A vida invisível de Eurídice Gusmão

Primeiramente, esqueça o filme de Karim Aïnouz. E também nem tente uma ponte com a Eurídice perdida no Hades (caminho possível, mas desnecessário por ora). E quanto à peça de Pedro Bloch, essa passa longe dessa Eurídice aqui. Mas aqui temos uma Eurídice, perdida num labirinto, mas que acha um fio. [Sei que a personagem é outra ;)]

Depois seria o caso de pensar numa literatura ligeira, como diziam os antigos, nem ousada, nem por isso pequena; nem pequena nem por isso defensável sem restrições. Esse livro é como uma montanha-russa e faz pensar às vezes se é a mesma pessoa que escreve diferentes partes dele (se é o mesmo escritor jovem que firma a pena ao longo do livro ou se é o “preparador de texto” que deixa o texto com estranhezas, invenção curiosa da contemporaneidade, que invade o texto para que possa ser publicado por uma grande editora).

Mas há momentos bons. Há momentos bons e momentos ruins. Eu diria mesmo que há mais momentos bons que ruins e diria igualmente que a característica mais elogiada do livro até hoje é sua maior falha: o humor. E explico o porquê. Numa entrevista com o marchant Larry Gagosian, ele conta uma história sobre Basquiat. Alguém perguntou ao artista se o humor era importante na obra dele e a resposta foi: “bem, você pode rir de uma pessoa que cai de bunda”. É isso: fazer humor é sempre um problema a ser enfrentado pela literatura e pelas artes em geral. Já foi feito humor com tudo o que se possa imaginar: a morte, guerras, a família, o amor, a política e o humor-riso é tão ligado à literatura quanto a escrita dela. Então, não é pouco. Mas é algo delicado e complexo e escrevo sobre isso outro dia.

Assim… eu diria que pequenos acidentes de percurso desse livro estão em alguns trocadilhos desnecessários e quando, no começo da narrativa, o narrador entrega tudo de bandeja demais, sem margem para dúvidas ou possibilidades. Mas o livro cresce e, se o leitor mais acostumado às altas literaturas tiver paciência, encontrará uma narrativa muito honesta e sensível. A própria autora adverte o leitor de que ele encontrará ali muito das suas tias ou avós — e é bem isso. Tal proximidade com as tias e as avós torna a leitura mais atraente porque humana ou o contrário. Decida.

Muitos autores — tão díspares quanto Rubem Fonseca e Hector Heringer — descreveram o carioca com precisão. Eu falo do carioca e não do paulista, do candango ou do gaúcho, porque é o Rio da família real, do tráfico negreiro, da Bossa Nova, do Estado da Guanabara e toda a corrupção ali presente. Mas descrevem também um Rio que muito bem pode representar o restante da nação, uma vez que assentado em bases masculinistas seculares, brancas e cristãs. Em torno dessas bases, é narrada a vida de Eurídice e de muitas pessoas ao seu redor.

Curiosamente, pelo título o leitor poderá imaginar que toda a narrativa se passa em torno de Eurídice. Não. A decisão de Karim Aïnouz de alterar isso para uma adaptação BEM livre da obra transformou a vida invisível numa vida invisível de Eurídice Gusmão. Aqui, temos que a vida invisível de Eurídice Gusmão é a vida invisível de um monte de gente, notadamente as mulheres, como Guida, mas também de homens, afogados em seu caudaloso rio machista de séculos ou milênios eles também.

Como disse antes, esqueça do filme para ler esse livro. O contato entre os dois ficou selado por situações bem particulares (solidão, machismo, vidas e mortes, exílio e viagens) e se distancia imensamente em todos os outros aspectos de uma “história” de pessoas. Leve para a praia e divirta-se.

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *