Banville pega um tema à beira do cafona e faz um grande romance

Podemos nos perguntar qual a razão da literutura após “Passeio ao farol” ou Mrs. Dalloway”. A pergunta é válida, mas ela descortina uma séria de situações. Voltando ao tempo, se a situação é a escrita em inglês, qual a razão de se fazer literatura após Dafoe, Swift, Shakespeare?

Uma das mais intrigantes e maravilhosas características da literatura é sua capacidade de reinventar-se, mesmo que repita estruturas ou temas. Afinal, temas podem ter o mesmo nome (o amor, a descoberta, a morte), mas cada época construirá sua própria rede discursiva para tratar de um assunto.

John Banville tem uma capacidade acima do comum para lidar com coisas interiores. Esse mar que dá título ao livro é tanto o mar exterior, que nos pacifica ou exaure, quanto o mar interior, que tem função semelhante. Aqui, ele coloca frente a frente um homem já no ocaso da vida e o menino que ele foi: o homem descobre a proximidade da morte enquanto o menino as possibilidades da vida. Tema espinhoso e a um passo de se tornar vulgar ou cafona, nas tintas de Banville se transforma num dos grandes romances do primeiro quartel do século.

Para quem se aventurar por ele, vai encontrar descrições de cenas como se descreve uma pintura (o narrador/herói é um crítico ou historiador da Arte, afinal). No entanto, a fatura é tão boa, que se esquece de estar lendo uma narrativa. Ele, Banville, consegue fazer o leitor andar pelos corredores de uma galeria ou museu, um museu da memória do indivíduo, com belezas e crudelidades tratadas com o esmero de uma pintura antiga, a óleo, em camadas.

Condé e Gonçalves: vozes das mulheres negras

Já escrevi por aí que o romance histórico é um texto duplamente falso. Antes de ser processado por difamação, eu explico: se o texto histórico é já por si um texto “falso”, uma leitura do passado (com dez mil páginas de teses sobre o que seria isso), o romance histórico seria um duplo salto mortal sobre o dado, o fato, a abordagem.

Quanto mais eu leio sobre a história e sobre o romance histórico, menos eu o entendo. Então, prefiro aceitá-lo. Sei o que é, mas prefiro não explicar quando me perguntam…

Já escrevi sobre isso e tantos antes de mim: o romance histórico é um universo, de escritores, de tempos vividos, de modos de escrita. Alguns, mais históricos; outros, mais filosóficos. Há quem misture a história e a psicanálise, a história e a sociologia, etc. Mas eles revivem de tempos em tempos e são um desafio para literatos, historiadores, sociólogos, e por aí vai. E desafio também para leitores comuns, sem a menor preocupação com a teoria.

É para esses leitores que escrevo, hoje.

Marise Condé é de Guadalupe. Tem 82 anos. Ano passado, na falta de uma escolha para o Nobel, ela ganhou um prêmio alternativo, The New Academy Prize in Literature. É de expressão francesa. Há muito que dizer dessa mulher e dessa escrita. Obviamente, grande parte dos escritores da segunda/terceira diáspora negra foram obrigados a adotar a língua do colonizador/conquistador e grande parte da literatura divulgada no Atlântico Negro é em francês, inglês, espanhol, português e, quando muito, holandês. Difícil encontrar escritores de grande divulgação que escrevam em outros idiomas, seja o africânder, o papiamento e mesmo o suahíli (se pensarmos no lado índico africano). Hoje, escritores de certa projeção, como Dengarembga, escrevem em inglês. Lógico: sua língua materna é essa. Outros, como Ngũgĩ wa Thiong’o, têm tentado uma volta às origens idiomáticas.

Então, Marise Condé é de expressão francesa, professora, inclusive de francês e filologia românica em Cambridge. Exigir de escritores negros que optem por uma língua que não a sua materna é um dos erros mais gritantes do processo de entendimento dos descendentes de africanos nas Américas. E suas preocupações: a situação negra, o colonialismo, o pós-colonialismo, o decolonialismo, a situação da mulher negra em particular, vítima de múltiplos preconceitos, sexualizada ao extremo, usada como objeto, e depois esquecida pela história, com múltiplas camadas de vulnerabilidade.

