Novidades na quarentena: ouça Juliana Cortes e Julio Borba

Como vão de quarentena? Não se esqueçam de se espreguiçar. De ouvir quem se preocupa com você. De tomar sol. Por estes dias meio estranhos que talvez nos ofereçam a nova normalidade, a música segue como aliada indispensável. E dois lançamentos recentes aqui da terrinha merecem sua atenção.

A cantora e compositora Juliana Cortes divulgou há poucos dias o single “Andorinhas”. Esta é a faixa escolhida para apresentar seu novo disco, “Álbum 3”, sucessor de “Invento” (2013) e do ótimo “Gris” (2016). A canção é um poema musicado, escrito por João Ortácio e Guilherme Becker.

O músico e produtor Ian Ramil assina a produção do álbum, e assim dá início à parceria com Juliana, que havia trabalhado com seu pai, Vitor Ramil, em seus dois discos anteriores. Juliana explica que o single “representa uma fusão de linguagens minimalistas”. O arranjo foi criado de forma coletiva, e o resultado é uma interpretação experimental, com vocal em registrado em três oitavas diferentes. “Registramos sensações e impressões daquele instante em conjunto, no estúdio. Da escuta, criou-se as camadas da rabeca e banjo que costuram toda a música. ‘Andorinhas’ é uma faixa em que estão presentes todos os elementos do disco, especialmente na forma mais direta do meu canto. Além disso, a canção traz uma poesia singela que insiste em existir na dureza de uma cidade com suas tantas delicadezas”, explica Juliana.

O terceiro álbum da artista é resultado de um processo de imersão que reuniu compositores e poetas de duas capitais sulistas brasileiras: Curitiba e Porto Alegre. Buscando novas manifestações, interferências e experiências, Juliana Cortes convidou artistas dispostos a pensar e questionar as relações estético-culturais das suas cidades e de suas próprias produções para a criação de uma obra completa. De Curitiba, Estrela Leminski, Rodrigo Lemos e Juliana Cortes. De Porto Alegre, Ian Ramil, Guilherme Ceron, Zelito Ramos e Guilherme Becker. Em conjunto, após quatro dias de residência artística em Curitiba, 9 obras inéditas foram compostas para o registro do disco.

Ouça o single “Andorinhas”:

Outro lançamento importante e inspirador por esses dias é “Entroncamento”, primeiro disco do violonista Julio Borba, mais nova empreitada do selo Onça Discos. Nascido no Mato Grosso do Sul, Julio radicou-se em Curitiba a fim de pesquisar a música instrumental de seu estado natal, com foco no chamamé, gênero regional que tem como principais referências os acordeonistas Zé Correa e Dino Rocha.

Julio já tocou com Rosa Passos, Lula Galvão e João Egashira e fez um show memorável no Curitiba Jazz Festival de 2018. “Entroncamento” tem direção musical de Santiago Beis, e um trio de instrumentistas igualmente afiados: além de Julio no violão 7 cordas, há Pedro Mila na bateria e Leonardo Lopes no contrabaixo acústico elétrico.

Com 10 faixas, o álbum é um chamamento: à contemplação, à essência das coisas, ao pé no chão. Sonoridades bucólicas e cosmopolitas se confundem justamente no encontro dos músicos no chamamé, gênero naturalmente cativante.

Ouça o álbum “Entroncamento”:

Novo filme de Aly Muritiba dá voz a jovens da periferia de Curitiba

“Nóis por Nóis”, novo filme de Aly Muritiba e Jandir Santin, estreia nesta quinta-feira, 12 de março. O longa-metragem acompanha a vida de jovens da Vila Sabará, comunidade da periferia de Curitiba. Com atores profissionais e amadores, o filme aborda o movimento negro e a cultura periférica do Brasil, incluindo o rap e o hip hop (assista ao trailer abaixo).

A Vila Sabará é a maior ocupação urbana de Curitiba e tem um longo histórico de luta e resistência. A ideia do filme partiu de Jandir Santin, que atuava como educador na comunidade. O foco é retratar o cotidiano de meninas e meninos que tentam sobreviver e criar naquele ambiente adverso.

Depois de falar sobre bullying virtual em “Ferrugem”, Muritiba revisita esse universo com “Nóis por Nóis”, mas com diferentes abordagens. “As questões que atravessam os jovens periféricos são de outra natureza, são mais urgentes e diretas, menos existencialistas e mais físicas. O simples fato de estar no mundo, de se locomover nas ruas, já constitui uma situação de insegurança quando se é preto, pardo ou ‘mina’. É por isso que neste filme os corpos estão nas ruas, ocupando e reivindicando o direito à existência”, explica o diretor.

“Nóis por Nóis” tem distribuição da Olhar.

Ficha técnica:  
2018 | Brasil | DCP| 89 min.
Com Ma Ry (Mari), Matheus Moura (Japa), Maicon Douglas (Gui), Otávio Linhares (Cabo Rocha), Luiz Bertazzo (Nando), Matheus Correa (Café), Stephanie Fernandes (Jana), Felipe Shat (Shat)
Classificação indicativa: a verificar
Sinopse: O Baile rola solto e enquanto o RAP ecoa das caixas de som, quatro amigos vagam pela pista com objetivos bem distintos. O que eles não sabem é que seus destinos estarão selados para sempre após esta noite.

Orquestra Sinfônica executa trilha de “2001: Uma Odisseia no Espaço”

Em outra galáxia, a evolução humana. Do macaco surge o homem, a tecnologia, a inteligência artificial, o realismo científico e ainda mais indagações. Esta é – mais ou menos – a premissa do sempre impactante e influente filme “2001: Uma Odisseia no Espaço” (1968), do diretor, produtor e roteirista norte-americano Stanley Kubrick (1928-1999).

Efeitos especiais pioneiros, imagens ambíguas que se aproximam do surrealismo, e a trilha sonora memorável fazem do longa-metragem uma das obras mais impressionantes do cinema. Para homenagear o clássico, a Orquestra Sinfônica do Paraná realiza a 3ª edição da série Clássicos Universais com o concerto “Assim Falou Kubrick”. O espetáculo acontece no dia 15 de março, às 10h30, no Teatro Guaíra. Nos dias 10 e 11 de março serão promovidos ensaios abertos para crianças das redes pública e privada de ensino, no Grande Auditório do Teatro Positivo.

O concerto será regido por Stefan Geiger, maestro alemão que está à frente da Orquestra Sinfônica do Paraná. Serão executadas quatro obras da trilha sonora do filme e uma faixa bônus, composta por John Williams para o filme “Contatos Imediatos de Terceiro Grau” (1978).

Cena de “2001: Uma Odisseia no Espaço”. Foto: Reprodução

Compositores
Os compositores das trilhas sonoras são György Ligeti, Aram Kachaturian, Richard Strauss, Johann Strauss II e John Williams. O húngaro György Ligeti foi um dos vanguardistas mais importantes da segunda metade do século XX. Junto a Boulez, Berio, Stockhausen e Cage, é considerado um dos caras mais inovadores e influentes do seu tempo. Seus trabalhos iniciais foram influenciados pelos conterrâneos Bela Bartók e Zoltán Kodály e, como eles, Ligeti estudou e transcreveu diversas obras de música folclórica húngara. Aram Kachaturian foi um compositor armênio nascido em Tbilisi, Georgia. Ao lado de Sergei Prokofiev e Dmitri Shostakovich, Kachaturian é um dos grandes compositores do período soviético. O adágio de seu ballet “Gayane” também será apresentado pela Orquestra Sinfônica do Paraná neste concerto.

De Strauss, a composição escolhida por Kubrick para ilustrar as extensas cenas de estações espaciais e suas aterrissagens lunares foi a valsa “Danúbio Azul”. O último compositor presente no repertório  é John Williams, que nasceu em Nova Iorque em 1932. Desde a década de 1970, Williams elaborou a trilha sonora de mais de 100 filmes: “Tubarão” (1975), todos da série “Star Wars”, “E.T”. (1982), “A Lista de Schindler” (1993), e “Contatos Imediatos de Terceiro Grau” (1978). Foi ganhador de cinco Oscars e recebeu um número recorde de indicações.

Maestro Stefan Geiger e parte da Orquestra Sinfônica do Paraná. Foto: Divulgação

Popularização
Idealizado pelo Instituto de Apoio à Orquestra Sinfônica do Paraná (IAOSP) para democratizar a música clássica, o projeto Clássicos Universais traz, em cada edição, obras consagradas mundialmente. São apresentações com composições que, de alguma forma, já permeiam o imaginário popular.

O concerto tem patrocínio do Grupo Positivo, incentivo do Ministério da Cidadania, Secretaria Especial da Cultura e Governo Federal por meio da Lei Rouanet.

SERVIÇO
Série Clássicos Universais – Assim Falou Kubrick
15 de março (domingo) às 10h30.
Classificação: livre
Ingressos: R$ 20 (inteira) e R$ 10 (meia), à venda pelos site ticketfacil.
Teatro Guaíra (Rua Amintas de Barros, S/N – Centro)
Mais informações: www.apoiosinfonicaparana.com.br

Ana Frango Elétrico: “A poesia é um atalho contra a saturação da realidade”

Ana Frango Elétrico, 22 anos. O divertido estranhamento causado por seu nome artístico é também o principal indício da sonoridade sinestésica desta carioca – cantora, compositora e escritora. Ana foi escolhida como artista revelação pelo prêmio da Associação Paulista de Críticos de Arte (APCA) de 2019, e indicada ao Women’s Music Event na categoria “Escute as Minas”.

Ela lançou dois discos: “Mormaço Queima”, de 2018. E “Little Electric Chicken Heart”, do ano passado. Com ranço do termo Nova MPB”, Ana propõe jogos. De palavras, de recortes imagéticos em suas letras, ora surreais ora ingênuas, e sonoros. Rogério Duprat, o arranjador oficial do tropicalismo, ficaria feliz em ouvir a jazzística “Saudade”, que abre seu segundo álbum.

Foto: Divulgação

A liberdade criativa de Yoko Ono, David Bowie, Björk e Ava Rocha também são referências. Antes que lhe cancelem por falta de talento específico, é bom avisar que Ana Frango Elétrico, ao que parece, brinca de cantar e compor, sem esquecer de seu lugar no mundo pós-moderno. “Sou homem-bicho-mulher”, diz a garota, que tem admiração pela música brasileira, mas busca, ao seu jeito, romper com algum cordão umbilical ainda retroativo.

Ana Franco Elétrico é uma das atrações do Libélula de Carnaval 2020, que começa amanhã (21) e segue até terça-feira (25) na chácara do Tio Miro, em São José dos Pinhais, região metropolitana de Curitiba. Chico César, Bananeira Brass Band, Trupe Chá de Boldo e Charme Chulo também estão na programação. Ela se apresenta no domingo (23), às 22h. No dia 29 de março, ela faz show em Curitiba. Na entrevista abaixo, Ana falou sobre sua relação com as redes sociais, sobre a necropolítica vigente, sobre a falência da Nova MPB e avisou que lança, neste ano, seu primeiro livro. “Porque a poesia possibilita utopias”.

– Você conhece Curitiba e região, já esteve por aqui?
Nunca. Vai ser a primeira vez. Conheço por meio de alguns amigos do teatro e da música, como o [ator, poeta e compositor] Luiz Felipe Leprevost. Tem muita coisa rolando aí, né? Uma coisa legal é que o algoritmo do Spotify me diz que muita gente de Curitiba ouve a minha música.

– Como será o show nesse ambiente familiar, de comunidade alternativa, proposta pelo Festival Libélula?
Fiquei muito feliz com o convite porque acho que aos poucos a gente perdeu a cultura desse tipo de festival. De estar na natureza, em comunhão com pessoas de várias idades. Estou muito animada mesmo. Meu show vai ser o do segundo álbum, com releituras de músicas do primeiro. Há músicas com uma pegada nostálgica e melancólica, mas também me baseio no cinema e no teatro para criar as apresentações. Vou estrear um show novo no festival, com novo roteiro e algumas surpresas.

– Quem mais te acompanha no palco?
Antônio Neves no trombone, Eduardo Santana no trompete, Guilherme Lírio na guitarra, Vovô Bebê no baixo e Marcelo Callado na bateria. [Guilherme Lírio é um dos caras do Exército de Bebês, banda formada por alguns dos principais músicos da nova cena carioca. Marcelo Callado faz parte da banda Do Amor e foi baterista da Banda Cê, que acompanhou Caetano Veloso em sua última trilogia].

– Falando sobre o seu nome artístico. É uma espécie de homenagem torta a seu avô, mas ao mesmo tempo uma crítica a questões patriarcais e de gênero. Aquela coisa de não usar o sobrenome do homem…
Homenagem não… Meu sobrenome é Fainguelernt, vem do meu avô e tem origem russa. O grande lance pra mim, para além da luta contra esse reflexo do patriarcado, é a questão da libertação de ego. Da possibilidade artística. Criei a Ana Frango Elétrico e estou descobrindo quem é essa persona. Hoje, sou homem-bicho-mulher.

