15 mulheres para ler nas férias

Segue minha lista de sugestões para as férias. Procurei listar obras dos quatro cantos do mundo, que possam ser encontradas em livrarias e em sebos virtuais. Falta a Oceania… Lamento.

Você vai encontrar falta da Elena Ferrante ou de Maria Valéria Rezende ou ainda de Margaret Atwood… Em verdade, vai encontrar a falta de muitas autoras de interesse.

Listei autoras que reli ou li pela primeira vez em 2019 (exceto Anne Carson) — e o recorte arbitrário foi esse. Para minimizar minha arbitrariedade, escolhi obras que tratam da condição feminina e, por isso, um título e não outro dos nomes que aparecem aí logo abaixo. Há romances, narrativas curtas, poesia e um relato que se aproxima do jornalismo literário. Três autoras já são falecidas mas suas obras têm a ver com o momento por que passamos.

Espero que curtam a lista e que não me odeiem por não colocar aí seu autor predileto.

As obras falam por si. Há preciosidades em vários sentidos de “preciosidade” nesses 15 nomes.

Bom fim de ano a todos, boas leituras e muita força em 2020.

1. Tsitsi Dangarembga: Nervous Conditions (Zimbábue)
2. Marise Condé: Eu, Tituba, bruxa negra de Salém (Guadalupe)
3. Bessie Head: When rain clouds gather (Namíbia)
4. Olga Tokarczuk: Sobre os ossos dos mortos (Polônia)
5. Anne Carson: Glass, irony and God (Canadá)
6. Ludmila Ulitskaya: Sonechka (Rússia)
7. Han Kang: A vegetariana (Coreia)
8. Ana Paula Maia: Assim na terra como embaixo da terra (Brasil)
9. Elsa Morante: A ilha de Arturo (Itália)
10. Monique Wittig: As guerrilheiras (França)
11. Banana Yoshimoto: Tsugumi (Japão)
12. Etty Hillesum: Uma vida interrompida (Holanda)
13. Conceição Evaristo: Ponciá Vivêncio (Brasil)
14. Nawal el Saadawi: Woman at point zero (Egito)
15. Alejandra Pizarnik: Poesia Completa (Argentina)

Murakami, ainda que mais uma vez

Já disse várias vezes (já fiz até um “manual” de leitura para ele), mas não custa repetir, que, em Murakami, o saber está na teratologia. Não vai ser encontrado nas academias e nas bibliotecas (embora, ali também), mas o saber está onde menos se espera, principalmente nos lugares menosprezados pela elite cultural, a despeito do gosto erudito por música — e artes em geral — que aparece nas obras do autor japonês.

Já disse aqui também que as obras de Murakami são construídas em estratos. Não falo da leitura ou da “recepção” às obras de Murakami. Qualquer obra literária pode ser lida em camadas — e a leitura erudita dependerá do leitor e não do escritor. Digo que as obras de Murakami são construídas com certa complexidade em camadas para atingirem diferentes leitores. Não é de se estranhar que no meio de seu vasto time de admiradores estes gostem de aspectos bem diferentes entre si no que tange às obras dele: o policialesco, o fantástico, o intimismo, a intertextualidade/interdiscursividade vibrante dos romances e contos, a habilidade desconcertante que ele tem para criar personagens.

Eu costumo lembrar que, para quem gostaria de leituras mais profundas de suas obras, seria interessante ter em mente que grande parte delas parte de uma base que é a do sonho tantálico ou a do sonho sisífico. Em grande parte das vezes, as personagens não conseguem atingir certo objetivo, mesmo que ele esteja perto. Isso causa uma angústia crescente, uma busca pela verdade, pelo acerto, pelo apaziguamento do espírito. Não é pouco. Não estranhe, portanto, se você encontrar resquícios de leituras de Bataille e Mishima em seus relatos. Essas personagens perturbadas por um certo espinho no flanco ou por um acontecimento inesperado precisarão encontrar respostas, que não virão de pronto, e serão encontradas após percorrerem um caminho tortuoso, repleto de descobertas igualmente desconcertantes (e muito fora do que uma academia científica poderia explicar). O segredo está ali, diz ele, seu narrador, em todo lugar, talvez, e eu arriscaria dizer que há uma leitura religiosa do mundo nessa busca e nessa construção. Para explicar a isso, seria importante estudarmos um pouco mais de perto religiões — e não caberia explicar aqui, infelizmente, tal visão de mundo.

Há mundos dentro de mundos em suas narrativas, assim como há portais para se acessá-los. Para o neófito nas artes da busca, os mundos descobertos podem ser assustadores, mas depois haverá calmaria. Há portas secretas para tais mundos, que podem ser poços, alçapões, um parque de diversões abandonado (certamente, você já viu isso em algum livro ou filme, certo? É isso mesmo: ele dialoga com textos da tradição e também com filmes, livros da modernidade, as narrativas mais variadas, afinal, seria incoerente da parte dele acreditar num mundo de maravilhas misteriosas advindas de uma só fonte).

O leitor vai deparar, aqui, com algumas obsessões do escritor: uma pessoa sem rosto ou sem “cor” (os ideogramas para “sem cor” diferem dos do “Tsukuru Tazaki”, mas a ideia é similar), outra que tem os cabelos totalmente brancos, a despeito da idade, amantes comuns, corpos comuns, música erudita, pintura (aqui com mais força), história japonesa, o diálogo com o Ocidente a partir do XIX, fundamentalmente, o enigma da chegada/partida, histórias do sobrenatural de diversas tradições.

Para mim, Murakami é maior quando consegue juntar numa mesma obra duas especialidades suas: o mistério e a investigação humana. Dos autores vivos, Murakami tem uma raríssima habilidade, que já citei acima, a de construir personagens incríveis. [Você prefere Dostoiévski, Mann ou Machado, certo? São genialidades distintas.]

Costumo também dizer, sem querer finalizar, que a genialidade de Murakami em criar situações fantásticas vem de uma longa tradição literária: Luciano colocou mortos conversando no Hades, Rabelais criou mundos fantásticos, Francesco Colonna criou um romance onírico, Rosa um sertão místico e por aí vai.

Ler Murakami sempre é um novo crédito para a possibilidade da beleza. Estamos precisando disso como nunca.

A vida invisível de Eurídice Gusmão

Primeiramente, esqueça o filme de Karim Aïnouz. E também nem tente uma ponte com a Eurídice perdida no Hades (caminho possível, mas desnecessário por ora). E quanto à peça de Pedro Bloch, essa passa longe dessa Eurídice aqui. Mas aqui temos uma Eurídice, perdida num labirinto, mas que acha um fio. [Sei que a personagem é outra ;)]

Depois seria o caso de pensar numa literatura ligeira, como diziam os antigos, nem ousada, nem por isso pequena; nem pequena nem por isso defensável sem restrições. Esse livro é como uma montanha-russa e faz pensar às vezes se é a mesma pessoa que escreve diferentes partes dele (se é o mesmo escritor jovem que firma a pena ao longo do livro ou se é o “preparador de texto” que deixa o texto com estranhezas, invenção curiosa da contemporaneidade, que invade o texto para que possa ser publicado por uma grande editora).

Mas há momentos bons. Há momentos bons e momentos ruins. Eu diria mesmo que há mais momentos bons que ruins e diria igualmente que a característica mais elogiada do livro até hoje é sua maior falha: o humor. E explico o porquê. Numa entrevista com o marchant Larry Gagosian, ele conta uma história sobre Basquiat. Alguém perguntou ao artista se o humor era importante na obra dele e a resposta foi: “bem, você pode rir de uma pessoa que cai de bunda”. É isso: fazer humor é sempre um problema a ser enfrentado pela literatura e pelas artes em geral. Já foi feito humor com tudo o que se possa imaginar: a morte, guerras, a família, o amor, a política e o humor-riso é tão ligado à literatura quanto a escrita dela. Então, não é pouco. Mas é algo delicado e complexo e escrevo sobre isso outro dia.

Assim… eu diria que pequenos acidentes de percurso desse livro estão em alguns trocadilhos desnecessários e quando, no começo da narrativa, o narrador entrega tudo de bandeja demais, sem margem para dúvidas ou possibilidades. Mas o livro cresce e, se o leitor mais acostumado às altas literaturas tiver paciência, encontrará uma narrativa muito honesta e sensível. A própria autora adverte o leitor de que ele encontrará ali muito das suas tias ou avós — e é bem isso. Tal proximidade com as tias e as avós torna a leitura mais atraente porque humana ou o contrário. Decida.

Muitos autores — tão díspares quanto Rubem Fonseca e Hector Heringer — descreveram o carioca com precisão. Eu falo do carioca e não do paulista, do candango ou do gaúcho, porque é o Rio da família real, do tráfico negreiro, da Bossa Nova, do Estado da Guanabara e toda a corrupção ali presente. Mas descrevem também um Rio que muito bem pode representar o restante da nação, uma vez que assentado em bases masculinistas seculares, brancas e cristãs. Em torno dessas bases, é narrada a vida de Eurídice e de muitas pessoas ao seu redor.

Curiosamente, pelo título o leitor poderá imaginar que toda a narrativa se passa em torno de Eurídice. Não. A decisão de Karim Aïnouz de alterar isso para uma adaptação BEM livre da obra transformou a vida invisível numa vida invisível de Eurídice Gusmão. Aqui, temos que a vida invisível de Eurídice Gusmão é a vida invisível de um monte de gente, notadamente as mulheres, como Guida, mas também de homens, afogados em seu caudaloso rio machista de séculos ou milênios eles também.

Como disse antes, esqueça do filme para ler esse livro. O contato entre os dois ficou selado por situações bem particulares (solidão, machismo, vidas e mortes, exílio e viagens) e se distancia imensamente em todos os outros aspectos de uma “história” de pessoas. Leve para a praia e divirta-se.

A festa de Babette e a falsa singeleza de um conto

Quando Karen Blixen (Isak Dinesen) publica “Anedotas do destino” (1958), ela já tinha retornado do Quênia havia mais de uma década. O livro de contos (dentre os quais “A festa de Babette”, algo como “a festa para os convidados de Babette”, em dinamarquês) tem um título que parece remeter para sua própria experiência de vida. A saída da África tinha sido triste, ela voltara a morar na Dinamarca para reconstruir a vida, embora famosa e cotada para o Prêmio Nobel, o último dinamarquês a recebê-lo tinha sido Jensen, em 1944, e não parecia que Estocolmo escolheria outra mulher escandinava (a outra tinha sido Sigrid Undset), afora estarem preferindo, lá pelos anos 1950, obras com outro teor. Autoras que tratavam de lugares exóticos já tinham frequentado as mesas dos escolares suecos (ainda pairava no ar uma dúvida sobre a escolha de Pearl Buck… outro dia conto isso com detalhes) e Blixen realmente nunca seria escolhida. Creio cá comigo que ela não apenas merecia como queria e ansiava pelo prêmio. A vida da autora era cheia de ironias do destino mesmo.

Sobre “Festa de Babette”, que a singeleza do conto não engane. Há pelos menos dois pontos para os quais eu chamaria a atenção: a estrutura do conto mitológico/mítico/de fadas, que sempre parece simples, mas o fundo não é (vide outro conterrâneo seu, Hans Christian Andersen) e referências mais complexas, como a história de Sardanapalo, mas aqui tomada às avessas. Sardanapalo destrói tudo para que ninguém tenha o que ele tem; Babette torra uma fortuna para que alguns tenham o que ela tem, ficando sem nada. De todo modo, tanto Sardanapalo quanto Babette são egoístas a seu modo — e na decisão deles dois reside uma curiosa ironia sobre o ter e o não ter.

O que é incrível é um conto tão pequeno (eis uma das maravilhosas possibilidades do conto e os leitores de contistas famosos, desde Kafka até Machado vão me entender) possa carregar tantas camadas: a questão do amor, da relação entre passado e presente, o fim trágico (e irônico) dos artistas (Babette não é a única “artista” do conto), as agulhadas no conservadorismo, o pano de fundo histórico que flui da Paris das barricadas para uma vila no litoral dinamarquês e vice-versa, a descrição de uma curiosa, engraçada e comovente descoberta coletiva. Epifania?

Também gastaria horas falando de obras da literatura e do cinema que têm um banquete como cenário — então a comida nessa pérola literária exerce um fascínio muito grande. O fascínio atraiu o interesse de Gabriel Axel e valeu à Dinamarca seu primeiro Oscar de melhor filme (de filme estrangeiro), um filme magnífico, que aconselho num dia cinzento, cujos horizontes pareçam negros de desesperança ou brancos de uma neve que não se pode retirar da estrada.