Há muito que ver nesse livro em particular, “Eu, Tituba, bruxa negra de Salém”: a linguagem simples confunde à primeira vista. Condé assume uma linguagem simples e direta, mas não menos cruel ou poética, mesmo quando a dor fala mais alto, em descrições sem titubeios. Em primeira pessoa, temos a voz de uma mulher, que utiliza os mesmos mecanismos de narração branca e masculina de séculos de presença centralizadora mas que aqui cede espaço para uma narração a partir da voz negra, do desterrado, do que foi humilhado e ultrajado. Um romance denúncia? Sim, dentre tantos potentes romances denúncia, mas uma potente e bela escrita. E ela deixa o eco das narrativas tradicionais africanas chegar até o leitor. É um processo comovente.

A lista de romances que poderia citar aqui, que dialogam com este, é longa: vai de Alice Walker (“A cor púrpura”) a Ana Maria Gonçalves (“Um defeito de cor”). Sobre este último, aconselho muito sua leitura. O levantamento histórico e a coragem de publicar um romance de mil páginas é coisa rara na escrita recente do Brasil.

Listinha de férias para você: Condé, Dengarembga, Walker, Gonçalves.

A honra perdida de Katharina Blum, de Heinrich Böll

Um pequeno grupo de amigos de expressão alemã (alemães e suíços, basicamente), lá pelos anos 1980 e 90, preferia ler Böll a outros escritores mais antigos. Thomas Mann, por exemplo, estava para eles como Machado para muitos de nossos estudantes (guardadas as devidas proporções) e era mais uma atividade obrigatória escolar do que uma leitura agradável.

Isso não é tão difícil de compreender: meus amigos tinham nascido em fins dos anos 1950 ou nos anos 1960 e lá pelos anos 1970 estavam na escola. Böll é um grande representante da literatura dos anos 1970, não apenas do que se produzia na Alemanha. Meus amigos se sentiam mais representados por Böll (e talvez por Grass) do que por Berhard e autores da velha guarda, como Thomas Mann.

A Alemanha dos anos 1970 vivia um certo milagre econômico do pós-guerra, e meus amigos viviam muito bem, a despeito do tipo de trabalho que tivessem. Era muito estranho para eles, quando vinham ao Brasil, ver a disparidade econômica e social aqui presente — e o resto, aqui e lá, sabemos ao menos razoavelmente.

“A honra perdida de Katharina Blum — de como surge a violência e para onde ela pode levar” é uma das obras mais impressionantes de Böll, e, dada à sua objetividade e brevidade, ela impressiona duplamente. Eu chamaria atenção para o diálogo que ele faz, em relação à linguagem, a outros três tipos de gêneros textuais: o teatro (muito do livro se assemelha à estrutura teatral, notadamente o modo como as informações surgem, como se num palco), o jornal (crítica mais contundente do livro, que ele chama de “panfleto”) e os textos teóricos sobre a escrita (o que produz uma leve metalinguagem, de consequências narrativas muito produtivas e curiosas).

Ao narrar parte da vida de uma empregada doméstica, engolfada pelas práticas sociais e pelo discurso perverso de um jornal marrom, Böll encontra tempo para diagnosticar diversos tipos de violência contra a mulher (certamente, à época, o livro não foi visto assim), a crítica ao sistema de informação e ao como circulam as informações, muitas delas, “de ouvir falar” e à corrupção aberta de qualquer sistema político, à esquerda ou à direita. Böll, questiona-se, por exemplo, se o governo alemão da época não era um “pseudo-governo de esquerda pela metade” (alguma semelhança? Leia, por favor, e me conte depois).

O mais curioso (?), triste (?), motivante (?) dessa leitura é perceber que Böll escreveu esse livrinho muito antes do advento da internet, ou seja, o modo como as informações circulam hoje é muito mais letal do que o modo como circulavam nos anos 1970.

Uma leitura necessária e atualíssima, de um grande autor de expressão alemã, não exatamente muito divulgado no Brasil.

