Banville pega um tema à beira do cafona e faz um grande romance

Podemos nos perguntar qual a razão da literutura após “Passeio ao farol” ou Mrs. Dalloway”. A pergunta é válida, mas ela descortina uma séria de situações. Voltando ao tempo, se a situação é a escrita em inglês, qual a razão de se fazer literatura após Dafoe, Swift, Shakespeare?

Uma das mais intrigantes e maravilhosas características da literatura é sua capacidade de reinventar-se, mesmo que repita estruturas ou temas. Afinal, temas podem ter o mesmo nome (o amor, a descoberta, a morte), mas cada época construirá sua própria rede discursiva para tratar de um assunto.

John Banville tem uma capacidade acima do comum para lidar com coisas interiores. Esse mar que dá título ao livro é tanto o mar exterior, que nos pacifica ou exaure, quanto o mar interior, que tem função semelhante. Aqui, ele coloca frente a frente um homem já no ocaso da vida e o menino que ele foi: o homem descobre a proximidade da morte enquanto o menino as possibilidades da vida. Tema espinhoso e a um passo de se tornar vulgar ou cafona, nas tintas de Banville se transforma num dos grandes romances do primeiro quartel do século.

Para quem se aventurar por ele, vai encontrar descrições de cenas como se descreve uma pintura (o narrador/herói é um crítico ou historiador da Arte, afinal). No entanto, a fatura é tão boa, que se esquece de estar lendo uma narrativa. Ele, Banville, consegue fazer o leitor andar pelos corredores de uma galeria ou museu, um museu da memória do indivíduo, com belezas e crudelidades tratadas com o esmero de uma pintura antiga, a óleo, em camadas.

Condé e Gonçalves: vozes das mulheres negras

Já escrevi por aí que o romance histórico é um texto duplamente falso. Antes de ser processado por difamação, eu explico: se o texto histórico é já por si um texto “falso”, uma leitura do passado (com dez mil páginas de teses sobre o que seria isso), o romance histórico seria um duplo salto mortal sobre o dado, o fato, a abordagem.

Quanto mais eu leio sobre a história e sobre o romance histórico, menos eu o entendo. Então, prefiro aceitá-lo. Sei o que é, mas prefiro não explicar quando me perguntam…

Já escrevi sobre isso e tantos antes de mim: o romance histórico é um universo, de escritores, de tempos vividos, de modos de escrita. Alguns, mais históricos; outros, mais filosóficos. Há quem misture a história e a psicanálise, a história e a sociologia, etc. Mas eles revivem de tempos em tempos e são um desafio para literatos, historiadores, sociólogos, e por aí vai. E desafio também para leitores comuns, sem a menor preocupação com a teoria.

É para esses leitores que escrevo, hoje.

Marise Condé é de Guadalupe. Tem 82 anos. Ano passado, na falta de uma escolha para o Nobel, ela ganhou um prêmio alternativo, The New Academy Prize in Literature. É de expressão francesa. Há muito que dizer dessa mulher e dessa escrita. Obviamente, grande parte dos escritores da segunda/terceira diáspora negra foram obrigados a adotar a língua do colonizador/conquistador e grande parte da literatura divulgada no Atlântico Negro é em francês, inglês, espanhol, português e, quando muito, holandês. Difícil encontrar escritores de grande divulgação que escrevam em outros idiomas, seja o africânder, o papiamento e mesmo o suahíli (se pensarmos no lado índico africano). Hoje, escritores de certa projeção, como Dengarembga, escrevem em inglês. Lógico: sua língua materna é essa. Outros, como Ngũgĩ wa Thiong’o, têm tentado uma volta às origens idiomáticas.

Então, Marise Condé é de expressão francesa, professora, inclusive de francês e filologia românica em Cambridge. Exigir de escritores negros que optem por uma língua que não a sua materna é um dos erros mais gritantes do processo de entendimento dos descendentes de africanos nas Américas. E suas preocupações: a situação negra, o colonialismo, o pós-colonialismo, o decolonialismo, a situação da mulher negra em particular, vítima de múltiplos preconceitos, sexualizada ao extremo, usada como objeto, e depois esquecida pela história, com múltiplas camadas de vulnerabilidade.

Há muito que ver nesse livro em particular, “Eu, Tituba, bruxa negra de Salém”: a linguagem simples confunde à primeira vista. Condé assume uma linguagem simples e direta, mas não menos cruel ou poética, mesmo quando a dor fala mais alto, em descrições sem titubeios. Em primeira pessoa, temos a voz de uma mulher, que utiliza os mesmos mecanismos de narração branca e masculina de séculos de presença centralizadora mas que aqui cede espaço para uma narração a partir da voz negra, do desterrado, do que foi humilhado e ultrajado. Um romance denúncia? Sim, dentre tantos potentes romances denúncia, mas uma potente e bela escrita. E ela deixa o eco das narrativas tradicionais africanas chegar até o leitor. É um processo comovente.