– Na identidade visual, e nas músicas, você trabalha também questões importantes como gênero e identidade. Acha que esse tipo de abordagem é cada vez mais necessária e esclarecedora?
Sim, é totalmente natural pra mim. Eu não tenho letras politicamente binárias porque acho que estou num processo de descoberta interna. Tenho 22 anos, né? E minha pesquisa é ligada à poesia. Sinto uma insatisfação com a falta de expansão da poesia nos vários campos artísticos. Insatisfação com a forma que a poesia se apresenta. No primeiro disco, fiz uma escolha de produção específica: não exaltar a canção ao vivo. Nesse ano, vou gravar um compacto com releituras do primeiro álbum, e talvez mude alguma coisa nessa abordagem, nos temas.

– Você é uma millenial, faz parte de uma geração que já nasceu com internet, celular. Você é muito ligada em redes sociais, prefere o contato real ou dá pra conciliar tudo isso?
Sou muito ligada. No Instagram principalmente, porque adoro imagens. Arquivo coisas, faço álbuns, divulgo meu trabalho. Mas parece que cada show e festival tem uma estética, e um público diferente, e às vezes não consigo dar conta de tudo. Tenho outra conta para amigos íntimos… Mas eu cresci em outro contexto. Foi num condomínio na beira da Favela do Morro dos Prazeres [zona sul do Rio de Janeiro]. Jogava bola na rua, tenho uma casca grossa no meu pé, fazia cabana no mato, meu pai foi criador de abelhas. Acho que isso me construiu mais do que a internet, que entrou depois na minha vida.

– Sua música é colorida, tem cheiro, é sinestésica. Algumas letras são quase surreais e é visível seu apreço pela palavra. Você é uma leitora também? De quê?
Sou leitora de poesia. Comecei a gostar de palavra com a poesia. Tenho dificuldade com leituras longas, me distraio. Na poesia, me vejo num lugar muito interessante, de apreço. E que pode ser fácil também. É bizarro como o contato com a poesia é dificultado escola, por vários motivos. Uma das coisas que gosto de fazer é trazer a poesia para a vida. Às vezes pode ser surreal, mas não só isso. São colagens da realidade. Coisa de recorte da poesia. Todo mundo sente frio, sente tesão, sai para passear com o cachorro. É um atalho para evitar a saturação da realidade. Um pingo de utopia inesperado. Porque a poesia ficou tão distante… e se vai além da realidade, já é engraçado ou surreal. Estou lendo [Vladimir] Maiakovski [poeta soviético, 1883-1930] para a minha mãe, que está em processo de recuperação. E vou lançar um livro em julho, com uma coletânea de textos desde 2015: “Escoliose: Paralelismo Miúdo” (independente).

– Sei que você não gosta do termo nova MPB, porque na verdade é quase um paradoxo, mas a expressão pós-MPB parece fazer algum sentido, né?
Faz mais. Nova MPB é um termo falido porque nunca aconteceu. A gente entendeu o que ele é, mas poderia ser descrito e vivido de uma maneira mais humilde, aí eu me encaixaria. Sou pós-tudo isso. Gosto de ilhas estéticas, e cada artista entende o que elas são: misturas, underlines. Já defini minha música como bossa-pop-rock-decadente com pinceladas punk. Agora estou mais para rock-balada-jazz. O conceito musical do que é moderno já começou a dar a volta. Pra ser moderno, não precisa estar no hype. E essa Nova MPB já entendemos muito claramente: sabemos o som do violão, da percussão. Sou mais da pós-Tropicália, da pós-Nova MPB. Estou tirando as coisas de mim, é um processo de ruptura.

– Você é carioca, vive numa cidade administrada por um pastor evangélico que tentou censurar livros, o estado é governado por um sujeito que comemora morte de outras pessoas. Este nosso momento, tão indigno e grotesco, acaba por influenciar seu trabalho de alguma forma?
Com certeza. Me afirmo contra a essa política de governo que sucateia tudo o que é importante. Isso me move muito em relação a pensamentos, conversas, encontros. Aí penso no que posso fazer. Minha irmã trabalha com ribeirinhos no Pará, e absorvo essa luta. As minhas canções são mais poéticas, e isso é importante neste momento. Vivemos essa realidade da necropolítica. E a poesia possibilita utopias. Precisamos ouvir mais. Ouvir as mulheres, as negras, as trans. Eu não falo tanto porque tenho noção dos meus privilégios e sou classe média e branca. E me incomoda muito branco classe média falando pra caralho sobre temas tão importantes. Pesquiso muito antes de falar sobre isso, mas é preciso agir contra esses babacas fascistas do meu estado e do Brasil.

O Torto, o cancelamento e o ódio do bem

O mundo é um moinho, cantava Cartola, sempre afeito à poesia da verdade. A agressão de Arlindo Ventura, o Magrão, a uma mulher negra na última terça-feira (4), surpreendeu, indignou, comoveu e revoltou parte de Curitiba. Porque o Torto, pensava, pensávamos (?), era um ponto de encontro seguro de gente interessante e interessada.

Confesso, e esta é uma mea-culpa, que nestes 10 anos frequentando o boteco, nunca chegaram até mim relatos de casos de agressão, constrangimento, racismo e homofobia por parte de Magrão. Provavelmente porque eu sou homem, cis e branco. Talvez porque seu carisma fosse na verdade uma armadura mentirosa construída com habilidade. Magrão é uma figura quase pública, quase política, que promoveu eventos democráticos na rua numa época em que isso não era bem-visto pelos curitibanos de pantufa, nem pelas autoridades que já engatilhavam um protofascismo. Suas “campanhas” eram a favor da diversidade, da ciclomobilidade e de outras ades e ismos conectados com algum pedaço de ideologia comum a quem justamente se surpreendeu, indignou, comoveu e revoltou. Para além do meu desconhecimento sobre seu passado controverso, que agora se ilumina com inúmeros relatos abomináveis, existe um contexto histórico mais amplo e profundo, que contradiz suas ações. Me vi embrulhado neste paradoxo quando comentei a matéria do Plural, na manhã de quarta-feira.

Recebi fotos do episódio na noite em que ele ocorreu. Na manhã seguinte, pipocavam relatos diversos e, acredite, contraditórios. A maioria deles confirmava a agressão. Justamente pela gravidade do caso, um jornalismo sério e informativo seria importante. Mesmo o admirável colega Rogerio Galindo – que fez um trabalho muito digno sobre isso, diga-se – penou para achar uma versão jornalística que satisfizesse a isenção presumida da profissão e o engajamento necessário em tempos cada vez mais dialéticos, em que a busca pela transparência se confunde com posicionamento ou a falta dele. E apurar, checar, ouvir, duvidar, não é tomar partido. Nem ser a favor de qualquer tipo de violência. Nem “passar pano” – que expressão absolutamente vazia, aliás.

