A festa de Babette e a falsa singeleza de um conto

Quando Karen Blixen (Isak Dinesen) publica “Anedotas do destino” (1958), ela já tinha retornado do Quênia havia mais de uma década. O livro de contos (dentre os quais “A festa de Babette”, algo como “a festa para os convidados de Babette”, em dinamarquês) tem um título que parece remeter para sua própria experiência de vida. A saída da África tinha sido triste, ela voltara a morar na Dinamarca para reconstruir a vida, embora famosa e cotada para o Prêmio Nobel, o último dinamarquês a recebê-lo tinha sido Jensen, em 1944, e não parecia que Estocolmo escolheria outra mulher escandinava (a outra tinha sido Sigrid Undset), afora estarem preferindo, lá pelos anos 1950, obras com outro teor. Autoras que tratavam de lugares exóticos já tinham frequentado as mesas dos escolares suecos (ainda pairava no ar uma dúvida sobre a escolha de Pearl Buck… outro dia conto isso com detalhes) e Blixen realmente nunca seria escolhida. Creio cá comigo que ela não apenas merecia como queria e ansiava pelo prêmio. A vida da autora era cheia de ironias do destino mesmo.

Sobre “Festa de Babette”, que a singeleza do conto não engane. Há pelos menos dois pontos para os quais eu chamaria a atenção: a estrutura do conto mitológico/mítico/de fadas, que sempre parece simples, mas o fundo não é (vide outro conterrâneo seu, Hans Christian Andersen) e referências mais complexas, como a história de Sardanapalo, mas aqui tomada às avessas. Sardanapalo destrói tudo para que ninguém tenha o que ele tem; Babette torra uma fortuna para que alguns tenham o que ela tem, ficando sem nada. De todo modo, tanto Sardanapalo quanto Babette são egoístas a seu modo — e na decisão deles dois reside uma curiosa ironia sobre o ter e o não ter.

O que é incrível é um conto tão pequeno (eis uma das maravilhosas possibilidades do conto e os leitores de contistas famosos, desde Kafka até Machado vão me entender) possa carregar tantas camadas: a questão do amor, da relação entre passado e presente, o fim trágico (e irônico) dos artistas (Babette não é a única “artista” do conto), as agulhadas no conservadorismo, o pano de fundo histórico que flui da Paris das barricadas para uma vila no litoral dinamarquês e vice-versa, a descrição de uma curiosa, engraçada e comovente descoberta coletiva. Epifania?

Também gastaria horas falando de obras da literatura e do cinema que têm um banquete como cenário — então a comida nessa pérola literária exerce um fascínio muito grande. O fascínio atraiu o interesse de Gabriel Axel e valeu à Dinamarca seu primeiro Oscar de melhor filme (de filme estrangeiro), um filme magnífico, que aconselho num dia cinzento, cujos horizontes pareçam negros de desesperança ou brancos de uma neve que não se pode retirar da estrada.

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