Psicodália é suspenso após 18 anos; novo festival acontece em reserva ecológica

Depois de 18 anos desde sua estreia, e de 22 edições ininterruptas, o Festival Multicultural Psicodália não irá acontecer em 2020. O evento, gigante da cena independente que se tornou tradição no carnaval, com atrações musicais nacionais, internacionais, oficinas, cinema e um clima de cordialidade quase inacreditável, passará por uma “remodelação”, e está interrompido.

Foto: Rodrigo Della Fávera

Os motivos passam pelo esgotamento físico do espaço – a Fazenda Evaristo, em Rio Negrinho (SC) – e por decisões judiciais recentes que vão contra a essência do evento. “Em 2017 tivemos nosso maior público, 7 mil pessoas. Chegamos ao limite da Fazenda [Evaristo]. Em 2019 tivemos dificuldade na liberação de alvarás, e a proibição da participação de crianças, mesmo acompanhadas. O momento difícil da economia também conta”, diz Alexandre Osiecki, criador do Psicodália.

No dia 25 de outubro de 2018, a juíza de direito da Vara da Infância e da Juventude da cidade de Rio Negrinho, Fabrícia Alcantara Mondin, publicou a portaria 91/2018, decretando: “Fica proibida, na comarca de Rio Negrinho, a entrada e a permanência de crianças e adolescentes em casas de diversão, danceterias, promoções dançantes, festas pagas e congêneres, sob pena de responsabilização administrativa, civil e criminal dos proprietários dos estabelecimentos comerciais e organizadores do evento, de acordo com as disposições da legislação vigente”.

Foto: Beto Ambrósio

O público da edição deste ano foi de 4,2 mil pessoas, quase a metade da registrada no ano anterior. “Muitas famílias deixaram de ir. Não só crianças, mas pessoas mais velhas interromperam uma tradição de anos por causa disso”, diz Osiecki. “Em seis dias, o Psicodália movimentava o equivalente a um mês da economia de Rio Negrinho”.

Há chance de um evento similar ao Psicodália acontecer no carnaval de 2020, mas com outro nome e em outro formato. O local ainda não foi decidido. Para 2021, Alexandre estuda o retorno do festival, que por ora está “de férias”.

Libélula

Nos moldes do Psicodália, embora com menor estrutura, Alexandre criou o Festival Libélula, que acontece na Reserva Ecológica Terraiz Castelhanos, chácara na Colônia Castelhanos, em São José dos Pinhais, a 81km de Curitiba. O evento acontece entre os dias 27 de dezembro de 2019 e 1º de janeiro de 2020.

Cartaz do Festival Libélula, por Diego Perin

Serão cerca de 20 atrações (a serem anunciadas) “no estilo Psicodália” em dois palcos: um com funcionamento das 16h às 22h, e outro, acústico, aberto durante a madrugada. Este, em especial, servirá de espaço para artistas de rua, repreendidos recentemente por apresentarem seu trabalho em espaços públicos. Haverá estrutura para camping, banheiros, duchas, restaurantes e bares. Em meio à Serra do Mar, a reserva tem rios de pedra e de argila medicinal, cachoeira e trilhas. O Libélula também vai trabalhar com produtos orgânicos ofertados por produtores da região.

O ingresso custará R$200 para todos os dias de evento, e as vendas começam no dia 7 de outubro pelo site diskingressos. A expectativa de público da primeira edição do Libélula é de 700 pessoas, incluindo artistas e equipe.

“Como dançar uma revolução”
Em 2016, “cobri” o Psicodália para o portal Scream & Yell. O relato está aqui.

Mulamba estreia clipe na Ocupação 29 de Março, incendiada em 2018

A banda curitibana Mulamba continua sua importante trajetória musical e social e faz pré-estreia do clipe da música “Vila Vintém” na Ocupação 29 de Março, na Cidade Industrial de Curitiba, no próximo sábado (31) a partir das 4 da tarde. Um pocket show da banda, da cantora Janine Mathias, e uma discotecagem com Carmen Agulham também estão programados. A entrada é 1kg de alimento não perecível.