Foto: Leandro Taques

Torço firmemente para que se faça justiça para a mulher agredida. E também, como jornalista e interessado no caso, espero ouvir sua versão – a publicação do termo circunstanciado não foi autorizada por ela, por motivos que não nos cabe questionar. Repúdio, indignação e solidariedade à parte, o que me interessa, ainda, é a busca pela capacidade da mediação e do diálogo em tempos de de julgamentos instantâneos (corretos ou não) e de liquefação da realidade.

Se ignorarmos o contexto histórico das coisas e perdemos a capacidade de reflexão, mesmo sobre o racismo ou o que é mais indignante, nos colocamos à deriva e nos aproximamos de uma barbárie camuflada, cada vez mais. O fim da história, nesse sentido, enaltece a criação de Estórias, baseadas em narrativas independentes de sua própria criação ou origem, que também podem ser violentas. Abomino a ação de Magrão, mas quero entender por que ele fez isso, justamente para que ele não dê exemplos igualmente hediondos, dada a figura pseudo-pública e pseudo-política que é e a influência que tem.

Vivemos um processo importante, constante e necessário de desconstrução de paradigmas, estigmas e preconceitos inconscientes. O esclarecimento, o diálogo e o afeto contribuem para que sejamos mais tolerantes e atentos, mesmo que gozemos de privilégios raciais, de gênero e econômicos. O que vi e vivi virtualmente por uns dias, no entanto, foi a tentativa da desconstrução de forma irascível e contraprodutiva, que não dá exemplos, mas reforça o que combate, numa espiral louca de criação de narrativas que acabam por esmagar a origem do fato para que se tenha um mínimo de espaço de desengasgo e lacração. E estamos engasgados, não há dúvidas.

Momentos depois da minha postagem, ainda na manhã de quarta-feira, comentários tão agressivos quanto surreais sugeriam que o machista e o racista da vez era eu. Houve quem ordenasse que o post deveria ser apagado, numa censura impulsiva e contraditória tão triste quanto hipócrita. “Argumentos” vinham em forma de gifs e hashtags, na confirmação de que tudo está se tornando mesmo líquido, superficial e irresponsável, mesmo quando o papo é sobre um fato lamentável dessa proporção.

Na última quinta-feira, o filósofo e cientista social Fernando Schüler publicou um artigo providencial na Folha de S.Paulo, cujo título é “O ódio do bem”. O ponto mais interessante é este: “Fascinante é esse fenômeno do ódio do bem. Significa o seguinte: eu cuspo no outro, chamo de fascista, digo que ele destrói a democracia, a civilização, que nem sequer devia existir. Mas excluo meu ódio do conceito de intolerância. E durmo tranquilo”.

Mesmo em situações injustificáveis, talvez precisemos do mínimo de empatia para que, no fundo, não percamos o que nos resta de noção de sociedade, incluindo aí seus conflitos e tensões intrínsecos e eternos. Não é o caso de ir ao Torto e tomar uma bera, mas racionalizar, no meio da loucura imposta, sobre como às vezes nos comportamos da mesma forma que aqueles que mais execramos. Porque nosso ódio sempre estará latente, mesmo que você o sublime culpando uma causa maior.

Na quarta-feira à noite houve um protesto em frente ao Torto. Palavras de ordem, cartazes, a representatividade justa de quem também se sentiu violentado. Mas, segundo relatos, lixo foi jogado dentro do bar e um sujeito quis sair na porrada com Magrão, para resolver o negócio à moda da barbárie, e de forma inconsciente se igualar a ele. Isso é hipocrisia de causa, um nó costurado com indignação histórica justificável, mas que encontrou um álibi para operar de forma contraproducente e igualmente violenta.

Nesse momento tão frágil de quase tudo, procuramos certitude em nossas ideologias e atos. Mas é perigoso ter a certeza de que se está do lado certo da história e achar que, por causa disso, vale tudo. Por que quem não está “de mãos dadas com a gente” pode também estar perdido, triste, ressentido. As ideologias estão cada vez mais sendo definidas não pelo que você acredita, mas pela negação de alguma coisa, ou pior, de pessoas. O desprezo muitas vezes é maior do que a capacidade de formar alianças. No Brasil de hoje, a definição do posicionamento político é dada pelo que você não gosta, e às vezes esse procedimento, na rua ou nas redes, não é um processo de politização útil, é só ameaça. Assim, a esquerda, ou seja lá como chamamos hoje essa ideologia que preza pela liberdade individual, pelo pacifismo e pela democracia de costumes, vira automaticamente uma censora.

É preciso ter algo para dizer, mesmo para um machista, um racista ou um homofóbico. “Cancelar” o outro é anular sua existência completamente. Na verdade é pior porque é fingir que esse outro não existe, quando na verdade ele existe e continuará a agir como sempre agiu se alguém não intervir de forma exemplar. É assumir, enfim, que não temos mais a capacidade de compreensão de alguém. É perder a chance de virar o jogo a nosso favor. Acho mesmo que é essa a chance que ainda temos.

O mundo é um moinho, mas moinho também faz vento.

Bienal de Arte Digital apresenta programa para “falar com Deus”

O Centro Cultural FIEP, a partir de hoje (4), e a Torre Panorâmica de Curitiba, a partir do dia 12 de fevereiro, recebem a Bienal de Arte Digital Laniakea – The Wrong, com 15 artistas nacionais e internacionais. Está é a maior e mais diversificada bienal do gênero. Em sua quarta edição, o evento promove exposições de arte digital em formatos online e offline. O conceito que guia a Laniakea deste ano são as diversas interpretações de “galáxia” e uma reflexão sobre o papel de cada um de nós no universo.

Garoto Transcodificado, de Rodrigo Faustini

Fundada pelo empreendedor cultural, escritor e artista espanhol David Quiles Guilló, desde 2013 a The Wrong tem o objetivo de criar, promover e fomentar o pensamento inovador artístico. Para Flávio Carvalho, curador da Bienal, o evento evoca a transformação da cidade e (na cidade) em vários aspectos.

Curitiba é, pela segunda vez, uma das Embaixadas da The Wrong, e nesta edição recebe o título Laniakea, que significa “paraíso imenso” em havaiano. Laniakea é um superaglomerado de galáxias da qual a Via Láctea faz parte. A descoberta foi feita em 2014 por astrônomos da Universidade do Havaí, liderados por R. Brent Tully.

Tux_and_Fanny, de Albert Birney

A inauguração oficial acontece nesta terça-feira (4), a partir das 7 da noite, com entrada gratuita e coquetel, no espaço “Black Box” do Centro Cultural FIEP. Como destaques, a curadoria apresenta pela primeira vez no Brasil o longa-metragem em animação de 8 bits do artista norte-americano Albert Birney. Outra atração é uma homenagem póstuma ao programador norte-americano Terry A. Davis, com o “TempleOS”. Desenvolvido durante 10 anos pelo programador, o sistema operacional foi criado “para falar com Deus”.

O artista argentino Franco Palioff apresenta um robô que tem como objetivo questionar as consequências da existência de um guru virtual. Já o artista suíço Dirk Koy exibe suas videoartes. Também participam os artistas paranaenses Miguel_Miguel.Miguel, Kennia Passos, Jack Holmer e o coletivo Qino Exp, formado por alunos da especialização em Intermídias Visuais da Universidade Tuiuti do Paraná. De São Paulo, participam Rodrigo Faustini e Modular Dreams.

Carousel, de Dirk Koy

Na Torre
Pela primeira vez na história da Torre Panorâmica de Curitiba (antiga Torre da Telepar), haverá uma exposição artística ocupando o mirante, dentro da programação da Laniakea – The Wrong. Compõem a mostra obras dos artistas paranaenses Mário de Alencar, Ana Lesnovski e Julie Fank, do pernambucano Brazilian Hardware e do italiano Lucas Zanotto. Os trabalhos que envolvem realidade aumentada, rede neural artificial, hipertextos e videoartes, dialogam com o cenário contemplativo, ao mesmo tempo em que respeitam o painel permanente de Poty Lazzarotto. A visitação ao espaço acontece a partir do dia 12 de fevereiro.

Seminários e oficinas
Para impulsionar a cultura digital serão ofertados gratuitamente seminários e oficinas ao longo do evento. Nesta edição, pela primeira vez serão realizadas oficinas para crianças com foco na arte e tecnologia. Os encontros acontecem entre os meses de fevereiro e março.

Nos ônibus
Também como parte da programação da Bienal, o público curitibano irá se deparar com videoartes apresentadas nas TVs de ônibus da cidade. São 600 ônibus e quatro terminais metropolitanos contemplados, com mais de 1.045 telas. As videoartes estão disponíveis também na rede de hotéis Deville, em cerca de 1.600 TVs, para hóspedes de qualquer unidade. Outra oportunidade de interação é o site oficial de ‘Laniakea – The Wrong’. Lá o usuário tem acesso às obras dos artistas em cartaz nas exposições físicas.

E mais: haverá uma área destinada ao relaxamento com o grupo Pineal, de pesquisas da consciência, demonstrando, em dias específicos, sessões de meditação por meio de realidade virtual e neurosensores.

SERVIÇO
LANIAKEA / THE WRONG – NEW DIGITAL ART BIENNALE
4/02/20 à 20/03/20
Centro Cultural FIEP / Black Box
Rua Paula Gomes, 270
São Francisco
Curitiba (PR)
Entrada gratuita

11/02/20 a 29/03/20
Torre Panorâmica
Rua Professor Lycio Grein Castro Vellozo, 191
Mercês
Curitiba (PR)
R$ 6 (inteira) / R$ 3(meia-entrada)

Mais em:
www.lani.digital
Facebook: Laniakea / The Wrong – New Digital Art Biennale
Instagram: @lani.digital

Bienal de Quadrinhos 2020 terá Arrigo Barnabé e Lourenço Mutarelli

“Música” é o tema da edição de 2020 da Bienal de Quadrinhos de Curitiba. A sexta edição do evento – um dos mais democráticos e agregadores da terrinha – acontece novamente no MuMA – Museu Municipal de Arte, no Portão Cultural, em Curitiba, entre os dias 6 e 9 de agosto de 2020.

A curadoria é do compositor e artista multimídia Vadeco; do pintor, quadrinista e ilustrador Fabio Zimbres; e de Mitie Taketani, proprietária da loja Itiban Comic Shop, reduto incentivador da nona arte em Curitiba há 30 anos. A música será o fio condutor dos debates, exposições, oficinas, festas, sessões de cinema, e da tradicional feira de quadrinhos do evento, totalmente gratuito, que novamente acontece em toda a área interna e externa do MuMA.

Alguns convidados já foram confirmados, como Arrigo Barnabé, Lourenço Mutarelli, Paula Puiupo e o italiano Tanino Liberatore. Se ligue aí:

Arrigo Barnabé
Músico, compositor, arranjador, escritor e ator, nasceu em Londrina (PR) em 1951. Logo com sua primeira obra, o disco “Clara Crocodilo” (1980), Arrigo foi recebido como a maior novidade musical do Brasil desde a Tropicália. Isso porque, em suas composições, há uma mistura azeitada de música erudita, ironia e letras ácidas sobre a vida urbana. A aproximação com o dodecafonismo também o destacou como um compositor único, provocador e vanguardista.

A obra de Arrigo Barnabé transita entre o inusitado, o erudito,o pop e o provocativo de maneira criativa e acessível. Delírio e compaixão andam de mãos dadas. Arrigo soa como o encontro entre John Cage e Frank Zappa, e nos faz acreditar na composição musical como forma natural de expressão sonora e visual.

Arrigo Barnabé. Foto: Divulgação

Arrigo escreveu diversas músicas para trilhas de filmes brasileiros, teve influência e participação em grupos e artistas como Itamar Assumpção, Rumo, Premeditando o Breque e Língua de Trapo, parte da turma que ficou conhecida como Vanguarda Paulista. Em 2019, Arrigo lançou seu primeiro livro, “No Fim da Infância” (Grafatório Edições).

Lourenço Mutarelli
Quadrinista, escritor e ator nascido em São Paulo, formado em Belas Artes. Um dos mais celebrados autores de quadrinhos do Brasil construiu um universo particular que lhe trouxe muitos seguidores. Seus primeiros trabalhos foram publicados por Marcatti nos anos 80. Em 1991, lançou seu primeiro álbum, “Transubstanciação”. A partir daí, produziu diversos álbuns, incluindo a trilogia com o detetive Diomedes: “O Dobro de Cinco”, “O Rei do Ponto” e “A Soma de Tudo I e II”. 

Em 2002 lançou seu primeiro romance, “O Cheiro do Ralo”, adaptado para o cinema em 2006. Teve mais dois livros adaptados para a sétima arte. Seu mais recente, “O Filho Mais Velho de Deus e/ou Livro IV”, foi lançado em 2018. Paralelamente, escreveu peças de teatro, trabalhou como ator e começou a pintar.