Se desejar, compare, entre outras obras dele como “Pontos de vista de um palhaço” e “O anjo silencioso”. Se quiser verificar como andam as narrativas advindas desse tipo de fazer literário, aconselho Ingo Schulze. Não estranhe encontrar no Brasil obras com essa linguagem despojada de “A honra perdida de Katharina Blum”. É isso mesmo que anda ocorrendo, quase meio século depois…

P.S. para quem curte fofocas do Prêmio Nobel, a escolha de Böll se deu “pela sua capacidade de falar a linguagem de seu tempo e de renovar a literatura alemã”. A Alemanha tinha ficado fora da premiação durante bastante tempo — e foi certa ousadia dar o prêmio a um escritor razoavelmente jovem (55), dono dessa escrita “atual” e ainda por cima abertamente de esquerda.

O casaco de Marx

Stallybrass escreve três pequenos ensaios, simples, despretensiosos, mas muito bonitos, em que a roupa aparece mais ou menos como personagem (mais o primeiro e o segundo).

No primeiro, há um belo levantamento de alguns textos da literatura em que a roupa é vista no seu aspecto simbólico, de lembrança ou dor. No segundo, ele conta como o casaco de Marx foi e voltou da penhora enquanto o filósofo escrevia seu mais conhecido trabalho.

O autor lembra que a roupa já foi espólio, herança, peça de desejo pelo valor simbólico ou financeiro, e que até o alvorecer do mundo moderno, quem que a indústria têxtil e a do fabrico de roupas começam a florescer, a roupa era um objeto extremamente caro.

Há menções ao belo texto de Roth (“Patrimônio”), entre outros, e vários cruzamentos aí são possíveis, seja com Madame Bovary (quando ela começa a se “enfeitar” com coisas caras), seja com “Dom Casmurro” (nas cenas em que Capitu troca seu guarda-roupa de solteira pelo de casada), seja com o Gogol de “O capote”.

Uma leitura agradável num livrinho para ser lido numa sentada só.

Na Amazon: O casaco de Marx: Roupa, memória, dor

Os Vagantes e as preferências do Nobel

Hummm. Pois é.

Por onde começar? Um pouco de história da Literatura, salpicada de crítica literária (uma corruptela de teoria literária) e muita fofoca.

Ontem mesmo eu lia meu livro atual de cabeceira, “Mrs Dalloway” e me perguntava, de novo, se haveria alguma literatura possível posterior a Virginia Woolf. A mesma pergunta eu me fazia quarenta anos atrás com Marguerite Yourcenar e depois, quando “Memórias de Adriano” cedeu lugar na mesinha de cabeceira mental a “O livro do travesseiro”, de Sei Shōnagon.

A pergunta é absurda, atrevida e provocativa. A literatura, vivendo ou não de uma antropofagia, como quiseram entendê-las alguns estudiosos, sempre é viva e todas as épocas tiveram as suas respectivas e belas literaturas, orais ou escritas, canônicas ou fora do cânone. Após Woolf, e após as tentativas não frustradas de o modernismo subverter a etiqueta romanesca do mundo moderno (que teria começado com quem? Cervantes? Dostoiévski?), os artistas posteriores subverteriam a escrita romanesca até os limites possíveis de qualquer rompimento: personagens, espaço, tempo, enredo, ou seja, tudo o que vc viu ou não viu nas aborrecidas aulas de Literatura I e II de uma universidade de Letras.

Os rompimentos continuam, muito para além do nouveau roman de Claude Simon, ou de um pouco lido aqui no Brasil Efraim Medina Reis. Isso — os rompimentos — explica, em parte, um escrito (que nem é chamado “romance”) de Olga Tokarczuk, laureada de 2018 com o Nobel de Literatura.
Já disse aqui outras vezes que a literatura contemporânea deslocou, em parte, o narrador em busca do “outro”. Deslocou-o em busca do “eu”. Explico: esse narrador vive ao redor do seu umbigo. Tal busca não ocorre apenas na produção literária; ocorre também na crítica. Já apontei diversas vezes como a maioria dos “críticos” atuais (leitores de meia dúzia de romances) começa a crítica por “eu”, o que é curioso, quando o objetivo é “ler o outro”, tentar entender o outro, tentar investigar o outro. Nesse tipo de crítica, o crítico é mais relevante que a obra analisada… Lamento dizer que uma parte considerável da produção acadêmica tem seguido o mesmo caminho. Não apenas há uma busca do “eu” como mestrandos e doutorandos querem fazer uma pesquisa em primeira pessoa como fossem, já, grandes nomes da investigação acadêmica. Mutatis mutandis, veja isso em outras áreas de criação artística e depois me conte.

O Nobel andava havia décadas em dívida com as escritoras: romancistas, poetas ou poetisas, como preferir, historiadoras, filósofas. Tinha premiado uma ou outra, como Pearl Buck, e se arrependido da nomeação {!} Pois é. Nem sempre a nomeação é feliz. Daí, nos últimos anos, uma (in)feliz corrida para premiar mulheres (isso tudo vindo de uma academia com um chocante caso de assédio sexual contra mulheres). Mas a preferência é estranha: em vez de Anne Carson ou Marise Condé… Svetlana Alexievich e Olga Tokarczuk. E autoras de obras pequenas ou de um bom romance só, como Elfriede Jelinek.

Bem; prêmios e suas escolhas. Vá saber.

Esse livro de Tokarczuk, “Os vagantes” é vendido como “ficção polonesa” e na orelha um dedicado crítico (o tradutor?) tenta nos convencer de que se trata de um romance. Vá saber o que ali é ficção e não-ficção. Vá saber o que é um tipo de memorabilia e o que é crônica ou ainda o que é simples anotação de viagem. Ou ainda sketches possíveis para um curta, um longa, um conto.

Obviamente, muitos excelentes textos literários têm uma construção fragmentada e obviamente se a definição de “romance” avançou até os limites de um rompimento possível, do ponto de vista teórico, por que não poderia ter ocorrido o mesmo com a ideia de “ficção”? E há textos jornalísticos, filosóficos, sociológicos tão bem escritos como fossem uma ficção de qualidade — e tal descoberta no seio da Teoria Literária é tão antiga quanto andar para frente, ou virar uma página.

Ao mesmo tempo — e sabendo-se que a academia terá daqui para a frente uma “assessoria” para lidar com o “novo”, o que deixará autores como Cees Nooteboom e Ismail Kadarés cada vez mais distantes da premiação — esse livro de Tokarczuk tem muito a ver com o mundo da cibercultura, das nuvens de informação e do “grande computador”, de que não se sabe ao certo onde nasce e se tem um fim: chame isso de “a grande rede” (e pense em Pierre Lévy). Quero dizer com isso que a vida é fragmentada mesmo e que criadores das mais diversas áreas criativas lidam com tal realidade em suas buscas estéticas, seja no teatro, na dança ou nas artes plásticas. Se treinarmos o olhar, poderemos ver isso com certo sorriso no rosto.

Também vivemos uma época em que tudo o que se escreve pode ser levado em consideração. Para o estudioso da literatura mais conservador, trata-se de um tormento; para os jovens estudiosos, sua salvação. No caso da escritora polonesa, decida se “Os vagantes” é obra de uma voz tão relevante que cabe juntar tudo num livro de quase 400 páginas e transformar a massa num romance. [Agora, sim, pois ela tem um Nobel.]

Embora o grande mérito do prestigiado livro seja talvez falar do nada e do “grande vazio” (penso cá com meus botões em Lipovetsky), espero que as outras obras da autora sejam de maior relevância e que não tenhamos outro Modiano, cujos romances parecem uma fotocópia de si mesmo (é pleonasmo isso, produção?).

E, se você se aventurar pelas páginas de “Os vagantes”, vai encontrar bons momentos, que fogem de uma memorabilia banal, escrita rapidamente num caderninho num banco de aeroporto. Se você for espertão, vai encontrar ali outras metáforas marcantes da vida do século XXI e poderá caprichar naquela mono para Literatura Polonesa II do seu curso.

[Se vc curte autores poloneses ou prêmios Nobel ou os dois, a Polônia já foi laureada com Sienkiewicz, Ladislau Reymont, Czesław Miłosz, Wisława Szymborska e Tokarczuk. Desses, o único mais difícil de achar em português é Reymont. Dos poetas modernos, sugiro a leitura de Adam Zagajewski, um esquecido do prêmio.]