Na madrugada do dia 7 de dezembro de 2018, mais de 200 moradias da Ocupação 29 de Março foram destruídas por um incêndio. Moradores alegam que o ato foi criminoso, em represália ao assassinato do policial militar Erick Nório, de 28 anos. A comunidade fica próxima da Vila Corbélia e compõe um complexo de moradias populares formado por quatro ocupações: Nova Primavera, criada em 2012; 29 de Março e Tiradentes, que surgiram em 2015; e a mais recente, Dona Cida, criada em 2016. A estimativa é de que mais de 1.500 famílias vivam no complexo.

Mulamba. Foto: Luciana Petrelli

“Durante a gravação, as pessoas da comunidade quiseram ajudar, os grafites foram feitos pelos artistas de lá. Existe uma verdade no clipe, que não é nosso lugar de fala, mas a gente quer dar esse espaço”, explica Caro Pisco, baterista da banda. “Eles são muito organizados e têm um espaço de shows, onde vamos conseguir movimentar toda a economia local com a venda de bebidas e comida. Da nossa forma mais humilde, gostaríamos de chamar atenção não só para a 29 de Março como para todas as outras comunidades periféricas que precisam que alguém olhe por eles, para que haja respeito por parte do Estado e mínima infraestrutura”.

O clipe, com direção da Órbita Filmes, retrata a realidade de quem vive nas comunidades periféricas. Elidieu, personagem principal, é da vida real: haitiano refugiado que construiu a sua casa própria sozinho, depois que a comunidade pegou fogo no fim do ano passado. A Vila Vintém, favela situada no Rio de Janeiro, inspira a música-título.

SERVIÇO
Pré-Estreia De “Vila Vintém”
Ocupação 29 De Março
31 de agosto (sábado), a partir das 16h
Endereço: Estrada Velha do Barigui 3.239 – Referência: Fábrica da Toshiba
Pocket show com Mulamba, Janine Mathias e microfone aberto
Discotecagem: Carmen Agulham
Entrada: 1kg de alimento
Evento: https://www.facebook.com/events/404375933538331/

Filme curitibano vencedor do Festival de Gramado está em mostra no Cine Passeio

Pelo segundo ano seguido, o Paraná conquista um dos prêmios máximos do Festival de Gramado, que anunciou os vencedores no último sábado (24). Em 2018, “Ferrugem”, de Aly Muritiba, conquistou o troféu de Melhor Filme de longa-metragem. Nesta edição, foi a vez de “Apneia”, de Carol Sakura e Walkir Fernandes, vencer o Kikito de Melhor Curta-Metragem.

Aproveitando o bom momento da produção local, apesar de tudo e de todos, o Cine Passeio organiza, de 29 de agosto a 11 de setembro, a Mostra Curitiba de Cinema. Estarão em exibição 9 longas-metragens e 12 curtas rodados em Curitiba, ou que contam histórias curitibanas. Entre eles, o intrigante documentário “Ovos de Dinossauro na Sala de Estar”, de Rafael Urban, “Corpos Celestes”, de Fernando Severo e Marcos Jorge, e “Apneia”, vencedor do prêmio de Melhor Curta-metragem no Festival de Gramado neste ano.

Equipe de “Apneia”, vencedor do prêmio de Melhor Curta-metragem do Festival de Gramado.

A abertura acontece às 7 da noite da próxima quinta-feira, com um bate-papo com Sylvio Back sobre o tema “Filmar em Curitiba” e exibição de “Caro Signore Fellini”, filme de Back de 1979. Todas as sessões têm entrada gratuita. Veja a programação da primeira semana:

29/08 (quinta-feira)
19h – Cine Luz
Bate-papo: “Filmar em Curitiba”, com Sylvio Back

20h30 – Cine Luz
CARO SIGNORE FELLINI” (1979)
Direção: Valêncio Xavier – Classificação: 10 anos
Duração: 11 min – Gênero: Documentário

“LANCE MAIOR” (1968)
Direção: Sylvio Back
Elenco: Reginaldo Faria, Regina Duarte, Irene Stefânia
Classificação: Livre – Duração: 1h40min – Gênero: Drama