Lourenço Mutarelli. Foto: Adriano Vizoni/Folhapress

Ele já afirmou: “música é a minha religião”, e que esta arte também faz parte do seu processo de criação. Em 2019, Mutarelli lançou “Capa Preta” (Comixzone), que reúne as HQs “Transubstanciação”, “Desgraçados”, “Eu Te Amo, Lucimar” e “Confluência da Forquilha”, todas fora de catálogo no Brasil.

Tanino Liberatore
Desenhista italiano nascido na cidade de Quadri, estudou arquitetura e se dedicou à ilustração. Começou sua carreira nos quadrinhos em 1978, na revista Cannibale, na companhia de Andrea Pazienza e Stefano Tamburini. Foi por lá que desenhou a primeira versão de “RanXerox” (RankXerox), trabalho que ficou mais conhecido a partir de sua publicação na revista Frigidaire, e posteriormente em várias publicações no mundo  – no Brasil, saiu na revista Animal.

Tanino Liberatore. Foto: Divulgação

O álbum “Video-Clips” (1984) recolhe algumas de suas histórias curtas realizadas entre 1981, quando se mudou para Paris, e 1984, publicadas em diversas revistas. A partir daí, Liberatore se afastou dos quadrinhos e se dedicou principalmente a ilustrações, voltando eventualmente ao personagem RanXerox e a outros projetos. É muito conhecida a capa do disco “The Man from Utopia” (1982), de Frank Zappa. Mas além deste trabalho ele realizou outras ilustrações para discos, e cita a música como grande influenciadora do seu trabalho.

Luiz Gê
Artista homenageado desta edição, Luiz Gê foi um dos fundadores da revista Balão (1972-75), periódico que publicou quadrinhos de alunos da FAU e ECA na USP. Seu trabalho explora a linguagem dos quadrinhos em narrativas que misturam aventura, história, política e humor, em diálogo com seu interesse pelas cidades e arquitetura. Entre 1976 e 1984, fez charges para o jornal Folha de S. Paulo reunidas no livro “Macambúzios e Sorumbáticos” (1981). Em 1986, criou e editou a revista Circo na mesma época em que, nas bancas, saíram as revistas de seus colegas de geração, Angeli (“Chiclete com Banana”) e Laerte (“Os Piratas do Tietê”), publicações que ajudaram a formar toda uma geração de leitores e cartunistas.

Seus quadrinhos foram publicados em diversos veículos no Brasil e no exterior e vários álbuns recolheram esse material, como “Quadrinhos em Fúria” (1984) e “Território de Bravos” (1993).

Luiz Gê e os Tubarões Voadores.

A primeira parceria com Arrigo Barnabé foi a arte para a capa do disco “Clara Crocodilo” (1980) e o próprio LP revela uma afinidade com situações extraídas de histórias em quadrinhos, além do interesse pelo ambiente urbano típico do trabalho de Luis Gê. Outra parceria se deu com a história “Tubarões Voadores”, que acabou virando o segundo disco de Arrigo, em 1984. Nele, a história original foi impressa e recebeu uma música que seguia a narrativa e o tempo de leitura de cada quadrinho. Gê também fez a concepção para uma opereta de Arrigo, chamada “O Homem dos Crocodilos”.

Paula Puiupo
Nasceu em 1996 em Lisboa, de mãe paraibana e pai manauara. Atualmente reside em São Paulo. Paula produz quadrinhos, animação, tatua e flerta com a música. Uma das principais autoras da nova geração, tem um trabalho surpreendente, em que desfaz todas as regras narrativas para criar a sua própria – é mais menos como criar nossa vida ao mesmo tempo em que a vivemos. Sua pesquisa tem foco no experimental, em sentimentos de não pertencimento enquanto mulher lésbica e migrante.

Paula Puiupo. Foto: Divulgação

Publicou, entre outros títulos, “Eremitério” (2017), “Gume” (2018) e “Maunder” (2019, parte da coleção mini kuš). Participou da antologia “Topografias” (Selo Piqui, 2016). Fez ilustrações para “A Ilha do Tesouro” (Editora Antofágica, 2019). Faz parte do selo de publicações independentes PEPITO CORP ao lado de Adônis Pantazopoulos, Julia Balthazar e Flavushh. Aperta botões no projeto musical FUGA ao lado de Paola Rodrigues.

Grazi Fonseca
Quadrinista, vive em Porto Alegre. Começou a produzir fanzines em 2016: “Hay”, “Mar”, “Tempo, Passatempo” são seus zines independentes. Em 2018, publicou “Partir” (coleção Des.Gráfica/Mis), finalista do prêmio Dente de Ouro 2019.

Grazi Fonseca. Foto: Divulgação

Em 2019, participou da revista “Retruco” (independente) e da antologia “Cápsula” (O Quiabo 2019). Seu trabalho explora narrativas experimentais e autobiográficas. Com atenção particular ao ritmo e construídas com poucos elementos, suas histórias ganham dimensão quase abstrata que as aproximam da música. Etérea como o som e gráficas como uma partitura com o preto sólido ocupando lugar protagonista.

Ing Lee
Quadrinista e pesquisadora nascida em Belo Horizonte, graduada em Artes Visuais pela UFMG. Possui deficiência auditiva moderada bilateral, é filha de pai norte-coreano e mãe brasileira. É atuante no cenário de publicações independentes desde 2016 e faz quadrinhos desde 2018.

Co-fundou O Quiabo, selo de publicações independentes e eixo de experimentação gráfica (com Larissa Kamei). Autora de Karaokê Box, elaborado a partir de suas experiências com Karaokê.

Ing Lee. Foto: Divulgação

Uma das autoras da revista Sam Taegeuk (finalista do prêmio Dente de Ouro 2019 na categoria Quadrinhos). Tem influências do cinema do leste-asiático, com enfoque em Novo Cinema de Taiwan, Wong Kar-Wai, Bong Joon-Ho e Naomi Kawase. Em seus trabalhos, propõe-se a trazer questões envolvendo memória, identidade e a melancolia urbana.

João Sánchez
Formado em gravura pela Escola de Belas Artes da UFRJ, trabalhou em Madri de 2007 a 2011 em dois importantes ateliês de gravura da Espanha: Benveniste CP&P, conhecido por suas impressões de grande formato, e Taller Antonio Gayo, especializado em litografia.

