mais de 100 filmes: “Tubarão” (1975), todos da série “Star Wars”, “E.T”. (1982), “A Lista de Schindler” (1993), e “Contatos Imediatos de Terceiro Grau” (1978). Foi ganhador de cinco Oscars e recebeu um número recorde de indicações.

Maestro Stefan Geiger e parte da Orquestra Sinfônica do Paraná. Foto: Divulgação

Popularização
Idealizado pelo Instituto de Apoio à Orquestra Sinfônica do Paraná (IAOSP) para democratizar a música clássica, o projeto Clássicos Universais traz, em cada edição, obras consagradas mundialmente. São apresentações com composições que, de alguma forma, já permeiam o imaginário popular.

O concerto tem patrocínio do Grupo Positivo, incentivo do Ministério da Cidadania, Secretaria Especial da Cultura e Governo Federal por meio da Lei Rouanet.

SERVIÇO
Série Clássicos Universais – Assim Falou Kubrick
15 de março (domingo) às 10h30.
Classificação: livre
Ingressos: R$ 20 (inteira) e R$ 10 (meia), à venda pelos site ticketfacil.
Teatro Guaíra (Rua Amintas de Barros, S/N – Centro)
Mais informações: www.apoiosinfonicaparana.com.br

Ana Frango Elétrico: “A poesia é um atalho contra a saturação da realidade”

Ana Frango Elétrico, 22 anos. O divertido estranhamento causado por seu nome artístico é também o principal indício da sonoridade sinestésica desta carioca – cantora, compositora e escritora. Ana foi escolhida como artista revelação pelo prêmio da Associação Paulista de Críticos de Arte (APCA) de 2019, e indicada ao Women’s Music Event na categoria “Escute as Minas”.

Ela lançou dois discos: “Mormaço Queima”, de 2018. E “Little Electric Chicken Heart”, do ano passado. Com ranço do termo Nova MPB”, Ana propõe jogos. De palavras, de recortes imagéticos em suas letras, ora surreais ora ingênuas, e sonoros. Rogério Duprat, o arranjador oficial do tropicalismo, ficaria feliz em ouvir a jazzística “Saudade”, que abre seu segundo álbum.

Foto: Divulgação

A liberdade criativa de Yoko Ono, David Bowie, Björk e Ava Rocha também são referências. Antes que lhe cancelem por falta de talento específico, é bom avisar que Ana Frango Elétrico, ao que parece, brinca de cantar e compor, sem esquecer de seu lugar no mundo pós-moderno. “Sou homem-bicho-mulher”, diz a garota, que tem admiração pela música brasileira, mas busca, ao seu jeito, romper com algum cordão umbilical ainda retroativo.

Ana Franco Elétrico é uma das atrações do Libélula de Carnaval 2020, que começa amanhã (21) e segue até terça-feira (25) na chácara do Tio Miro, em São José dos Pinhais, região metropolitana de Curitiba. Chico César, Bananeira Brass Band, Trupe Chá de Boldo e Charme Chulo também estão na programação. Ela se apresenta no domingo (23), às 22h. No dia 29 de março, ela faz show em Curitiba. Na entrevista abaixo, Ana falou sobre sua relação com as redes sociais, sobre a necropolítica vigente, sobre a falência da Nova MPB e avisou que lança, neste ano, seu primeiro livro. “Porque a poesia possibilita utopias”.

– Você conhece Curitiba e região, já esteve por aqui?
Nunca. Vai ser a primeira vez. Conheço por meio de alguns amigos do teatro e da música, como o [ator, poeta e compositor] Luiz Felipe Leprevost. Tem muita coisa rolando aí, né? Uma coisa legal é que o algoritmo do Spotify me diz que muita gente de Curitiba ouve a minha música.

– Como será o show nesse ambiente familiar, de comunidade alternativa, proposta pelo Festival Libélula?
Fiquei muito feliz com o convite porque acho que aos poucos a gente perdeu a cultura desse tipo de festival. De estar na natureza, em comunhão com pessoas de várias idades. Estou muito animada mesmo. Meu show vai ser o do segundo álbum, com releituras de músicas do primeiro. Há músicas com uma pegada nostálgica e melancólica, mas também me baseio no cinema e no teatro para criar as apresentações. Vou estrear um show novo no festival, com novo roteiro e algumas surpresas.