30/08 (sexta-feira)
20h30 – Cine Luz

“DO TEMPO QUE EU COMIA PIPOCA (2001)”
Direção: Catherine Agniez e Heloísa Passos
Elenco: Guta Stresser, Maria Clara Fernandes, Rodrigo Ferrarini
Classificação: Livre – Duração: 19 min – Gênero: Drama

“OVOS DE DINOSSAURO NA SALA DE ESTAR (2011)”
Direção: Rafael Urban – Classificação: Livre
Duração: 13 min – Gênero: Documentário

“CORPOS CELESTES” (2011)
Direção: Fernando Severo e Marcos Jorge
Elenco: Dalton Vigh, Alexandre Nero, Carolina Holanda
Classificação: 14 anos – Duração: 1h31min – Gênero: Drama/Romance

31/08 (sábado)
20h30 – Cine Luz

“FABULÁRIO GERAL DE UM DELÍRIO CURITIBANO” (2007)
Direção: Juliana Sanson
Elenco: Patrícia Saravy, Andréia de Souza, Vinicius Mazzon
Classificação: Livre – Duração: 16 min – Gênero: Comédia dramática

“CURITIBA: A MAIOR E MELHOR CIDADE DO MUNDO”
Direção: William Biagioli – Classificação: Livre
Duração: 12 min – Gênero: Comédia documental

“CIRCULAR”
Direção: Adriano Esturilho, Aly Muritiba, Bruno de Oliveira, Diogo Florentino e Fábio Alton
Elenco: Letícia Sabatella, César Troncoso, Luiz Bertazzo
Classificação: 12 anos – Duração: 1h34min – Gênero: Drama

01/09 (domingo)
20h30 – Cine Luz

“MEDO DE SANGUE”
Direção: Luciano Coelho
Elenco: Rejane Arruda, Alvaro Garutti
Classificação: 14 anos – Duração: 20 min – Gênero: Drama

“APNEIA”
Direção: Carol Sakura e Walkir Fernandes
Classificação: Livre – Duração: 14 min – Gênero: Animação

“MYSTÉRIOS”
Direção: Beto Carminatti & Pedro Merege
Elenco: Leonardo Miggiorin, Sthefany Brito, Carlos Vereza
Classificação: 14 anos – Duração: 1h22min – Gênero: Drama/Thriller

03/09 (terça-feira)
20h30 – Cine Luz

“EM BUSCA DE CURITIBA PERDIDA”
Direção: Estevan Silvera – Classificação: Livre
Duração: 14 min – Gênero: Documentário

“CURITIBA ZERO GRAU”
Direção: Eloi Pires Ferreira
Elenco: Jackson Antunes, Diego Kozievitch, Rodrigo Ferrarini
Classificação: 12 anos – Duração: 1h45min – Gênero: Drama

04/09 (quarta-feira)
20h30 – Cine Luz

“INFINITAMENTE MAIO”
Direção: Marcos Jorge e Cacau Rhoden
Elenco: Simone Spoladore, Jerusa Franco, Renato Rabello
Classificação: 16 anos – Duração: 19 min – Gênero: Drama

“PARA MINHA AMADA MORTA”
Direção: Aly Muritiba
Elenco: Fernando Alves Pinto, Mayana Neiva, Lourinelson Vladmir
Classificação: 14 anos – Duração: 1h45min – Gênero: Drama

Pianista de Buddy Guy se apresenta em Curitiba

O cantor e pianista norte-americano Donny Nichilo é a atração internacional de agosto do Expresso Curitiba, casarão histórico na região central da cidade recém-transformado em espaço cultural, gastronômico e sustentável. Donny Nichilo se apresenta na próxima sexta-feira (23), a partir das 8 da noite. Os ingressos custam R$20 e R$10 (estudantes e músicos). O Expresso Curitiba fica na Rua Alfredo Bufren, 323.

Nascido e criado em Chicago, Nichilo integrou os grupos Floyd McDaniel e Blues Swingers. Foi também um dos fundadores da lendária banda de swing The Mighty Blue King. Sua trajetória musical é respaldada por apresentações ao lado de Carlos Santana, Buddy Guy (de quem foi pianista), Stevie Ray Vaughan e Ronnie Wood (The Rolling Stones).