A lista de romances que poderia citar aqui, que dialogam com este, é longa: vai de Alice Walker (“A cor púrpura”) a Ana Maria Gonçalves (“Um defeito de cor”). Sobre este último, aconselho muito sua leitura. O levantamento histórico e a coragem de publicar um romance de mil páginas é coisa rara na escrita recente do Brasil.

Listinha de férias para você: Condé, Dengarembga, Walker, Gonçalves.

A honra perdida de Katharina Blum, de Heinrich Böll

Um pequeno grupo de amigos de expressão alemã (alemães e suíços, basicamente), lá pelos anos 1980 e 90, preferia ler Böll a outros escritores mais antigos. Thomas Mann, por exemplo, estava para eles como Machado para muitos de nossos estudantes (guardadas as devidas proporções) e era mais uma atividade obrigatória escolar do que uma leitura agradável.

Isso não é tão difícil de compreender: meus amigos tinham nascido em fins dos anos 1950 ou nos anos 1960 e lá pelos anos 1970 estavam na escola. Böll é um grande representante da literatura dos anos 1970, não apenas do que se produzia na Alemanha. Meus amigos se sentiam mais representados por Böll (e talvez por Grass) do que por Berhard e autores da velha guarda, como Thomas Mann.

A Alemanha dos anos 1970 vivia um certo milagre econômico do pós-guerra, e meus amigos viviam muito bem, a despeito do tipo de trabalho que tivessem. Era muito estranho para eles, quando vinham ao Brasil, ver a disparidade econômica e social aqui presente — e o resto, aqui e lá, sabemos ao menos razoavelmente.

“A honra perdida de Katharina Blum — de como surge a violência e para onde ela pode levar” é uma das obras mais impressionantes de Böll, e, dada à sua objetividade e brevidade, ela impressiona duplamente. Eu chamaria atenção para o diálogo que ele faz, em relação à linguagem, a outros três tipos de gêneros textuais: o teatro (muito do livro se assemelha à estrutura teatral, notadamente o modo como as informações surgem, como se num palco), o jornal (crítica mais contundente do livro, que ele chama de “panfleto”) e os textos teóricos sobre a escrita (o que produz uma leve metalinguagem, de consequências narrativas muito produtivas e curiosas).

Ao narrar parte da vida de uma empregada doméstica, engolfada pelas práticas sociais e pelo discurso perverso de um jornal marrom, Böll encontra tempo para diagnosticar diversos tipos de violência contra a mulher (certamente, à época, o livro não foi visto assim), a crítica ao sistema de informação e ao como circulam as informações, muitas delas, “de ouvir falar” e à corrupção aberta de qualquer sistema político, à esquerda ou à direita. Böll, questiona-se, por exemplo, se o governo alemão da época não era um “pseudo-governo de esquerda pela metade” (alguma semelhança? Leia, por favor, e me conte depois).

O mais curioso (?), triste (?), motivante (?) dessa leitura é perceber que Böll escreveu esse livrinho muito antes do advento da internet, ou seja, o modo como as informações circulam hoje é muito mais letal do que o modo como circulavam nos anos 1970.

Uma leitura necessária e atualíssima, de um grande autor de expressão alemã, não exatamente muito divulgado no Brasil.

Se desejar, compare, entre outras obras dele como “Pontos de vista de um palhaço” e “O anjo silencioso”. Se quiser verificar como andam as narrativas advindas desse tipo de fazer literário, aconselho Ingo Schulze. Não estranhe encontrar no Brasil obras com essa linguagem despojada de “A honra perdida de Katharina Blum”. É isso mesmo que anda ocorrendo, quase meio século depois…

P.S. para quem curte fofocas do Prêmio Nobel, a escolha de Böll se deu “pela sua capacidade de falar a linguagem de seu tempo e de renovar a literatura alemã”. A Alemanha tinha ficado fora da premiação durante bastante tempo — e foi certa ousadia dar o prêmio a um escritor razoavelmente jovem (55), dono dessa escrita “atual” e ainda por cima abertamente de esquerda.

O casaco de Marx

Stallybrass escreve três pequenos ensaios, simples, despretensiosos, mas muito bonitos, em que a roupa aparece mais ou menos como personagem (mais o primeiro e o segundo).

No primeiro, há um belo levantamento de alguns textos da literatura em que a roupa é vista no seu aspecto simbólico, de lembrança ou dor. No segundo, ele conta como o casaco de Marx foi e voltou da penhora enquanto o filósofo escrevia seu mais conhecido trabalho.

O autor lembra que a roupa já foi espólio, herança, peça de desejo pelo valor simbólico ou financeiro, e que até o alvorecer do mundo moderno, quem que a indústria têxtil e a do fabrico de roupas começam a florescer, a roupa era um objeto extremamente caro.

Há menções ao belo texto de Roth (“Patrimônio”), entre outros, e vários cruzamentos aí são possíveis, seja com Madame Bovary (quando ela começa a se “enfeitar” com coisas caras), seja com “Dom Casmurro” (nas cenas em que Capitu troca seu guarda-roupa de solteira pelo de casada), seja com o Gogol de “O capote”.

Uma leitura agradável num livrinho para ser lido numa sentada só.

Na Amazon: O casaco de Marx: Roupa, memória, dor