Mentiras de mulheres — Ludmila Ulitskaia

Não vai aí nenhuma análise psicanalítica, mas talvez os mentirosos compulsivos vivam num mundo de hipérboles. É nesse universo de linguagem exagerada, levada ao extremo do sentido das coisas, que se encontra — ou se vê — Gênia, de início, justamente uma estudante da linguagem.

Mas há mentiras de outros tipos, pequenas ou grandes, algumas necessárias à sobrevivência ou à convivência. Nem sempre entendemos o mentiroso, nem sempre percebemos o quanto precisamos mentir, nem sempre a mentira é um pecado dos mais graves.

Nas seis narrativas desse livro, há diversos tipos de mentirosos: a compulsiva Irene no primeiro, que “mata” quatro filhos nunca existidos; a adolescente Nadia, que inventa um irmão, talvez por necessitar de atenção, talvez por necessitar ser admirada ou ainda se esconder, não se sabe; a menina Liália, que inventa um amante (em verdade ele existe, mas a relação só há em sua imaginação); a erudita idosa que inventa ter escrito poemas de consagrados poetas, como Tsvetáieva; as prostitutas russas que trabalham na Suíça e que precisam inventar um passado que explique ou embeleze o presente; e as mulheres que não precisam inventar nada, porque cada uma de um modo vive as mentiras que escolheu para si, seja a família, a religião, o trabalho, as relações com o outro.

A literatura de Ludmila Ulitskaia — infelizmente, sem tradução para o português brasileiro — é uma literatura de investigação do universo feminino. Em verdade, este livro se chama Сквозная линия (algo como “através da linha”, “ao longo da linha”) sendo que as traduções para as demais línguas européias preferiram “mentira”, “lies”, “mensonges”. Isso provoca uma certa confusão de entendimento sobre a obra. Parece que a autora fala de mentiras típicas de mulheres — e não é nada disso. Analisando pessoas simples, de vários estratos sociais e de várias origens do ex-império soviético, Ulitskaia investiga como a mentira faz parte de nosso cotidiano, intensamente, vivamente, humanamente.

É justamente essa análise do indivíduo comum que levou alguns críticos a compará-la a autores como Gógol e Dostoiévski, ou seja, dentro de certa tradição da literatura em russo. A comparação é bem justa e ainda leva em consideração certa ironia típica da autora, entre o cômico e o trágico, algo típico nos dois autores clássicos citados e presente ainda em escritores modernos, como Sergei Dovlátov (no Brasil, com livros editados pela Kalinka) e Venedikt Erofeev (sem tradução no Brasil).

Ludmila Ulitskaia nasceu no Azerbaidjão, de família judia, mas logo cedo mudou-se para Moscou. Como tantos outros escritores da ex-URSS adotou o russo muito cedo. Foi por algumas vezes indicadas ao Nobel e é uma das mais premiadas escritoras russas da atualidade. Passou da hora de a obra de Ludmila Ulitskaia ser traduzida para o português brasileiro.

Muito difícil definir o projeto desse livro. São narrativas que podem ser lidas isoladamente. Então, tratar-se-ia de contos. Juntando-os, temos uma novela, na tradição tradicional de uma definição. No entanto, nada impede que tenhamos em mãos um romance. A escolha não é exatamente uma novidade no mercado literário, mas o como a autora constrói o caminho percorrido por Gênia isso, sim, é de se verificar. Um livro sensível, bonito, recheado de referências sutis, e que cobre um vasto painel histórico russo. Sem querer, o leitor terá percorrido desde a década de 1910 até os tempos da perestroika. Começamos o ano muito bem.

P.S.: A tradução ficou ao cargo de Nina Guerra e Filipe Guerra. O leitor brasileiro vai estranhar alguns usos tipicamente portugueses, mas nada que atrapalhe a leitura.

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