Os Vagantes e as preferências do Nobel

Hummm. Pois é.

Por onde começar? Um pouco de história da Literatura, salpicada de crítica literária (uma corruptela de teoria literária) e muita fofoca.

Ontem mesmo eu lia meu livro atual de cabeceira, “Mrs Dalloway” e me perguntava, de novo, se haveria alguma literatura possível posterior a Virginia Woolf. A mesma pergunta eu me fazia quarenta anos atrás com Marguerite Yourcenar e depois, quando “Memórias de Adriano” cedeu lugar na mesinha de cabeceira mental a “O livro do travesseiro”, de Sei Shōnagon.

A pergunta é absurda, atrevida e provocativa. A literatura, vivendo ou não de uma antropofagia, como quiseram entendê-las alguns estudiosos, sempre é viva e todas as épocas tiveram as suas respectivas e belas literaturas, orais ou escritas, canônicas ou fora do cânone. Após Woolf, e após as tentativas não frustradas de o modernismo subverter a etiqueta romanesca do mundo moderno (que teria começado com quem? Cervantes? Dostoiévski?), os artistas posteriores subverteriam a escrita romanesca até os limites possíveis de qualquer rompimento: personagens, espaço, tempo, enredo, ou seja, tudo o que vc viu ou não viu nas aborrecidas aulas de Literatura I e II de uma universidade de Letras.

Os rompimentos continuam, muito para além do nouveau roman de Claude Simon, ou de um pouco lido aqui no Brasil Efraim Medina Reis. Isso — os rompimentos — explica, em parte, um escrito (que nem é chamado “romance”) de Olga Tokarczuk, laureada de 2018 com o Nobel de Literatura.
Já disse aqui outras vezes que a literatura contemporânea deslocou, em parte, o narrador em busca do “outro”. Deslocou-o em busca do “eu”. Explico: esse narrador vive ao redor do seu umbigo. Tal busca não ocorre apenas na produção literária; ocorre também na crítica. Já apontei diversas vezes como a maioria dos “críticos” atuais (leitores de meia dúzia de romances) começa a crítica por “eu”, o que é curioso, quando o objetivo é “ler o outro”, tentar entender o outro, tentar investigar o outro. Nesse tipo de crítica, o crítico é mais relevante que a obra analisada… Lamento dizer que uma parte considerável da produção acadêmica tem seguido o mesmo caminho. Não apenas há uma busca do “eu” como mestrandos e doutorandos querem fazer uma pesquisa em primeira pessoa como fossem, já, grandes nomes da investigação acadêmica. Mutatis mutandis, veja isso em outras áreas de criação artística e depois me conte.

O Nobel andava havia décadas em dívida com as escritoras: romancistas, poetas ou poetisas, como preferir, historiadoras, filósofas. Tinha premiado uma ou outra, como Pearl Buck, e se arrependido da nomeação {!} Pois é. Nem sempre a nomeação é feliz. Daí, nos últimos anos, uma (in)feliz corrida para premiar mulheres (isso tudo vindo de uma academia com um chocante caso de assédio sexual contra mulheres). Mas a preferência é estranha: em vez de Anne Carson ou Marise Condé… Svetlana Alexievich e Olga Tokarczuk. E autoras de obras pequenas ou de um bom romance só, como Elfriede Jelinek.

Bem; prêmios e suas escolhas. Vá saber.

Esse livro de Tokarczuk, “Os vagantes” é vendido como “ficção polonesa” e na orelha um dedicado crítico (o tradutor?) tenta nos convencer de que se trata de um romance. Vá saber o que ali é ficção e não-ficção. Vá saber o que é um tipo de memorabilia e o que é crônica ou ainda o que é simples anotação de viagem. Ou ainda sketches possíveis para um curta, um longa, um conto.