O primeiro Nobel japonês

Quando o comitê do prêmio Nobel decidiu finalmente laurear a língua japonesa (nos trabalhos antigos, era designado ao menos um componente do comitê que conhecesse a língua a ser homenageada), em 1968, tinha uma tarefa de Páris: escolher entre Yukio Mishima, Junishiro Tanizaki e Yasunari Kawabata. Eram os maiores escritores vivos do Japão, um país que ja tinha sido terra, pátria e fonte de inspiração para nomes como Soseki e Akutagawa, entre outros.

Havia três escritores obcecados pelo corpo, pela memória, pelo Japão tradicional e pelo Japão em profundo desenvolvimento. O que o comitê procuraria no laureado: a busca pelo Japão Meiji ou o Japão que mirava o futuro e que chegaria até ele bem antes de qualquer nação da Terra? Premiaria a ousadia de Mishima e seus temas complexos, duros, malditos? Tanizaki, com suas investigações sobre o obscuro da alma humana presente no mais simples gesto de bom dia? Diz-se que a vida de Kawabata pesou bastante na escolha — e lá pelos anos 1960 “O país das neves” tinha conquistado grande público mundo afora, e um texto em particular chamava a atenção pela simplicidade, singularidade, frescor da vida da juventude: “A dançarina de Izu”, obra na qual havia mais do Kawabata ele mesmo que de um Kawabata-voz-literária. Escolha feita, prêmio outorgado. Ali estava o escritor órfão, o escritor de olhar triste, e um relato da juventude, tão verdadeiro quanto a melhor ficção. [Meiko Shimon lembra que é extremamente raro encontrar um estudo sobre Kawabata que não leve em consideração sua vida de órfão…]

Quem tem acesso ao acervo do Ohara Museum of Art pode se deparar com a tela Scarlet Rug, com data de 1932. Como o museu foi fundado com ênfase em arte moderna, a tela faz parte de um conjunto impressionante de Monets, Pissaros, Cézannes. Nada mais natural do que pensar que Scarlet Rug seja um Gauguin, pois o museu conta, por exemplo, com Te nave nave fenua, do pintor francês, que retrata uma mulher do Pacífico, provavelmente numa das passagens de Gauguin pelo Taiti. O que se vê na tela de 1932: duas mulheres orientais a se deliciar ao sol, lânguidas, a um só tempo sensuais e contemplativas. Poucos traços definem suas feições, há pinceladas fortes, grossas, e o fundo em cores chapadas não deixa dúvidas – trata-se de um Gauguin. Mas algo incomoda: a data da pintura, 1932. Gauguin morrera trinta anos antes. A tela também não faz parte do acervo de pinturas européias e sequer tem exposição permanente, como Degas ou Poussin. O especialista, claro, sabe tratar-se de uma pintura com influência de Gauguin, mas o leigo precisa fazer a leitura: “Scarlet Rug, oil on canvas, Mitsutani Kunishiro, 1932”.

Cito essa tela porque ela é uma boa metáfora para a literatura do modernismo japonês. Difícil encontrar o fio ali: se se começa pelos ecos do Japão antigo e tradicional ou se começa pelo diálogo com a literatura europeia (hoje, americana, de diversas origens, sejam os EUA de Faulkner ou a Colômbia de Márquez).

Fofocas à parte, um bom começo para adentrar o castelo ficcional de Kawabata. E se você não leu Mishima e Tanizaki, está esperando o bonde da história?

Handke deveria ser mais lido e mais discutido

Não sei se o (bom) escritor é antena da raça, como imaginou um dia Pound, num texto de 1934. Sei que o bom escritor está sintonizado com as coisas de seu tempo e alguns, mais privilegiados, conseguem antecipar discursos. Sei que tal ideia, a da antecipação, possa soar estapafúrdia porque para os da filosofia da linguagem ou para a análise do discurso isso seria impossível: lidamos com a voz do outro, oriunda de um passado ou de um presente que… já é passado.

Sei que Peter Handke tem uma capacidade raríssima de lidar com discursos delicados e/ou espinhosos, alguns que, anos mais tarde à publicação de seus escritos, tornar-se-ão de domínio comum, ou de uma discussão comum.

