Pedro Páramo e o mundo dos mortos

Obras que lidam com o mundo após a vida não são incomuns desde a Antiguidade; prova disso é o magnífico “Diálogo dos mortos”, de Luciano. Na modernidade, e em português, o não menos impressionante “Memórias póstumas de Brás Cubas”. O mundo dos mortos pode surgir ele mesmo, um lugar físico, onde habitam os mortos, ou de forma metafórica, onde habitam os vivos num lugar “de morte”. Fica aqui a sugestão de “Memórias da casa dos mortos”, do sempre assustador Dostoiévski.

Obras que se passam num mundo encantado, de sonho, mítico, etc., também não são estranhas à literatura, e cito aqui o curiosíssimo “Batalha de amor em sonho de Polifemo”, obra atribuída a Francesco Colonna.

Se unirmos esses dois mundos, o da morte e o do sonho, estaremos nos avizinhando de um modo de fazer literário que ficou conhecido mundo afora lá pelos anos 1960, mas que floresceu a partir da década de 1940 notadamente na América espanhola. A Europa andava cultivando outro tipo de fazer literário (dali a pouco surgiria um grupo como o Oulipo, por exemplo), e a grande sensação “moderna” no Brasil era o concretismo (e não que outras vertentes da escrita não estivessem presentes em todos esses lugares).

Aqui, em particular, surgem obras em espanhol como as de Borges, Asturias, Carpentier, Onetti e, a que interessa hoje, a de Juan Rulfo, justamente “Pedro Páramo”. Quem me ajudou nesse parágrafo foi Irlemar Chiampi ( “O realismo maravilhoso”). Difícil para a teoria literária especificar com certeza ou precisão o que vem a ser o maravilhoso, o fantástico e o mágico… mas que tais obras existem, existem. Como não é meu objetivo adjetivar as obras colocando-as em caixinhas onde se cria caruncho, só gostaria de lembrar que essas décadas de que falo foram riquíssimas para a produção literária em espanhol — e muitos dos autores posteriores, como Márquez, Cortázar, Llosa, Lezama Lima (me refiro a obras e não a datas de nascimento) foram se embebedar dela.

“Há muitas maneiras de lidar com o fato de que todas as vidas, incluídas as vidas das pessoas que amamos, têm um fim”, nos lembra Norbert Elias e “a vida humana é tão frágil” (citando mal e mal Pierre Vernant), que “bastaria um peteleco dos deuses para acabar com ela”. Tomando-se a (perda da) vida como uma dor ou como um pesadelo ou ainda como uma metáfora para a história latina no Ocidente, e tomando-a como algo efêmero, eis “Pedro Páramo”, um livrinho que mal pára em pé, mas que desnorteia o leitor e abre caminhos para toda uma literatura posterior.

Em busca do pai (seu norte mitológico?), um rapaz chega a um lugar de mortos. Mortos são o passado, mas também o presente, e as descobertas do passado (das Américas, do México) nem sempre são felizes.

Para quem deseja conhecer melhor a produção literária em espanhol, aconselho começar por este intenso livrinho. Também aconselho lê-lo a par com o conto “Sarapalha”, que faz parte de “Sagarana”, uma das jóias em português de todos os tempos.

Ah, em termos de uma teoria literária, para quem deseja se aprofundar nisso, por mais metafóricos que esses textos dos anos 1940-1960 sejam, eles inauguram muito provavelmente um novo modo do fazer o romance histórico (citando de cabeça, também, Daniel Balderston).


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