Memórias de um urso/ursa polar

O leitor moderno não deveria estranhar o fato de um animal falar por si mesmo numa narrativa contemporânea. Há pelo menos duas correntes atuais em que os animais “falam”: nas do primeiro tipo, há uma alegoria (porque, sim, sempre são alegorias) em que animais, de posse de sentimentos e ações humanas, falam, sendo exemplo disso os desenhos de animação, que já têm longa tradição no Ocidente; os do segundo tipo são algo mais complicado: há uma produção e edição “documental” com animais, mas é projetada neles a ilusão de que vivem situações humanas, sendo exemplo maior disso os documentários da BBC em que animais “vivem” situações humanas. (A alegoria, ali, é mais difícil de ser vista.) O vocabulário, inclusive, é humano: fala-se em clã, vingança, guerra pelo poder, amizade, etc. Não que, entre animais, próximos ou distantes da complexa rede de DNA humano, não haja situações realmente semelhantes, principalmente entre mamíferos. Mas as ações, pensamentos e discursos humanos muitas vezes são colocados em ações de animais bem distintos do homem, como polvos, insetos, aves.

Isso não é exatamente novo: animais que falam e animais que agem “como humanos”. De todo modo, a razão que explicaria essa troca de lugares entre humanos e animais varia de intenções, digamos assim, de tempos em tempos. E não são apenas animais que falam: objetos podem ganhar vida ou uma montanha ou ainda um planeta.

Na literatura, em particular, animais falantes também não são novidade alguma. No Ocidente, a tradição greco-romana nos legou narrativas atribuídas a Esopo, depois reinvocadas e instaladas no discurso romano por Fedro, recriadas e reinstaladas na situação histórica francesa por La Fontaine. E não foram os únicos. Em outras tradições literárias, animais falam, seja por uma habilidade intrínseca a eles, seja quando seres humanos são transformados em animais, seja uma entidade que não é nem animal nem humano, ou extraterrestre, ou criada em laboratório, etc. E nem citei mitos ou narrativas místicas (como a obra de Farid ud-Din Attar). Personagens humanas são, então, mais humanas quando (têm características) animais — e isso parece atrair o público ouvinte ou leitor há milênios. Ora o ser humano adota características animais, ora o contrário, e isso parece bem promissor como recurso estilístico e discursivo.

O marketing de venda de “Memórias de um urso/ursa” cita Kafka e justamente Esopo. Não é nem uma coisa nem outra: em Esopo tempos narrativas simbólicas e morais e em Kafka (em um texto particular de Kafka) um indivíduo que acorda animal “após despertar de sonhos intranquilos”. A narrativa de Tawada teria mais a ver com certas escolhas de Haruki Murakami, nas quais o animal ou ser mágico que fala, a rigor, não é simbólico, metafórico, alegórico. Ele é “real” no interior da narrativa e faz parte de um universo paralelo ao “real” externo da obra, de cuja existência não nos damos conta por, talvez, termos perdido a relação com esse mesmo universo. Lembra, igualmente, mas sem a mesma precisão, Natsume Soseki, ou melhor, um livro em particular de Soseki, “Eu sou um gato”, que, obra genial, não perdeu o frescor mais de cem anos depois de escrita. No interior do romance, Tawada cita o Platero de Jimenez — e talvez a simbiose das personagens do famoso romance “Platero e eu” possa servir de guia de investigação.

No Brasil, o título se refere a um urso; nos países hispânicos, a uma ursa. Em verdade, o jogo de vozes de dá entre uma ursa (a avó), a treinadora da filha dessa ursa, Bárbara (que em português virou Ursula, sem acento), e depois uma voz em terceira pessoa que conta a história de Knut, um urso real que nasceu no zoo de Berlim. O título original é “Estudos na neve” (Etüden im Schnee), com dupla referência: a neve e suas variações e a cor dos ursos polares. O título alemão tem mais sentido que o escolhido nos outros países.

A questão proposta por Tawada — ela mesma uma imigrante, que trocou o Japão pela Alemanha, escrevendo em dois idiomas muito distintos — é investigar o contato entre os seres, nas mais distintas situações, notadamente o encontro entre culturas diferentes (algo que passa, necessariamente, pela língua). Esse é o ponto alto do romance. Ela parte da história de Knut, o urso que nasceu num zoológico alemão e foi rejeitado pela mãe. O ursinho se tornou conhecido no mundo todo, mas veio a falecer jovem, vitimado por um problema neurológico. É contando a história de três gerações de ursos que a autora investiga situações muito humanas, que vão da política às relações íntimas de casais.

Há três eixos de discurso no livro: a) quando o animal é animal e assim é tratado; não “pensa”, portanto, e age como um animal; nesses momentos quem fala é uma voz de personagem humano; b) quando o animal pensa como humanos e vive no meio deles, em estranha simbiose, um tanto deslocado, por ser animal, mas vive seus desejos, anseios, problemas; ali quem fala ora é o animal e ora o humano — e o leitor precisa prestar bastante atenção para ver quem é quem; c) quando o animal não apenas vive como humano entre outros animais do mesmo tipo; ele escreve, publica, é enganado por outros animais perversos, etc. Essa troca nada entediante é a grande sacada de Tawada. O leitor precisa seguir o quem-é-quem da narrativa, ficando muito claro que a autora instala nos animais as perversidades humanas, muito mais que o contrário. Ao mesmo tempo, a autora foi vítima do jogo arriscado: por vezes a ironia perde o sentido, a piada começa a ficar repetitiva e a discussão é esvaziada de um sentido maior, que parecia ser um dos objetivos do livro. E há umas quebras que parecem ser um defeito no cômputo geral da fatura literária. Cabe ao leitor decidir se essas quebras são uma falha ou um recurso literário cujo objetivo não fica bem claro.

Há grandes momentos (em que a voz do humano se confunde com a do animal, o que os coloca num plano único: parece mesmo que o animal vai virando humano e vice-versa, não sendo, portanto, tão distintos entre si), sendo exemplo disso as memórias de Bárbara, treinadora de Toska. Há momentos engraçados, como quando a mãe de Toska, por ingenuidade, confunde a cruz suástica com a da cruz vermelha. E há momentos literariamente fracos, em que o leitor vai se perguntar a razão de tal situação na fatura total do romance. A ver. A autora ganhou prêmios importantes, como o Akutagawa e o Tanizaki; então, talvez seja caso de ler outras narrativas dela.

Para quem desejar pesquisar mais a fundo o cenário em que se encaixa o livro (diferente do de Esopo, Kafka ou Soseki, ou ainda os cenários da Disney), Francis Wolff trata na obra “Três utopias contemporâneas” da utopia animalista. Tal utopia tem, dentre outros objetivos, “libertar os animais”, crendo que a humanidade, no futuro, não “utilizará mais os animais ou os produtos derivados deles para satisfazer suas necessidades”. Fica aí uma dica para quem quiser cruzar as duas leituras: Wolff e Tawada.

A mudança dramática de cenários, personagens, fio condutor, etc., não é algo novo na literatura. Bem ao contrário: a literatura moderna tentou romper com as características mais comuns do romance: um lugar, personagens, um enredo, fim. Quem quiser se aventurar por algumas obras que levam ao extremo tais rompimentos, aconselho “Orlando”, de Virginia Wolff, e “Estrada de Flandres”, de Claude Simon, dentre tantos.

Obs.: A tradução brasileira tem edição da Todavia. Infelizmente descuidada e com deslizes vocabulares e escolhas estranhas. A espanhola, pela Anagrama, tem um cuidado maior na tradução e na revisão. Para quem consegue ler em alemão, melhor.

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *