O grande estudioso da religião escreve um romance

“O mundo é, portanto, sempre o mundo que se conhece e no qual se vive; ele difere de um tipo de cultura para outro; existe, por conseguinte, um número considerável de mundos.” (Mito e Realidade, 1963)

Corria o ano de 1936 quando Mircea Eliade, então com 29 anos, publicou pela primeira vez “Senhorita Cristina” (Domnișoară Christina). Ele ainda não era conhecido como um dos maiores estudiosos da religião do século XX. Então, quem faz a análise do livro deve ter em conta isso: que os estudos mais famosos de Eliade sobre religião foram publicados depois, a partir dos anos 1950. Mas é bom saber que o famoso estudioso romeno foi também romancista e dramaturgo. A princípio, suas preocupações giravam em torno de questões sociais da Romênia, o que não quer dizer que não tivesse interesse pelo folclore de seu país, pelo sobrenatural e pelo inexplicável. Do século XIX para o XX, aliás, devassou a Europa certo interesse por coisas místicas, nas mais diferentes — e por vezes absurdas — abordagens. No caso, aqui, temos como pano de fundo a revolução popular que ocorreu em 1907 naquele país. Mas se trata de um romance com as características principais dos romances ditos góticos (um herói, uma casa/castelo/mansão isolada, antiga e fantasmagórica, cenas noturnas, um fantasma/demônio/monstro, etc., o que varia um pouco de obra para obra). É caso, portanto, de se fazer leituras em separado.

Os estudos de religião de Eliade tiveram predecessores, como Henrich Zimmer (“Filosofias da Índia”), que faleceu jovem. Após as pesquisas feitas na Índia por esse pesquisador alemão, surgiram pesquisadores como o próprio Eliade (que esteve também na Índia) e Joseph Campbell. E estes, por sua vez, fizeram escola, sendo um seguidor desse tipo de análise Norman Cohn (“Cosmos, Caos e o mundo que virá”). Há muitos, hoje, de todos os tipos, desde os muito sérios até os divulgadores de teorias da conspiração… Na mesma década das primeiras pesquisas de Eliade e Campbell, surgiram trabalhos como os de Claude Lévi-Strauss. Eram análises distintas, com distintas ferramentas de trabalho, com métodos e interesses igualmente distintos, mas por vezes se debruçando sobre objetos muito semelhantes. Não posso dizer fora do Brasil, mas aqui o tipo de análise de Campbell e Eliade por vezes provocou desconfianças no meio acadêmico ou mesmo foi esnobado (eu mesmo sofri muito com isso) — e por tal razão acabaram tendo o trabalho introduzido no país por institutos “livres”, como a Palas Athena, de São Paulo, e foram publicados por editoras alternativas. Eliade disse em 1969: “É lamentável que historiadores das religiões não tenham ainda aproveitado o suficiente das experiências dos seus colegas que são historiadores da literatura ou críticos literários” (“Origens”). Ao menos no Brasil, o pensamento dele não era/foi recíproco. Críticos e historiadores da Literatura olhavam torto para sua obra. [Seria bom não generalizar, mas parto de uma experiência particular. Espero que isso tenha realmente sido superado.]

Creio que a visão sobre o trabalho deles mudou e hoje podemos separar em campos distintos o magnífico trabalho (distinto entre si) desses três homens, após o andamento natural das pesquisas científicas, notadamente as da Sociologia e da Antropologia, e fundamentalmente após o surgimento do que chamamos, às vezes sem muito rigor, de Nova História. De todo modo, sempre aconselho a leitura dos três para quem deseja estudar religiões, mitos, estruturas míticas, o misticismo, os discursos da fé e das práticas religiosas mundo afora. Por mais que um ou outro ainda tenha um pé do século XIX, cometendo os mesmos (para não dizer erros) desacertos que os linguistas tiveram ao pensar que o sânscrito fosse uma língua avó do persa, do grego ou do latim, as intuições encontradas em seus estudos são incríveis. São três homens geniais, cada um a seu modo, a despeito das críticas feitas a Eliade pelo seu perfil conservador.