– Quem mais te acompanha no palco?
Antônio Neves no trombone, Eduardo Santana no trompete, Guilherme Lírio na guitarra, Vovô Bebê no baixo e Marcelo Callado na bateria. [Guilherme Lírio é um dos caras do Exército de Bebês, banda formada por alguns dos principais músicos da nova cena carioca. Marcelo Callado faz parte da banda Do Amor e foi baterista da Banda Cê, que acompanhou Caetano Veloso em sua última trilogia].

– Falando sobre o seu nome artístico. É uma espécie de homenagem torta a seu avô, mas ao mesmo tempo uma crítica a questões patriarcais e de gênero. Aquela coisa de não usar o sobrenome do homem…
Homenagem não… Meu sobrenome é Fainguelernt, vem do meu avô e tem origem russa. O grande lance pra mim, para além da luta contra esse reflexo do patriarcado, é a questão da libertação de ego. Da possibilidade artística. Criei a Ana Frango Elétrico e estou descobrindo quem é essa persona. Hoje, sou homem-bicho-mulher.

– Na identidade visual, e nas músicas, você trabalha também questões importantes como gênero e identidade. Acha que esse tipo de abordagem é cada vez mais necessária e esclarecedora?
Sim, é totalmente natural pra mim. Eu não tenho letras politicamente binárias porque acho que estou num processo de descoberta interna. Tenho 22 anos, né? E minha pesquisa é ligada à poesia. Sinto uma insatisfação com a falta de expansão da poesia nos vários campos artísticos. Insatisfação com a forma que a poesia se apresenta. No primeiro disco, fiz uma escolha de produção específica: não exaltar a canção ao vivo. Nesse ano, vou gravar um compacto com releituras do primeiro álbum, e talvez mude alguma coisa nessa abordagem, nos temas.

– Você é uma millenial, faz parte de uma geração que já nasceu com internet, celular. Você é muito ligada em redes sociais, prefere o contato real ou dá pra conciliar tudo isso?
Sou muito ligada. No Instagram principalmente, porque adoro imagens. Arquivo coisas, faço álbuns, divulgo meu trabalho. Mas parece que cada show e festival tem uma estética, e um público diferente, e às vezes não consigo dar conta de tudo. Tenho outra conta para amigos íntimos… Mas eu cresci em outro contexto. Foi num condomínio na beira da Favela do Morro dos Prazeres [zona sul do Rio de Janeiro]. Jogava bola na rua, tenho uma casca grossa no meu pé, fazia cabana no mato, meu pai foi criador de abelhas. Acho que isso me construiu mais do que a internet, que entrou depois na minha vida.

– Sua música é colorida, tem cheiro, é sinestésica. Algumas letras são quase surreais e é visível seu apreço pela palavra. Você é uma leitora também? De quê?
Sou leitora de poesia. Comecei a gostar de palavra com a poesia. Tenho dificuldade com leituras longas, me distraio. Na poesia, me vejo num lugar muito interessante, de apreço. E que pode ser fácil também. É bizarro como o contato com a poesia é dificultado escola, por vários motivos. Uma das coisas que gosto de fazer é trazer a poesia para a vida. Às vezes pode ser surreal, mas não só isso. São colagens da realidade. Coisa de recorte da poesia. Todo mundo sente frio, sente tesão, sai para passear com o cachorro. É um atalho para evitar a saturação da realidade. Um pingo de utopia inesperado. Porque a poesia ficou tão distante… e se vai além da realidade, já é engraçado ou surreal. Estou lendo [Vladimir] Maiakovski [poeta soviético, 1883-1930] para a minha mãe, que está em processo de recuperação. E vou lançar um livro em julho, com uma coletânea de textos desde 2015: “Escoliose: Paralelismo Miúdo” (independente).

– Sei que você não gosta do termo nova MPB, porque na verdade é quase um paradoxo, mas a expressão pós-MPB parece fazer algum sentido, né?
Faz mais. Nova MPB é um termo falido porque nunca aconteceu. A gente entendeu o que ele é, mas poderia ser descrito e vivido de uma maneira mais humilde, aí eu me encaixaria. Sou pós-tudo isso. Gosto de ilhas estéticas, e cada artista entende o que elas são: misturas, underlines. Já defini minha música como bossa-pop-rock-decadente com pinceladas punk. Agora estou mais para rock-balada-jazz. O conceito musical do que é moderno já começou a dar a volta. Pra ser moderno, não precisa estar no hype. E essa Nova MPB já entendemos muito claramente: sabemos o som do violão, da percussão. Sou mais da pós-Tropicália, da pós-Nova MPB. Estou tirando as coisas de mim, é um processo de ruptura.

– Você é carioca, vive numa cidade administrada por um pastor evangélico que tentou censurar livros, o estado é governado por um sujeito que comemora morte de outras pessoas. Este nosso momento, tão indigno e grotesco, acaba por influenciar seu trabalho de alguma forma?
Com certeza. Me afirmo contra a essa política de governo que sucateia tudo o que é importante. Isso me move muito em relação a pensamentos, conversas, encontros. Aí penso no que posso fazer. Minha irmã trabalha com ribeirinhos no Pará, e absorvo essa luta. As minhas canções são mais poéticas, e isso é importante neste momento. Vivemos essa realidade da necropolítica. E a poesia possibilita utopias. Precisamos ouvir mais. Ouvir as mulheres, as negras, as trans. Eu não falo tanto porque tenho noção dos meus privilégios e sou classe média e branca. E me incomoda muito branco classe média falando pra caralho sobre temas tão importantes. Pesquiso muito antes de falar sobre isso, mas é preciso agir contra esses babacas fascistas do meu estado e do Brasil.

O Torto, o cancelamento e o ódio do bem

O mundo é um moinho, cantava Cartola, sempre afeito à poesia da verdade. A agressão de Arlindo Ventura, o Magrão, a uma mulher negra na última terça-feira (4), surpreendeu, indignou, comoveu e revoltou parte de Curitiba. Porque o Torto, pensava, pensávamos (?), era um ponto de encontro seguro de gente interessante e interessada.

Confesso, e esta é uma mea-culpa, que nestes 10 anos frequentando o boteco, nunca chegaram até mim relatos de casos de agressão, constrangimento, racismo e homofobia por parte de Magrão. Provavelmente porque eu sou homem, cis e branco. Talvez porque seu carisma fosse na verdade uma armadura mentirosa construída com habilidade. Magrão é uma figura quase pública, quase política, que promoveu eventos democráticos na rua numa época em que isso não era bem-visto pelos curitibanos de pantufa, nem pelas autoridades que já engatilhavam um protofascismo. Suas “campanhas” eram a favor da diversidade, da ciclomobilidade e de outras ades e ismos conectados com algum pedaço de ideologia comum a quem justamente se surpreendeu, indignou, comoveu e revoltou. Para além do meu desconhecimento sobre seu passado controverso, que agora se ilumina com inúmeros relatos abomináveis, existe um contexto histórico mais amplo e profundo, que contradiz suas ações. Me vi embrulhado neste paradoxo quando comentei a matéria do Plural, na manhã de quarta-feira.

Recebi fotos do episódio na noite em que ele ocorreu. Na manhã seguinte, pipocavam relatos diversos e, acredite, contraditórios. A maioria deles confirmava a agressão. Justamente pela gravidade do caso, um jornalismo sério e informativo seria importante. Mesmo o admirável colega Rogerio Galindo – que fez um trabalho muito digno sobre isso, diga-se – penou para achar uma versão jornalística que satisfizesse a isenção presumida da profissão e o engajamento necessário em tempos cada vez mais dialéticos, em que a busca pela transparência se confunde com posicionamento ou a falta dele. E apurar, checar, ouvir, duvidar, não é tomar partido. Nem ser a favor de qualquer tipo de violência. Nem “passar pano” – que expressão absolutamente vazia, aliás.

Foto: Leandro Taques

Torço firmemente para que se faça justiça para a mulher agredida. E também, como jornalista e interessado no caso, espero ouvir sua versão – a publicação do termo circunstanciado não foi autorizada por ela, por motivos que não nos cabe questionar. Repúdio, indignação e solidariedade à parte, o que me interessa, ainda, é a busca pela capacidade da mediação e do diálogo em tempos de de julgamentos instantâneos (corretos ou não) e de liquefação da realidade.

