Qual é a graça?

Piadas. Sempre bastante marcadas dentro da sociedade de uma forma geral, contudo também sempre bastante polêmicas. Quem não lembra daquela cantada sem graça ou até da fala do “tio do pavê”? Entretanto, a piada, por si só, é uma espécie de estigma a alguém. Pode ser a si próprio, a um grupo (como forma até de preconceito) ou uma crítica ao grupo dominante – sejam eles ricos, homens, brancos e etc. Porém, e se colocássemos a graça de uma determinada tira (digna de jornais, sempre marcantes no DNA do Brasil) para um olhar quase irônico sobre quem somos como seres individuais em um ambiente social. É disso que o autor islandês Dagsson tenta fazer.

Única de suas compilações de pequenas histórias publicadas no Brasil, “Como você pode rir de uma coisa dessas?” faz jus ao nome. É uma espécie de compilado de uma loucura que apenas a cabeça de alguém que busca questionar tudo pode ter. Não espereve um lado politicamente correto dentro de sua produção que não irá encontrar, já que até questões mais sérias, como pedofilia e morte, são tratadas com graça. Mas não pense que essas piadas são em vão ou até gerando risadas sob essas situações. Na realidade, justamente a ideia de Dagsson é levar um absurdo quase ao limite para questionar o leitor: por que você está rindo disso mesmo?

Pode parecer um tanto quanto bizarro, todavia é impressionantemente envolvente o relato que ele traz em forma de tira. Ao conseguir pegar grandes situações e transformá-las em apenas pequenos desenhos de palito, não se pode negar o incrível poder de síntese de suas narrativas. É interessante como seu olhar para o absurdo, constrói elementos pequenos que trazem sempre características gigantescas. Uma criança, por exemplo, pode ser apenas um ser frágil, indefeso, em desenvolvimento. No entanto, para o islandês, ele já pode é vítima de um sistema que o tempo inteiro estará gritando em seu ouvido.

Com as pequenas analogias, Dagsson demonstra o quão absurdo e inteligente pode ser em “Como você pode rir de uma coisa dessas?”. Apesar de poder não ser para todos os elementos construídos pelo escritor e desenhista, é interessante perceber como sua característica underground de quadrinhos não é nada esquecida. Nesse sentido, é possível ver quase traços de Robert E. Crumb em suas historietas. Porém, Crumb, com seu lado bastante verborrágico, iria preferir extrapolar os limites dos questionamentos da obra. Aqui, Dagsson parece bem mais de olho em se conter para que esse soco gigante de fundo para o leitor, torne-se tão potente quanto.

Claudio Gabriel

Apaixonado por cultura pop no geral. Repórter da rádio CBN e editor-chefe do site Senta Aí.

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