Versátil, Donny interpreta diferentes estilos de blues, jazz, swing e standards da música seminal norte-americana. Durante o show, canta e executa ao piano composições próprias, muitas delas marcadas pelo improviso jazzístico.

Expresso Curitiba
Proporcionar uma experiência gastronômica, musical, histórica, afetiva e sustentável é a proposta do Expresso Curitiba Hostel e Coffee Bar, inaugurado em junho deste ano com show do saxofonista francês Baptiste Herbin. O espaço cultural está instalado num casarão de 400m2 erguido em 1892, na Rua Alfredo Bufren, no coração de Curitiba – entre o prédio histórico da Universidade Federal do Paraná e o Teatro Guaíra.

Além de espaço cultural e musical com foco em jazz, o Expresso Curitiba é pioneiro na cidade ao oferecer ingredientes frescos, colhidos diretamente de uma fazenda urbana instalada no próprio estabelecimento. São mais de 50 plantas à disposição, provenientes de produtores locais e de cooperativas familiares.

SERVIÇO
Donny Nichilo
Sexta-feira (23), às 20h
Expresso Curitiba – Rua Alfredo Bufren, 323, Centro
Ingressos: R$20 e R$10 (estudantes e músicos)

Movimento reúne cineastas e agentes culturais contra a extinção da Ancine

Cineastas, cinéfilos, artistas, entidades e agentes culturais de diversos estados brasileiros, e também do Paraná, se uniram para responder formalmente às recentes declarações autoritárias e antidemocráticas do presidente Jair Bolsonaro em relação à Agência Nacional do Cinema (Ancine).

Durante as últimas semanas, Bolsonaro disse que pretende instalar “filtros de avaliação” na Ancine. Depois, que iria transferir a agência do Rio de Janeiro para Brasília. Na sequência, que tiraria da Ancine o Fundo Setorial do Audiovisual, o repassando para a Secretaria Especial da Cultura. A afirmação mais radical, e sem precedentes, veio na última quinta-feira (25), quando Bolsonaro disse que pretende “extinguir” a Ancine.

O Movimento Suprapartidário Artigo 5º, criado na semana passada, reúne, até o momento, 3.700 artistas de todas as linguagens, escritores, produtores, designers, advogados, jornalistas e apoiadores para uma campanha a favor do inciso 9º do Artigo 5º da Constituição Brasileira: a livre expressão.

O grupo foi criado em Belo Horizonte. Uma de suas articuladoras é Tatyana Rubim, gestora cultural. No dia seguinte, outros grupos foram criados em São Paulo, sob comando da atriz Yara de Novaes, e também no Rio de Janeiro, Santa Catarina, em estados do Nordeste e no Paraná.

O movimento divulga o que rege a constituição e pretende esclarecer a sociedade sobre as reais funções e benefícios da Agência Nacional do Cinema – para a cultura, a democracia e para a economia. Camisetas com estampas do Artigo 5º foram usadas em gravações de vídeos criados pelos participantes do movimento. Nomes como Marisa Orth, Hugo Possolo, Antônio Grassi participaram da ação.

Outra atividade em andamento é uma nota de repúdio contra a censura com uma lista com cerca de 3.800 signatários na plataforma Avaaz. Caetano Veloso, Paula Lavigne, Alessandra Negrini, Débora Falabella, Alcides Nogueira, Dira Paes, Fause Haten, Elias Andreato, Monique Gardenberg, Cissa Guimarães, Júlia Lemmertz, Bob Wolfesson, Lira Neto, Camila Morgado e Frei Betto são alguns dos assinantes.

No Paraná, um grupo de trabalho também está ativo. Ações em redes sociais e presenciais estão sendo planejadas para os próximos dias.

ímã lança primeiro single; Tuyo vai à Europa

O coletivo, o comum, a sinergia. A banda curitibana ímã, formada por nove artistas, lançou há alguns dias seu primeiro single, “Memória do Chão” . Assista ao lyric video abaixo:

Na composição, timbres da música brasileira encontram sonoridades sintéticas, apresentando uma diversidade representativa do próprio grupo. Cello, cavaquinho, guitarra, sintetizador e maracas compõem, em meio a outros elementos, texturas que visitam lugares do rock experimental, vestidas com ritmos brasileiros e influências eletrônicas. Na letra, um trajeto de dúvidas sobre si e a busca pelos próprios rastros, passando por múltiplas vozes, às vezes sóbrias e outras explosivas.