Se ignorarmos o contexto histórico das coisas e perdemos a capacidade de reflexão, mesmo sobre o racismo ou o que é mais indignante, nos colocamos à deriva e nos aproximamos de uma barbárie camuflada, cada vez mais. O fim da história, nesse sentido, enaltece a criação de Estórias, baseadas em narrativas independentes de sua própria criação ou origem, que também podem ser violentas. Abomino a ação de Magrão, mas quero entender por que ele fez isso, justamente para que ele não dê exemplos igualmente hediondos, dada a figura pseudo-pública e pseudo-política que é e a influência que tem.

Vivemos um processo importante, constante e necessário de desconstrução de paradigmas, estigmas e preconceitos inconscientes. O esclarecimento, o diálogo e o afeto contribuem para que sejamos mais tolerantes e atentos, mesmo que gozemos de privilégios raciais, de gênero e econômicos. O que vi e vivi virtualmente por uns dias, no entanto, foi a tentativa da desconstrução de forma irascível e contraprodutiva, que não dá exemplos, mas reforça o que combate, numa espiral louca de criação de narrativas que acabam por esmagar a origem do fato para que se tenha um mínimo de espaço de desengasgo e lacração. E estamos engasgados, não há dúvidas.

Momentos depois da minha postagem, ainda na manhã de quarta-feira, comentários tão agressivos quanto surreais sugeriam que o machista e o racista da vez era eu. Houve quem ordenasse que o post deveria ser apagado, numa censura impulsiva e contraditória tão triste quanto hipócrita. “Argumentos” vinham em forma de gifs e hashtags, na confirmação de que tudo está se tornando mesmo líquido, superficial e irresponsável, mesmo quando o papo é sobre um fato lamentável dessa proporção.

Na última quinta-feira, o filósofo e cientista social Fernando Schüler publicou um artigo providencial na Folha de S.Paulo, cujo título é “O ódio do bem”. O ponto mais interessante é este: “Fascinante é esse fenômeno do ódio do bem. Significa o seguinte: eu cuspo no outro, chamo de fascista, digo que ele destrói a democracia, a civilização, que nem sequer devia existir. Mas excluo meu ódio do conceito de intolerância. E durmo tranquilo”.

Mesmo em situações injustificáveis, talvez precisemos do mínimo de empatia para que, no fundo, não percamos o que nos resta de noção de sociedade, incluindo aí seus conflitos e tensões intrínsecos e eternos. Não é o caso de ir ao Torto e tomar uma bera, mas racionalizar, no meio da loucura imposta, sobre como às vezes nos comportamos da mesma forma que aqueles que mais execramos. Porque nosso ódio sempre estará latente, mesmo que você o sublime culpando uma causa maior.

Na quarta-feira à noite houve um protesto em frente ao Torto. Palavras de ordem, cartazes, a representatividade justa de quem também se sentiu violentado. Mas, segundo relatos, lixo foi jogado dentro do bar e um sujeito quis sair na porrada com Magrão, para resolver o negócio à moda da barbárie, e de forma inconsciente se igualar a ele. Isso é hipocrisia de causa, um nó costurado com indignação histórica justificável, mas que encontrou um álibi para operar de forma contraproducente e igualmente violenta.

Nesse momento tão frágil de quase tudo, procuramos certitude em nossas ideologias e atos. Mas é perigoso ter a certeza de que se está do lado certo da história e achar que, por causa disso, vale tudo. Por que quem não está “de mãos dadas com a gente” pode também estar perdido, triste, ressentido. As ideologias estão cada vez mais sendo definidas não pelo que você acredita, mas pela negação de alguma coisa, ou pior, de pessoas. O desprezo muitas vezes é maior do que a capacidade de formar alianças. No Brasil de hoje, a definição do posicionamento político é dada pelo que você não gosta, e às vezes esse procedimento, na rua ou nas redes, não é um processo de politização útil, é só ameaça. Assim, a esquerda, ou seja lá como chamamos hoje essa ideologia que preza pela liberdade individual, pelo pacifismo e pela democracia de costumes, vira automaticamente uma censora.

É preciso ter algo para dizer, mesmo para um machista, um racista ou um homofóbico. “Cancelar” o outro é anular sua existência completamente. Na verdade é pior porque é fingir que esse outro não existe, quando na verdade ele existe e continuará a agir como sempre agiu se alguém não intervir de forma exemplar. É assumir, enfim, que não temos mais a capacidade de compreensão de alguém. É perder a chance de virar o jogo a nosso favor. Acho mesmo que é essa a chance que ainda temos.

O mundo é um moinho, mas moinho também faz vento.