É justamente esse perfil conservador que deve ter em mente o leitor com interesses mais eruditos em relação a “Senhorita Christina”. O arrojo intelectual que Eliade imprimiu em seus textos sobre religião/mito/mística (de seus escritos em francês e inglês) não é o mesmo que ele imprime em sua literatura (basicamente escrita em romeno). Muito ao contrário, temos em mãos um texto de estrutura e escrita conservadoras, para um homem letrado que conhecia muito bem os caminhos que a moderna literatura europeia (sobretudo a dos anos 1920, da qual tratarei dia desses) estava seguindo.

Muitas possibilidades de leitura são possíveis para essa estrutura: jovem bonito e artista, que ama uma mulher, vai passar uma temporada numa mansão assombrada, de uma propriedade rural que já pertenceu à elite. A casa é assombrada por uma mulher que morrera trinta anos antes. O jovem, para libertar a amada, precisa “matar” o espírito maligno e libertar a todos, antes que os espíritos malignos que a tal mulher morta domina voltem à vida entre os mortais. Sorem Alexandrescu comenta que tal situação, a de narrar elementos extraordinários, é uma “fissura no real”. Eu chamaria de “fissura no real literário”. Isso porque a fissura se dá no interior de um tipo muito específico de romance (os elementos extraordinários não parecem tão estranhos às personagens), o que poderíamos chamar de romance gótico, com características que remontam ao século XVIII, seja ao “Castelo de Otranto”, seja em relação “Ao monge”. Inúmeros escritores nos 170 anos seguintes a Otranto se interessaram por temas sobrenaturais, dentre os quais Oscar Wilde, Poe (meio óbvio pensar nele?), Dickens, Harry James — e quando Eliade se debruça sobre o folclore de seu país para escrever “Senhorita Christina”, “Drácula” e outros romances eram bem conhecidos já em várias partes do mundo. O conservadorismo de Eliade chama a atenção porque autores muito antes dele tinham dado ao romance de fantasmas e de acontecimentos estranhos um trabalho mais arrojado, haja vista o próprio trabalho de Poe e, por exemplo, o de Stevenson. Nem falarei de Hoffmann, bem anterior a Eliade, ou de Lovecraft, que faleceu um ano após a publicação de “Senhorita Christina”.

Essa escolha conservadora de Eliade talvez possa ser entendida como uma decisão, algo realmente propositado: não encontrei nenhuma análise que vai nessa linha, mas seria interessante pensar num romance desse teor, que tem como pano de fundo uma (ou duas) revoluções/rebeliões populares, justamente em 1936, como uma leitura de certos acontecimentos europeus da década de 1930 e seus perigos. Em 1936, o espírito nazi-fascista já rondava a Europa como um grande perigo. Estamos no entre-guerras e a situação europeia era tensa.

O leitor atual talvez tenha uma sensação de dejá-vu em algumas cenas. Lógico: grande parte do cinema de horror vai pedir socorro nessas obras dos séculos XVIII, XIX e começo do XX. Pode ser mesmo que sinta vontade de rir em alguns trechos que, hoje, soam como cômicos. Não são.

O jovem Eliade certamente já sabia que histórias de fantasmas são conhecidas no mundo todo (Lafcádio Hern, por exemplo, começara a publicar suas histórias sobrenaturais japonesas na última década do XIX), fosse na China, na mitologia maia, em mitos aborígenes. Em “Senhorita Christina”, explica-nos Fernando Klabin, que fez uma tradução extremamente bem cuidada, que Christina não é exatamente um vampiro e, sim, um “strigoi”, um espírito que volta para atormentar os vivos. De todo modo, nesse romance, tal espírito “suga” as forças vitais dos vivos — e esse tipo de misticismo ocorre, pelas leituras que fiz, desde a Suméria.

O misticismo existente em “Senhorita Christina” esbarra no erotismo, na volúpia, no prazer com a dor do outro, sendo ecos de histórias antigas, como as da Condessa Sangrenta, tão presente em obras as mais variadas sobre horror, vampirismo, fantasmagoria. É uma faceta interessante e deve ser investigada.

Para quem deseja estudar o romance de horror, “Senhorita Christina” é uma leitura fundamental. Para quem deseja se divertir, um romance intrigante. Já para quem deseja conhecer a faceta romanesca de Eliade, um bom começo. Há muitos pontos sem resposta na obra, bem observados por Alexandrescu. É caso de você, leitor, decidir o que ocorreu de fato com Christina, a família dela e o belo jovem que vai lá salvar todo mundo num incêndio libertador.

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