Formada por integrantes de outras bandas e projetos, como Farol Cego e Veenstra, a ímã abre os caminhos para o lançamento de seu primeiro álbum, previsto para o segundo semestre.

Foto: Tárcilo Pereira

A ímã é André Garcia (guitarra, violão e voz), Dayane Battisti (cello, violão, cavaquinho e voz), Francisco Okabe (cavaquinho, violão de 7, flauta e voz), Leonardo Gumiero (baixo, sintetizador e voz), Lorenzo Molossi (bateria, guitarra e voz), Luciano Faccini (clarineta, violão, guitarra e voz), Má Ribeiro (percussões e voz), Melina Mulazani (percussões e voz), Yasmine Matusita (bateria e voz).

A turma faz shows nos próximos dias 19 e 20 de julho, no Teatro Paiol. O trabalho também conta com participações especiais de Soema Montenegro, Roseane Santos, Matê Magnabosco e Cacau de Sá.

*

Com o disco “Pra Curar”, sobre processos de cura após a dor, a banda Tuyo cruzou influências da folk, hip-hop e do synth pop. Agora, o grupo formado por Machado, Lio e Lay Soares cruza o oceano na estreia da turnê europeia.

No dia 13 de julho, a Tuyo se apresentou em Lisboa, no MUSICBOX; e no dia 19, o trio participa do Festival Colours of Ostrava, na República Tcheca, ao lado de The Cure e Florence and The Machine.

Primeiro disco de Diego Perin conecta quem achou estar só perante o absurdo

“Cuidado ao Ficar Muito à Vontade”. É este o providencial título do primeiro álbum de Diego Perin, ex-baixista da Banda Gentileza. Lançado no dia 28 de junho, sucede o EP “Cabresto” (2018). O disco une de forma inequívoca a ironia quase distópica de nossos tempos a mensagens potencialmente otimistas sobre com ser um bom humano neste início de século, marcado por fé cega, narcisismo tóxico e falta de posição assertiva no mundo. O show de lançamento acontece neste sábado (6), a partir das 5 da tarde, em local secreto, revelado após a compra do ingresso (à venda aqui).

Diego entrega com grooves tudo o que tem, nas ideias, nos princípios e em suas guerras particulares. Com influências musicais de Beatles, rock dos anos 90, Zé Ramalho e do próprio suingue urbano da Banda Gentileza, nos oferece sua visão de mundo, compartilhada naturalmente por quem quase enlouqueceu ou duvidou de si mesmo nestes últimos anos, nestes tristes trópicos.

Foto: Nicolas Salazar

São vários os momentos e as cenas de “Cuidado ao Ficar Tão à Vontade”, um disco também cinematográfico. “O Que é Que Falta” abre o álbum exibindo um riff de guitarra que ecoaria de alguma banda do início dos anos 2000 numa Quarta Rock dos bons tempos. Se os versos são um quase diário de alguém inconformado, mas consciente, o refrão é uma indagação em busca, enfim, do equilíbrio coletivo, não individualista: “o que é que falta em nós?/ o que é que sobre em nós?”

“Não Vou Buzinar”, a terceira faixa, é uma crônica ensolarada sobre os absurdos cotidianos com os quais tememos nos acostumar. Neste caso, sobre aquele pulha que buzina depois de dois segundos de sinal fechado. “Você também se sente perdido neste mundo?”, canta Diego, aproximando seus pares, neste disco que também é uma espécie de ímã para quem está atento e ainda humano.

“Heróis” é coisa séria e dialoga de forma impressionante com as certezas convertidas e o mito do herói moderno, e talvez bem brasileiro. Aquele que sufraga sua missão suposta e perigosamente messiânica ao atropelar tudo e todos com as bençãos de quem acredita que o outro, por pensar diferente, é o capeta em pessoa. A música é soturna, e dilui-se em sua própria efemeridade, não por acaso.

A emocionante “Treta” é uma bandeira branca em forma de música a amigos e amores antes infinitos que sucumbiram à distopia vigente. Feridas expostas, cicatrizes de quem perdeu a referência e o coração em grupos de whatsapp? Diego, buena onda, acha que a escolha pela ignorância e alienação é, na verdade, uma baita de uma bad trip.

“Walstreet” segue a jornada irônica, mas nunca vazia, deste disco. É sobre aqueles que subverteram sua identidade ao que é finito. Neste caso, uma SUV prateada que fura o sinal. Zé Ramalho é influência explícita num pop country que descola símbolos da jacuzice e da arrogância para levá-los a um lugar musicalmente divertido.

Nesta jornada de exposição, diálogo, perguntas e incertezas, Diego Perin está acompanhado de Douglas Vicente (bateria), Ruan de Castro (baixo), Vinicius Nisi (teclados e sintetizadores), Rodrigo Lemos (guitarra), também produtor do álbum. Há participações de Valderval Oliveira (timbales), Vitor Salmazzo (percussão), Leandro Dalmonico (viola), Bernardo Stumpf e Thiago Ramalho (voz).

“Cuidado ao Ficar Muito à Vontade” é um disco importante porque serve como documento histórico subjetivo para um período que ainda desafia a compreensão. E como suporte musical para quem achava estar sozinho no meio do mundo.

Protestos de junho de 2013 são analisados em livro

A democracia brasileira tem um antes e um depois dos grandes
protestos de junho de 2013. Antes, havia uma democracia de coalizão; depois, emergiu uma democracia radicalizada, com efeitos permanentes, mas sem direção política clara e previsível. Esta é uma das principais conclusões do professor de Comunicação da Universidade Federal do Paraná (UFPR) Mário Messagi Júnior no livro “Outros Junhos Virão: Protestos Organizados em Rede e as Democracias Radicalizadas”. Editado pela Kotter, o livro será lançado amanhã (27), no Mímesis Conexões Artísticas, em Curitiba.

Manifestantes ocupam o Congresso Nacional em junho de 2013. Foto: EBC/Divulgação

O livro é o resultado de uma pesquisa quantitativa realizada com jovens
de 15 a 29 anos de Curitiba no segundo semestre de 2013. A amostra tem 576 coletas e foi estratificada segundo os dados do IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística). O questionário levantou diversas questões, algumas muito debatidas durante e depois de 2013, como o caráter ideológico do movimento (esquerda ou direita), o papel das redes sociais e dos meios tradicionais, o perfil dos jovens que foram para as ruas e o que os motivou ou desmotivou para protestar.

Já é possível comprar o livro pelo site da Kotter e da Amazon (e-book).

Os dados confirmam algumas hipóteses correntes, como a de que
houve uma inflexão à direita ao longo dos protestos, mas rejeitam outras,
como a de que os jovens que foram para a rua eram de direita.
Majoritariamente, o perfil é progressista. Além disso, aqueles que protestaram estavam mais à esquerda que os que ficaram em casa. Enfim, junho de 2013 ainda precisa ser esclarecido e melhor compreendido, como afirma Mário Messagi Júnior nas questões que ele respondeu para este blog:

Os protestos de junho foram mal compreendidos e/ou mal analisados, pela imprensa e sociedade?
Os protestos foram pouco compreendidos. Boa parte das explicações foram apresentadas no calor do momento e fazem mais parte da tentativa de atribuir sentido, significado ao evento do que ao esforço legítimo de entendê-lo. Fazem parte de uma disputa de narrativa, muito forte em acontecimentos com esta característica. No Brasil e no mundo, vários protestos já foram e continuam sendo organizados de forma distribuída, ou seja, construídos a muitas mãos. Muitas vezes, as pessoas que constroem estes protestos têm apenas um adversário comum, real (como um governo) ou abstrato (como o sistema político), mas não uma agenda comum. Isto acaba se expressando nas ruas, em demandas muito amplas, por vezes contraditórias. Com esta característica, estes movimentos não conseguem, eles mesmos, dizer o que significam, como aconteceu recentemente com os coletes amarelos da França. E isso abre margem para que atores diversos, de forma honesta ou interessada, tentem eles explicar o que significam estes movimentos. De certo e claro, estes movimentos têm poucos consensos, em geral são: 1) Algo nos incomoda (geralmente o que incomoda são coisas distintas); 2) Identificamos um inimigo comum; 3) Queremos ser ouvidos; 4) Estamos dispostos a radicalizar.

O título do livro e alguns estudos sobre os protestos de junho de 2013 indicam que essas manifestações não acabaram, mas se transformaram. Se transformaram em quê?
No livro, afirmo que junho vai se repetir (está se repetindo), mas é claro que não da mesma forma que em 2013. Ali, foi a estreia, e atores de matizes ideológicas opostas foram para as ruas, não exatamente juntos, mas disputando a hegemonia do movimento, que foi da esquerda no começo e no fim, e da direita no meio (exatamente quando os protestos foram maiores). Não creio que estes atores voltarão para as ruas juntos, mas desde 2013 têm organizado eventos com características parecidas, cada um dos seu lado. Exemplo: os grandes protestos pelo impeachment, pela direita, e as ações contra o fim do Ministério da Cultura pelo governo Temer, pela esquerda. Mas há algo que todos os jovens disseram, de forma imatura às vezes, de forma autoritária eventualmente: queremos ser ouvidos. O exemplo da França mostra como uma das respostas seria abrir o sistema, como fez Macron com o Grande Debate Nacional. No Brasil, tentaram blindar o sistema, tentaram diminuir o espaço de debate. Não funcionou. Se o sistema não oferece espaço de diálogo, não se torna mais permeável, o radicalismo continua e as saídas autoritárias parecem, para muitos, o único caminho. Junho não é responsável por Bolsonaro, mas Bolsonaro é um capitulo da história que começou ali.

SERVIÇO
Lançamento do livro “Outros Junhos Virão: Protestos Organizados em Rede e as Democracias Radicalizadas”.
Dia 27 de junho, às 19h.
Local: Mímesis Conexões Artísticas (Rua Celestino Junior, 189, São Francisco, Curitiba)




Ouça “Agora”, prévia do primeiro álbum solo de Diego Perin

O ator e músico Diego Perin, ex-baixista da Banda Gentileza, lança nas plataformas digitais no dia 28 de junho (sexta-feira) seu primeiro álbum solo, “Cuidado ao Ficar Muito à Vontade” (que título!). Nesta terça-feira (25), Perin, em parceria com a Hai Studio, disponibilizou o vídeo da última faixa do disco, “Agora”:

Com Perin na guitarra e Vinicius Nisi nos teclados e efeitos, a música adianta o possível tom político, porém otimista, do álbum. O “viver o presente” da maneira mais efetiva parece ser a mensagem desta faixa, que à sua maneira cita uma conhecida passagem do filósofo Heráclito: “ninguém se banha no mesmo rio duas vezes”.

Foto da capa: Nicolas Salazar

“Cuidado ao Ficar Muito à Vontade” sucede o EP “Cabresto”, lançado por Perin em março de 2018. O vídeo é trabalho de Luciano Meirelles e Leticiah F. O áudio é de João Balzer.

Romantismo e autocomiseração estragam “Democracia em Vertigem”

Gostaria de ter estreado o blog nesta nova casa antes, falando sobre o documentário “Banquete Coutinho”, de Josafá Veloso. O filme exibido no dia 5 de junho abriu o Festival Internacional Olhar de Cinema deste ano. Mas o tempo foi curto e o acaso quase sempre tem um recado. Por isso, foi providencial a estreia na Netflix do filme “Democracia em Vertigem”, de Petra Costa. Em ambos os casos, já existia uma tese previamente estabelecida para nos apresentar o “tema”: a vida e a obra do maior documentarista do país; e o momento desafiador da democracia brasileira pós-PT.

Quando já se tem uma premissa antes da investigação (jornalística, documental, cinematográfica) o resultado é quase sempre desalentador, artificial e de pouca contribuição para o debate e para o diálogo, já que reafirma suas próprias opiniões a qualquer custo. É como o jornalista que sai da redação com uma pauta pré-definida e fecha olhos e ouvidos para o mundo ao tentar prová-la.

Obviamente é melhor ter “Banquete Coutinho” à disposição do que não tê-lo. O documentário parte da tese de que Coutinho fazia sempre o mesmo filme, e se aproveita de uma das poucas longas entrevistas que o cineasta de “Cabra Marcado Para Morrer” concedeu em vida. Josafá Veloso alterna uma espécie de “melhores momentos” da obra de Coutinho com reflexões filosóficas de ambos, como se quisesse justificar as cenas escolhidas. Coutinho previsivelmente assume uma persona na entrevista, e os melhores momentos são quando o vemos conscientemente distanciado de sua obra (e neste caso da tese de Josafá): cantando, explicando porque fuma, sorrindo. Coutinho foi quem deslocou o sentido do ato de entrevistar, com ênfase em paciência, pesquisa, entrega e silêncio. Por isso tenho a certeza de que nenhum de seus filmes surgiu a partir de uma tese. Foram encontros e acasos em comunhão com um olhar atento e incômodo sobre o mundo, particularmente sobre o Brasil. Novamente, é melhor ter “Banquete Coutinho” à disposição do que não tê-lo. Mas é um filme mal aproveitado, que soa arrogante e pretensioso mesmo que o intuito seja a homenagem.

A admiração e a proximidade à prova de questionamentos, quase promíscua, também é o ponto fraco de “Democracia em Vertigem”. O filme tem um olhar ultrarromântico sobre os governos de Lula e Dilma. Como o bizarro “documentário” “1964- O Brasil entre Armas e Livros”, lançado em março, a obra fala para os convertidos, embora com mais elegância e sensibilidade.

A tese simplista e demasiadamente engajada apresentada por Petra (que ao longo do filme cansa com sua narração chorosa em off), é a de que a democracia no Brasil começou a ruir, ou a entrar em vertigem, desde o impeachment de Dilma. Desde o fim do governo PT. Como apontou o amigo e poeta Rubens Akira Kuana, “não há absolutamente nada sobre Belo Monte e o genocídio indígena. Com a exceção de Eduardo Cunha, nadica de nada sobre o espaço e o poder que o PT concedeu aos evangélicos. Nada sobre criminalização dos protestos e leis antiterroristas. Nada sobre o apagão no trabalho de base do PT. Nada sobre o projeto de ‘conciliação de classes’ que Lula iniciou. Nada sobre a despolitização das pessoas. Nada sobre a bagunça que foi a campanha de Haddad ano passado. Nada. Bolsonaro simplesmente brotou dos porões da ditadura, foi direto para a votação do impeachment e depois para o Palácio do Planalto.”

Em “Democracia em Vertigem” há bastante espaço dedicado às reais transformações sociais dos governos Dilma e Lula (Bolsa Família, cotas e o aumento de universidades públicas). Há imagens de Lula e Dilma em momentos descontraídos, os bastidores do impeachment, os momentos que antecederam a prisão de Lula, e áudios e entrevistas de um jogo sujo que confirmam o golpe de 2016. Mas que, para qualquer brasileiro de bom senso e minimamente informado, servem mais para reavivar um senso de injustiça judicial do que como entendimento do porquê estarmos numa vertigem democrática.

Como não poderia deixar de ser, há uma enxurrada de imagens e declarações violentas e antidemocráticas de manifestantes de direita. É um novo soco no estômago, mas dessa vez gratuito. A certa altura do filme, as alianças firmadas são descritas, numa imagem de alto poder semiótico na posse de Dilma, e numa declaração de Lula, como os principais erros do PT. “Se Jesus viesse ao Brasil teria que fazer alianças até com Judas.”

Petra Costa é filha de Marília Andrade, herdeira da gigantesca construtora Andrade Gutierrez, investigada pela Operação Lava Jato. É interessante notar como a cineasta aborda essa relação com certo distanciamento, mea-culpa retroativa e bom senso. Justamente o que lhe faltou ao construir a frágil narrativa de seu documentário. “Democracia em Vertigem” identifica o PT como sinônimo de esquerda possível e lamenta que o fim da democracia esteja próximo por falhas que ela mesma não soube, ou não teve coragem de explicar.

Entre outras tantas guerras (semânticas, virtuais, de empoderamento), vivemos uma guerra de narrativas. Por isso, e talvez só por isso, é melhor ter “Democracia em Vertigem” à disposição do que não tê-lo.