Obviamente, muitos excelentes textos literários têm uma construção fragmentada e obviamente se a definição de “romance” avançou até os limites de um rompimento possível, do ponto de vista teórico, por que não poderia ter ocorrido o mesmo com a ideia de “ficção”? E há textos jornalísticos, filosóficos, sociológicos tão bem escritos como fossem uma ficção de qualidade — e tal descoberta no seio da Teoria Literária é tão antiga quanto andar para frente, ou virar uma página.

Ao mesmo tempo — e sabendo-se que a academia terá daqui para a frente uma “assessoria” para lidar com o “novo”, o que deixará autores como Cees Nooteboom e Ismail Kadarés cada vez mais distantes da premiação — esse livro de Tokarczuk tem muito a ver com o mundo da cibercultura, das nuvens de informação e do “grande computador”, de que não se sabe ao certo onde nasce e se tem um fim: chame isso de “a grande rede” (e pense em Pierre Lévy). Quero dizer com isso que a vida é fragmentada mesmo e que criadores das mais diversas áreas criativas lidam com tal realidade em suas buscas estéticas, seja no teatro, na dança ou nas artes plásticas. Se treinarmos o olhar, poderemos ver isso com certo sorriso no rosto.

Também vivemos uma época em que tudo o que se escreve pode ser levado em consideração. Para o estudioso da literatura mais conservador, trata-se de um tormento; para os jovens estudiosos, sua salvação. No caso da escritora polonesa, decida se “Os vagantes” é obra de uma voz tão relevante que cabe juntar tudo num livro de quase 400 páginas e transformar a massa num romance. [Agora, sim, pois ela tem um Nobel.]

Embora o grande mérito do prestigiado livro seja talvez falar do nada e do “grande vazio” (penso cá com meus botões em Lipovetsky), espero que as outras obras da autora sejam de maior relevância e que não tenhamos outro Modiano, cujos romances parecem uma fotocópia de si mesmo (é pleonasmo isso, produção?).

E, se você se aventurar pelas páginas de “Os vagantes”, vai encontrar bons momentos, que fogem de uma memorabilia banal, escrita rapidamente num caderninho num banco de aeroporto. Se você for espertão, vai encontrar ali outras metáforas marcantes da vida do século XXI e poderá caprichar naquela mono para Literatura Polonesa II do seu curso.

[Se vc curte autores poloneses ou prêmios Nobel ou os dois, a Polônia já foi laureada com Sienkiewicz, Ladislau Reymont, Czesław Miłosz, Wisława Szymborska e Tokarczuk. Desses, o único mais difícil de achar em português é Reymont. Dos poetas modernos, sugiro a leitura de Adam Zagajewski, um esquecido do prêmio.]

O primeiro Nobel japonês

Quando o comitê do prêmio Nobel decidiu finalmente laurear a língua japonesa (nos trabalhos antigos, era designado ao menos um componente do comitê que conhecesse a língua a ser homenageada), em 1968, tinha uma tarefa de Páris: escolher entre Yukio Mishima, Junishiro Tanizaki e Yasunari Kawabata. Eram os maiores escritores vivos do Japão, um país que ja tinha sido terra, pátria e fonte de inspiração para nomes como Soseki e Akutagawa, entre outros.

Havia três escritores obcecados pelo corpo, pela memória, pelo Japão tradicional e pelo Japão em profundo desenvolvimento. O que o comitê procuraria no laureado: a busca pelo Japão Meiji ou o Japão que mirava o futuro e que chegaria até ele bem antes de qualquer nação da Terra? Premiaria a ousadia de Mishima e seus temas complexos, duros, malditos? Tanizaki, com suas investigações sobre o obscuro da alma humana presente no mais simples gesto de bom dia? Diz-se que a vida de Kawabata pesou bastante na escolha — e lá pelos anos 1960 “O país das neves” tinha conquistado grande público mundo afora, e um texto em particular chamava a atenção pela simplicidade, singularidade, frescor da vida da juventude: “A dançarina de Izu”, obra na qual havia mais do Kawabata ele mesmo que de um Kawabata-voz-literária. Escolha feita, prêmio outorgado. Ali estava o escritor órfão, o escritor de olhar triste, e um relato da juventude, tão verdadeiro quanto a melhor ficção. [Meiko Shimon lembra que é extremamente raro encontrar um estudo sobre Kawabata que não leve em consideração sua vida de órfão…]

Quem tem acesso ao acervo do Ohara Museum of Art pode se deparar com a tela Scarlet Rug, com data de 1932. Como o museu foi fundado com ênfase em arte moderna, a tela faz parte de um conjunto impressionante de Monets, Pissaros, Cézannes. Nada mais natural do que pensar que Scarlet Rug seja um Gauguin, pois o museu conta, por exemplo, com Te nave nave fenua, do pintor francês, que retrata uma mulher do Pacífico, provavelmente numa das passagens de Gauguin pelo Taiti. O que se vê na tela de 1932: duas mulheres orientais a se deliciar ao sol, lânguidas, a um só tempo sensuais e contemplativas. Poucos traços definem suas feições, há pinceladas fortes, grossas, e o fundo em cores chapadas não deixa dúvidas – trata-se de um Gauguin. Mas algo incomoda: a data da pintura, 1932. Gauguin morrera trinta anos antes. A tela também não faz parte do acervo de pinturas européias e sequer tem exposição permanente, como Degas ou Poussin. O especialista, claro, sabe tratar-se de uma pintura com influência de Gauguin, mas o leigo precisa fazer a leitura: “Scarlet Rug, oil on canvas, Mitsutani Kunishiro, 1932”.

Cito essa tela porque ela é uma boa metáfora para a literatura do modernismo japonês. Difícil encontrar o fio ali: se se começa pelos ecos do Japão antigo e tradicional ou se começa pelo diálogo com a literatura europeia (hoje, americana, de diversas origens, sejam os EUA de Faulkner ou a Colômbia de Márquez).

Fofocas à parte, um bom começo para adentrar o castelo ficcional de Kawabata. E se você não leu Mishima e Tanizaki, está esperando o bonde da história?

Handke deveria ser mais lido e mais discutido

Não sei se o (bom) escritor é antena da raça, como imaginou um dia Pound, num texto de 1934. Sei que o bom escritor está sintonizado com as coisas de seu tempo e alguns, mais privilegiados, conseguem antecipar discursos. Sei que tal ideia, a da antecipação, possa soar estapafúrdia porque para os da filosofia da linguagem ou para a análise do discurso isso seria impossível: lidamos com a voz do outro, oriunda de um passado ou de um presente que… já é passado.

Sei que Peter Handke tem uma capacidade raríssima de lidar com discursos delicados e/ou espinhosos, alguns que, anos mais tarde à publicação de seus escritos, tornar-se-ão de domínio comum, ou de uma discussão comum.

Este romance assombroso de 2002, publicado no Brasil em 2009, segue isso. É um romance de busca e de meditação, de encontros e de sustos, algo quase sem paralelo na produção romanesca do começo de século, a começar pelo tamanho da obra e por sua estrutura. Não se trata de um romance simples. Aliás, sua leitura é lenta e difícil mesmo. Handke, aqui, usa pequenos blocos de texto, que junta para formar uma construção pesada e densa, de uma beleza rara, creio que em qualquer idioma.

Tomo a liberdade de deixar um trechinho: “E neste instante, conta-se que ela, senhora de sua história, ali na plataforma de granito em pleno ermo, perto do Passo da Cadeleda, passou repentinamente desse seu pensar para o discurso direto e expresso, e continuou dizendo ao outro, numa voz claramente audível: ‘E é justo no que há de perdido, em tudo que dá a impressão de abandono e perdição, que o meu entusiasmo por essa gente daqui coincida com o seu’.”