João Sánchez. Foto: Divulgação

Criador do conhecido Estúdio Baren (Rio de Janeiro), ativo desde 2011, mantém paralelamente uma carreira em ilustração e artes gráficas. Em sua única incursão pelos quadrinhos, produziu com roteiros de Patati o álbum “Couro de Gato, Uma História do Samba” (2017). Com xilogravuras e desenhos derivados desta técnica, o álbum conta histórias relacionadas ao nascimento do gênero musical tipicamente brasileiro. Patati era roteirista e estudioso dos quadrinhos e um defensor do uso de temas brasileiros nas HQs. Faleceu no Rio de Janeiro em junho de 2018.

BIENAL DE QUADRINHOS DE CURITIBA
6 a 9 de agosto de 2020
MuMA – Museu Municipal de Arte (Portão Cultural)
Avenida República Argentina, 3430
Gratuito
Mais informações: www.bienaldequadrinhos.com.br

Bixiga 70 na praça: Curitiba Jazz Festival acontece neste fim de semana

A quarta edição do Curitiba Jazz Festival acontece gratuitamente nos dias 14 e 15 de dezembro (sábado e domingo) na Praça Afonso Botelho (Praça do Atlético). Serão artistas de diferentes vertentes da música brasileira, do choro ao jazz, do blues ao samba-rock, além de feira de vinil com 35 expositores, bazar de economia criativa, espaço kids e praça gastronômica.

No sábado (14), a partir das 11h, sobem ao palco Julião Boêmio, reconhecido cavaquinista e um dos nomes mais importantes do choro contemporâneo curitibano; o Lendário Chucrobillyman, projeto “one-man-band” do multi-instrumentista Klaus Koti; a banda paulista Bixiga 70, expoente da cena instrumental, que combina a música brasileira e latina com o afrobeat; a cantora Iria Braga, que retorna aos palcos de Curitiba após turnê na Argentina, na companhia do Cariguá Trio; e o percussionista Airto Moreira e a cantora Flora Purim. Airto e Flora serão acompanhados de Matheus Silva (bateria), Thiago Duarte (contrabaixo), Jeff Sabbag (piano), Emmanuel Bach (guitarra) e Helinho Brandão (saxofone).

Aos 78 anos, Airto segue sua trajetória como um dos mais importantes instrumentistas do mundo. Sua sonoridade genuinamente brasileira encontrou no jazz a melhor forma de expressão. O cantor e percussionista tocou ao lado de Miles Davis, Dizzy Gillespie, Chick Corea, Herbie Hancock, Paul Simon e Quincy Jones. Neste ano, lançou o disco “Aluê” (Selo Sesc), ao lado da esposa, a cantora Flora Purim. O disco foi gravado com músicos brasileiros em uma sessão ao vivo e contínua, bem ao seu estilo. Entre as atrações, o som fica por conta do projeto Petróleo, dos Djs Marky e Eduardo Brechó (fundador da banda Alafia).

Bixiga 70 divulga o disco “Quebra-Cabeça”

Quem começa os trabalhos no domingo (15), é a Orquestra de Harmônicas de Curitiba, grupo formado em 1979 que recria clássicos da música brasileira e internacional tendo como base a gaita de boca (harmônica); na sequência, é a vez do renomado Mano a Mano Trio, formado pelos bambas Glauco Sölter (contrabaixo), Sérgio Albach (clarinete) e Vina Lacerda (percussão); a programação segue com a flautista e arranjadora paulista Léa Freire, parceira de Joyce e de Jean Garfunkel. Ela se apresenta ao lado de Davi Sartori (piano), Denis Mariano (bateria) e Joel Muller (baixo). A programação segue com a black music antenada da paranaense Rubia Divino; por fim, a apresentação de João Triska na companhia da explosiva da banda Machete Bomb, com seu samba-rock-rap com direito a “cavaquinho distorcido”, encerra as apresentações do palco principal do Curitiba Jazz Festival 2019. O som durante as atrações fica a cargo do Funk You, projeto dos DJs Murillo Mongello e Schasko.

Airto Moreira

Comida, diversão e arte
Além dos shows na Praça do Atlético, o Curitiba Jazz Festival oferece feira de vinil com 35 expositores de diversos estados do país, um bazar de economia criativa com produtos de artistas locais, espaço kids para a diversão de crianças e uma praça gastronômica com 12 opções de lanches e refeições. O patrocínio é da Eisenbahn, e chopes da marca a preços promocionais estarão sendo vendidos até às 15h, nos dois dias de evento. Em sintonia com a sustentabilidade urgente, todos os copos serão no estilo “eco”, reutilizáveis – leve o seu! O Curitiba Jazz Festival também conta com segurança particular, tendas e áreas cobertas para proteção contra chuva e sol.

Esquenta
Uma festa de abertura do Curitiba Jazz Festival acontece a partir das 21h de sexta-feira (13), com as bandas Mumbai Express, Los Desterros (Florianópolis) e com o DJ Tha Redig. Soul, funk, samba-rock, latinindades e outras aventuras musicais estão no cardápio. No Basement Cultural – Rua Benvindo Valente, 260.

PROGRAMAÇÃO

SÁBADO (14/12)
Julião Boêmio 11h
O Lendário Chucrobillyman 13h
Bixiga 70 15h
Iria Braga & Cariguá Trio 17h
Airto Moreira e Flora Purim 19h
+Petróleo (DJs Marky e Eduardo Brechó)

DOMINGO (15/12)
Orquestra de Harmônicas de Curitiba 11h
Mano a Mano Trio 13h
Léa Freire 15h
Rubia Divino 17h
Machete Bomb & João Triska 19h
+ Funk You (DJs Murillo Mongello e Schasko)

SERVIÇO
Curitiba Jazz Festival
13 de dezembro de 2019, a partir das 21h (Basement Cultural)
14 e 15 de dezembro de 2019, a partir das 10h
Praça Afonso Botelho (Praça do Atlético)
Gratuito

Curitiba Jazz Festival confirma Airto Moreira e banda Bixiga 70

O Curitiba Jazz Festival confirmou as atrações de sua quarta edição, que acontece gratuitamente nos dias 14 e 15 de dezembro na Praça Afonso Botelho (Praça do Atlético), e em festas no Basement Cultural e no Jokers. Serão 20 artistas de diferentes vertentes da música brasileira, do choro ao jazz, do blues ao samba-rock.

Bixiga 70. Foto: Divulgação

No sábado (14), a partir das 10h, sobem ao palco O Lendário Chucrobillyman, projeto do “one man band” Klaus Koti; Julião Boêmio, reconhecido cavaquinista e um dos nomes mais importantes do choro contemporâneo; a banda paulista Bixiga 70, expoente da cena instrumental, que combina a música brasileira e latina com o afrobeat; a cantora Iria Braga, que retorna aos palcos de Curitiba após turnê na Argentina, na companhia do Cariguá Trio; e, fechando a programação de sábado, a lenda da percussão Airto Moreira e a cantora Flora Purim.

Aos 78 anos, Airto segue sua trajetória como um dos mais importantes instrumentistas do mundo. Sua sonoridade genuinamente brasileira encontrou no jazz a melhor forma de expressão. O cantor e percussionista tocou ao lado de Miles Davis, Dizzy Gillespie, Chick Corea, Herbie Hancock, Paul Simon e Quincy Jones. Neste ano, lançou o disco “Aluê” (Selo Sesc), ao lado da esposa, a cantora Flora Purim. O disco foi gravado com músicos brasileiros em uma sessão ao vivo e contínua, bem ao seu estilo.

Airto Moreira. Crédito: Renato Luiz Ferreira

Quem começa os trabalhos no domingo (15), é a Orquestra de Harmônicas de Curitiba, grupo formado em 1979 que recria clássicos da música brasileira e internacional tendo como base a gaita de boca (harmônica); na sequência, é a vez do renomado Mano a Mano Trio, formado pelos bambas Glauco Sölter (contrabaixo), Sérgio Albach (clarinete) e Vina Lacerda (percussão). A programação segue com a flautista e arranjadora paulista Léa Freire, parceira de Joyce e de Jean Garfunkel e com a black music antenada da paranaense Rubia Divino. Por fim, a apresentação explosiva de João Triska na companhia da Machete Bomb, com seu samba-rock-rap com direito a “cavaquinho distorcido”, encerra as apresentações do palco principal do Curitiba Jazz Festival 2019.

Extras
Além dos shows na Praça do Atlético, outras duas festas complementam a programação musical do Curitiba Jazz Festival 2019: uma pré-evento na sexta-feira (13), no Basement Cultural, com as bandas curitibana Plata o Plomo, a catarinense Los Desterros e mais uma atração a confrirmar. E outra no sábado (14), no Jokers, com uma jam session comandada por Helinho Brandão, Mário Conde e Davi Sartori. Os ingressos (limitados) estarão à venda n’A Caiçara (R. Dr. Claudino dos Santos, 90, Largo da Ordem) e no Expresso Curitiba Hostel e Coffee Bar (R. Alfredo Bufren, 323, Centro).

Assim como nos anos anteriores, a quarta edição do Curitiba Jazz Festival irá oferecer também exposições de vinis, feira gastronômica (com chopes e drinques) e espaço para crianças.

PROGRAMAÇÃO
Sábado (14/12)
O Lendário Chucrobillyman
Julião Boêmio
Bixiga 70
Iria Braga
Airto Moreira e Flora Purim

Domingo (15/12)
Orquestra de Harmônicas de Curitiba
Mano a Mano Trio
Léa Freire
Rubia Divino
Machete Bomb

SERVIÇO
Curitiba Jazz Festival
14 e 15 de dezembro de 2019, a partir das 10h
Praça Afonso Botelho (Praça do Atlético)
Gratuito

Psicodália é suspenso após 18 anos; novo festival acontece em reserva ecológica

Depois de 18 anos desde sua estreia, e de 22 edições ininterruptas, o Festival Multicultural Psicodália não irá acontecer em 2020. O evento, gigante da cena independente que se tornou tradição no carnaval, com atrações musicais nacionais, internacionais, oficinas, cinema e um clima de cordialidade quase inacreditável, passará por uma “remodelação”, e está interrompido.

Foto: Rodrigo Della Fávera

Os motivos passam pelo esgotamento físico do espaço – a Fazenda Evaristo, em Rio Negrinho (SC) – e por decisões judiciais recentes que vão contra a essência do evento. “Em 2017 tivemos nosso maior público, 7 mil pessoas. Chegamos ao limite da Fazenda [Evaristo]. Em 2019 tivemos dificuldade na liberação de alvarás, e a proibição da participação de crianças, mesmo acompanhadas. O momento difícil da economia também conta”, diz Alexandre Osiecki, criador do Psicodália.

No dia 25 de outubro de 2018, a juíza de direito da Vara da Infância e da Juventude da cidade de Rio Negrinho, Fabrícia Alcantara Mondin, publicou a portaria 91/2018, decretando: “Fica proibida, na comarca de Rio Negrinho, a entrada e a permanência de crianças e adolescentes em casas de diversão, danceterias, promoções dançantes, festas pagas e congêneres, sob pena de responsabilização administrativa, civil e criminal dos proprietários dos estabelecimentos comerciais e organizadores do evento, de acordo com as disposições da legislação vigente”.

Foto: Beto Ambrósio

O público da edição deste ano foi de 4,2 mil pessoas, quase a metade da registrada no ano anterior. “Muitas famílias deixaram de ir. Não só crianças, mas pessoas mais velhas interromperam uma tradição de anos por causa disso”, diz Osiecki. “Em seis dias, o Psicodália movimentava o equivalente a um mês da economia de Rio Negrinho”.

Há chance de um evento similar ao Psicodália acontecer no carnaval de 2020, mas com outro nome e em outro formato. O local ainda não foi decidido. Para 2021, Alexandre estuda o retorno do festival, que por ora está “de férias”.

Libélula

Nos moldes do Psicodália, embora com menor estrutura, Alexandre criou o Festival Libélula, que acontece na Reserva Ecológica Terraiz Castelhanos, chácara na Colônia Castelhanos, em São José dos Pinhais, a 81km de Curitiba. O evento acontece entre os dias 27 de dezembro de 2019 e 1º de janeiro de 2020.

Cartaz do Festival Libélula, por Diego Perin

Serão cerca de 20 atrações (a serem anunciadas) “no estilo Psicodália” em dois palcos: um com funcionamento das 16h às 22h, e outro, acústico, aberto durante a madrugada. Este, em especial, servirá de espaço para artistas de rua, repreendidos recentemente por apresentarem seu trabalho em espaços públicos. Haverá estrutura para camping, banheiros, duchas, restaurantes e bares. Em meio à Serra do Mar, a reserva tem rios de pedra e de argila medicinal, cachoeira e trilhas. O Libélula também vai trabalhar com produtos orgânicos ofertados por produtores da região.

O ingresso custará R$200 para todos os dias de evento, e as vendas começam no dia 7 de outubro pelo site diskingressos. A expectativa de público da primeira edição do Libélula é de 700 pessoas, incluindo artistas e equipe.

“Como dançar uma revolução”
Em 2016, “cobri” o Psicodália para o portal Scream & Yell. O relato está aqui.