Este romance assombroso de 2002, publicado no Brasil em 2009, segue isso. É um romance de busca e de meditação, de encontros e de sustos, algo quase sem paralelo na produção romanesca do começo de século, a começar pelo tamanho da obra e por sua estrutura. Não se trata de um romance simples. Aliás, sua leitura é lenta e difícil mesmo. Handke, aqui, usa pequenos blocos de texto, que junta para formar uma construção pesada e densa, de uma beleza rara, creio que em qualquer idioma.

Tomo a liberdade de deixar um trechinho: “E neste instante, conta-se que ela, senhora de sua história, ali na plataforma de granito em pleno ermo, perto do Passo da Cadeleda, passou repentinamente desse seu pensar para o discurso direto e expresso, e continuou dizendo ao outro, numa voz claramente audível: ‘E é justo no que há de perdido, em tudo que dá a impressão de abandono e perdição, que o meu entusiasmo por essa gente daqui coincida com o seu’.”

Já li aqui e ali que esse romance é um libelo a favor disso e daquilo. Qual romance não seria? De todo modo, as discussões altamente filosóficas desse livro o posicionam num lugar muito especial da fatura romanesca, a do romance de teor filosófico. Sempre penso que Handke deveria ser mais lido e mais discutido.

Enquanto Agonizo: as vozes assustadoras de uma família

Faulkner escreveu este livro trabalhando numa hidrelétrica, nas madrugadas, quando o trabalho era menor. Fez isso durante oito semanas (ele disse que foram seis, mas foram oito), sem grandes alterações. Quis construir um romance mais “popular”, que lhe “garantisse dividendos”.

Mas imaginemos os escritos populares de um gênio. Faulkner imprimia até mesmo nas histórias populares um quê de causo e um quê de novidade literária só comum para mestres da escrita. Não é à toa que a narrativa americana de que gosto mais após “O grande Gatsby” é “A rose for Emily”, de Faulkner.

Em “Enquanto agonizo”, temos a história de uma família que decide enterrar a matriarca no local onde ela escolheu. Para isso, terão de gastar o que não têm. Em verdade, essa é apenas uma linha em torno da qual Faulkner faz rodopiarem as personagens (pai, filhos, outros), cada qual com sua voz, suas dores, seu testemunho de um universo abaixo da linha da pobreza. Chegam a ser assustadoras tanto a voz de cada um, num vai-e-vem de dizeres e tempos, quanto a forma como ele constrói esse romance atípico para fins da década de 1920.

Fofoca: James Franco produziu e dirigiu em 2013 uma adaptação dessa terrível história. É uma das poucas vezes na vida em que podemos dizer: “não li o livro, mas vi o filme”.

[Para os interessados na História da Literatura e em especial pelo modernismo, eis o que temos na época em que Faulkner produziu essa pequena joia americana:

Kafka: O processo: 1925
Thomas Mann: A montanha Mágica: 1924
Virginia Wolf: Mrs. Dolloway: 1925
Joyce: Ulisses, 1922
Döblin: Berlin Alexanderplatz: 1929
Proust: O tempo redescoberto: 1927
Schnitzler: Breve romance do sonho: 1926
Müsil: O homem sem qualidades: 1930 (primeira parte)
Mário de Andrade: Amar, verbo intransitivo: 1927
Akutagawa: Kappa: 1927
Lu Xun: A verdadeira história de Ah Q: 1923

Sugiro todas, para quem quiser conhecer o gênio da década de 1920.] 

Glória. E a morte precoce de um grande autor

Victor Hering nos deixou cedo. O autor faleceu aos 30 anos, em 2018. Das vozes novas em português brasileiro, era uma das mais empolgantes.

Dele, os leitores podem se deliciar com “Glória”, palavra que faz menção ao bairro carioca, mas também ao substantivo comum.

Há inúmeras narrativas da tradição que tratam da história “dos três irmãos”. Meu primeiro livro, presente da professora da terceira série, tratava da história de três irmãos com qualidades distintas: um bonito, um forte e um inteligente. Claro, o inteligente encontrava a cura para um certo mal, mostrando que a inteligência é mais importante que a beleza física ou a força. Não posso provar isso, mas a mim me parece que Heringer traz essa narrativa para o presente, em particular para o Rio de Janeiro, onde três irmãos, Daniel, Abel e Benjamim vivem experiências de vida com um pequeno toque surreal. Evidentemente, trazendo uma narrativa da tradição para o presente, ele não a recupera exatamente. A ironia é muito bem vinda.

A narrativa é atravessada por um humor bastante ácido e nem sempre muito confortável. Por vezes, a mesma piada repetida ao infinito começa a perder a graça, mas aí está o golpe de mestre de Heringer: o livro trata justamente disso — uma família vive um tipo de praga ou de marca que diz respeito ao humor, que perde a graça ao longo do tempo.

Há grandes momentos na narrativa, que acaba dizendo muito de nós, brasileiros, e fica aqui como leitura recomendada.

Pedro Páramo e o mundo dos mortos

Obras que lidam com o mundo após a vida não são incomuns desde a Antiguidade; prova disso é o magnífico “Diálogo dos mortos”, de Luciano. Na modernidade, e em português, o não menos impressionante “Memórias póstumas de Brás Cubas”. O mundo dos mortos pode surgir ele mesmo, um lugar físico, onde habitam os mortos, ou de forma metafórica, onde habitam os vivos num lugar “de morte”. Fica aqui a sugestão de “Memórias da casa dos mortos”, do sempre assustador Dostoiévski.

Obras que se passam num mundo encantado, de sonho, mítico, etc., também não são estranhas à literatura, e cito aqui o curiosíssimo “Batalha de amor em sonho de Polifemo”, obra atribuída a Francesco Colonna.

Se unirmos esses dois mundos, o da morte e o do sonho, estaremos nos avizinhando de um modo de fazer literário que ficou conhecido mundo afora lá pelos anos 1960, mas que floresceu a partir da década de 1940 notadamente na América espanhola. A Europa andava cultivando outro tipo de fazer literário (dali a pouco surgiria um grupo como o Oulipo, por exemplo), e a grande sensação “moderna” no Brasil era o concretismo (e não que outras vertentes da escrita não estivessem presentes em todos esses lugares).

Aqui, em particular, surgem obras em espanhol como as de Borges, Asturias, Carpentier, Onetti e, a que interessa hoje, a de Juan Rulfo, justamente “Pedro Páramo”. Quem me ajudou nesse parágrafo foi Irlemar Chiampi ( “O realismo maravilhoso”). Difícil para a teoria literária especificar com certeza ou precisão o que vem a ser o maravilhoso, o fantástico e o mágico… mas que tais obras existem, existem. Como não é meu objetivo adjetivar as obras colocando-as em caixinhas onde se cria caruncho, só gostaria de lembrar que essas décadas de que falo foram riquíssimas para a produção literária em espanhol — e muitos dos autores posteriores, como Márquez, Cortázar, Llosa, Lezama Lima (me refiro a obras e não a datas de nascimento) foram se embebedar dela.

“Há muitas maneiras de lidar com o fato de que todas as vidas, incluídas as vidas das pessoas que amamos, têm um fim”, nos lembra Norbert Elias e “a vida humana é tão frágil” (citando mal e mal Pierre Vernant), que “bastaria um peteleco dos deuses para acabar com ela”. Tomando-se a (perda da) vida como uma dor ou como um pesadelo ou ainda como uma metáfora para a história latina no Ocidente, e tomando-a como algo efêmero, eis “Pedro Páramo”, um livrinho que mal pára em pé, mas que desnorteia o leitor e abre caminhos para toda uma literatura posterior.

Em busca do pai (seu norte mitológico?), um rapaz chega a um lugar de mortos. Mortos são o passado, mas também o presente, e as descobertas do passado (das Américas, do México) nem sempre são felizes.

Para quem deseja conhecer melhor a produção literária em espanhol, aconselho começar por este intenso livrinho. Também aconselho lê-lo a par com o conto “Sarapalha”, que faz parte de “Sagarana”, uma das jóias em português de todos os tempos.

Ah, em termos de uma teoria literária, para quem deseja se aprofundar nisso, por mais metafóricos que esses textos dos anos 1940-1960 sejam, eles inauguram muito provavelmente um novo modo do fazer o romance histórico (citando de cabeça, também, Daniel Balderston).


Na Amazon: Pedro Páramo (edição de bolso)