Já li aqui e ali que esse romance é um libelo a favor disso e daquilo. Qual romance não seria? De todo modo, as discussões altamente filosóficas desse livro o posicionam num lugar muito especial da fatura romanesca, a do romance de teor filosófico. Sempre penso que Handke deveria ser mais lido e mais discutido.

Enquanto Agonizo: as vozes assustadoras de uma família

Faulkner escreveu este livro trabalhando numa hidrelétrica, nas madrugadas, quando o trabalho era menor. Fez isso durante oito semanas (ele disse que foram seis, mas foram oito), sem grandes alterações. Quis construir um romance mais “popular”, que lhe “garantisse dividendos”.

Mas imaginemos os escritos populares de um gênio. Faulkner imprimia até mesmo nas histórias populares um quê de causo e um quê de novidade literária só comum para mestres da escrita. Não é à toa que a narrativa americana de que gosto mais após “O grande Gatsby” é “A rose for Emily”, de Faulkner.

Em “Enquanto agonizo”, temos a história de uma família que decide enterrar a matriarca no local onde ela escolheu. Para isso, terão de gastar o que não têm. Em verdade, essa é apenas uma linha em torno da qual Faulkner faz rodopiarem as personagens (pai, filhos, outros), cada qual com sua voz, suas dores, seu testemunho de um universo abaixo da linha da pobreza. Chegam a ser assustadoras tanto a voz de cada um, num vai-e-vem de dizeres e tempos, quanto a forma como ele constrói esse romance atípico para fins da década de 1920.

Fofoca: James Franco produziu e dirigiu em 2013 uma adaptação dessa terrível história. É uma das poucas vezes na vida em que podemos dizer: “não li o livro, mas vi o filme”.

[Para os interessados na História da Literatura e em especial pelo modernismo, eis o que temos na época em que Faulkner produziu essa pequena joia americana:

Kafka: O processo: 1925
Thomas Mann: A montanha Mágica: 1924
Virginia Wolf: Mrs. Dolloway: 1925
Joyce: Ulisses, 1922
Döblin: Berlin Alexanderplatz: 1929
Proust: O tempo redescoberto: 1927
Schnitzler: Breve romance do sonho: 1926
Müsil: O homem sem qualidades: 1930 (primeira parte)
Mário de Andrade: Amar, verbo intransitivo: 1927
Akutagawa: Kappa: 1927
Lu Xun: A verdadeira história de Ah Q: 1923

Sugiro todas, para quem quiser conhecer o gênio da década de 1920.] 

Glória. E a morte precoce de um grande autor

Victor Hering nos deixou cedo. O autor faleceu aos 30 anos, em 2018. Das vozes novas em português brasileiro, era uma das mais empolgantes.

Dele, os leitores podem se deliciar com “Glória”, palavra que faz menção ao bairro carioca, mas também ao substantivo comum.

Há inúmeras narrativas da tradição que tratam da história “dos três irmãos”. Meu primeiro livro, presente da professora da terceira série, tratava da história de três irmãos com qualidades distintas: um bonito, um forte e um inteligente. Claro, o inteligente encontrava a cura para um certo mal, mostrando que a inteligência é mais importante que a beleza física ou a força. Não posso provar isso, mas a mim me parece que Heringer traz essa narrativa para o presente, em particular para o Rio de Janeiro, onde três irmãos, Daniel, Abel e Benjamim vivem experiências de vida com um pequeno toque surreal. Evidentemente, trazendo uma narrativa da tradição para o presente, ele não a recupera exatamente. A ironia é muito bem vinda.

A narrativa é atravessada por um humor bastante ácido e nem sempre muito confortável. Por vezes, a mesma piada repetida ao infinito começa a perder a graça, mas aí está o golpe de mestre de Heringer: o livro trata justamente disso — uma família vive um tipo de praga ou de marca que diz respeito ao humor, que perde a graça ao longo do tempo.

Há grandes momentos na narrativa, que acaba dizendo muito de nós, brasileiros, e fica aqui como leitura recomendada.