A condessa Sangrenta: Alejandra Pizarnik fala sobre morte e melancolia

“Señor
La jaula se ha vuelto pájaro
y se ha volado
y mi corazón está loco
porque aúlla a la muerte
y sonríe detrás del viento
a mis delirios”

Eu diria que este estranho livro é um ensaio sobre a melancolia. Diria também que em torno da melancolia, tema tão caro à autora, há três pontos a serem citados: a menção indireta a Borges (o espelho e o coito são malditos; a vida é algo entre duas sombras), a citação direta de uma das gravuras mais misteriosas de Dürer (já escrevi sobre ela várias vezes), “Melencolia” e, por fim, a referência à máxima latina “post coitum animal triste”. Aliás, a questão pulsão de vida x pulsão de morte discutida por Freud e depois por Lacan é presente no texto todo.

Para quem gosta de classificações, difícil classificar este texto: uma pequena novela, uma narrativa poética — e (neo)gótica —, um poema em prosa, um texto histórico, um levantamento e uma compilação de dados sobre um personagem histórico, uma busca filosófica pessoal? Eu diria que tudo isso junto. Ela chamava a este pequeno texto de “artigo” e disse em carta que quando o escreveu estava “louca”, conscientemente louca, digamos.

Se por um lado, a personagem escolhida por Pizarnik é uma das mais citadas e copiadas (direta e indiretamente na literatura), por outro lado a autora argentina trouxe um novo viés para a abordagem, o que é um mérito e tanto. A narrativa é emocionante, feita com cinzel, numa medida exata.

Há muitas abordagens possíveis, e costumo dizer que quanto mais misterioso um texto mais ele trará possibilidades… O que salta aos olhos aqui não é exatamente a história de Erzsébet Báthory, que pode ser encontrada numa googada rápida. O impressionante é a oscilação entre vida e morte (Eros e Thanatos, como citado acima) que a autora investiga. Andamos sobre o fio de uma navalha afinal, viver é perigoso, e para o melancólico o mundo pode ser perverso duplamente. Diz a autora sobre a melancolia: “Enquanto lá fora tudo acontece com um ritmo vertiginoso de cascata, lá dentro há uma lentidão exausta de gota d’água caindo de tanto em tanto. Daí que esse lá fora contemplando o lá dentro melancólico resulte absurdo e irreal, e constitua a ‘farsa que todos temos de representar’.” Vivemos num teatro, portanto, e ele pode ser cruel, macabro, triste.

Então, Pizarinik escolhe uma personagem que viveu a vida toda cercada da morte, procurando pela vida, uma dicotomia que carrega uma terrível agonia: “Despir é próprio da morte (…) Se o ato sexual implica uma espécie de morte, Erzsébet Báthory precisava da morte visível, elementar, grosseira, para poder, por sua vez, morrer dessa morte figurada que vem a ser o orgasmo.”

Pizarnik poderia ter escrito sobre Gilles de Rais, Vlad III ou qualquer outro líder sanguinário cujas histórias são, como as da condessa húngara, verdadeiras ou falsas, mas a vida de Erzsébet Báthory parecia mais próxima dos interesses da autora argentina. A condessa vivia num castelo e “amava o labirinto, que significa o lugar típico onde sentimos medo; o viscoso, o inseguro espaço da desproteção e do extraviar-se”.

O texto foi publicado pela primeira vez em 1966 e parece um triste vaticínio para o que ocorreria na Argentina anos depois, com um dos governos mais sanguinolentos das Américas. A conclusão sobre Erzsébet Báthory: “Ela é mais uma prova de que a liberdade absoluta da criatura humana é horrível.” E não difere muito dos perigos que estamos correndo exatamente agora.

Na minha lista de sugestões de férias, eu sugeri a obra poética completa da autora. E agora sugiro essa bela edição, com ilustrações do extremamente talentoso Santiago Caruso. Para sua coleção ou para presentear quem curte literatura e design. Tirando o posfácio equivocado de João Silvério Trevisan, a edição é perfeita.

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *