Quadrinhos de direita?

Na primeira coluna que escrevi nesse blog do Plural.jor, falei sobre a relação entre quadrinhos e política. Tal elemento, que não deve ser descartado de forma alguma em nenhuma publicação, sempre reflete diversas questões da época, além de elucidar alguns debates mais complexos. Pois bem, essa semana no mundo das HQs nacionais reservou mais uma polêmica pela frente. No caso, veio da mente e dos desenhos de Luciano Cunha, autor da problemática publicação de ação, “O Doutrinador” – essa que fez bastante sucesso durante as manifestações de 2013.

Luciano, que tem se tornado um bastião da direita nesse universo, postou nas redes sociais uma imagem de um personagem fictício que ele havia “criado” como crítica aos decretos e medidas de isolamento contra a covid-19. Intitulado de “Dr. Lockdown”, é uma espécie de mistura entre herói e vilão, numa clara crítica aos governadores e prefeitos que decretaram medidas mais duras para o enfrentamento da pandemia. A principal veio ante o prefeito do Rio, Eduardo Paes.

Pois bem, a postagem do autor fez emergir, novamente, um grande debate sobre quadrinhos de esquerda e de direita. É claro que existem obras que vão reverberar para diferentes vertentes ideológicas. Quem discordar disso, simplesmente não percebe os diferentes pensamentos, mesmo discordantes, que existem na nossa sociedade. Artistas são pessoas comuns, com ideias, visões de mundo e pensamentos igualmente diversos, como os seres humanos são.

No entanto, é interessante o debate proposto pela visão de mundo, por exemplo, de Luciano Cunha. Imaginemos que não fosse apenas um personagem como forma de ironia, mas sim algo real. Qual o poder de reverberar pensamentos que claramente são anti-científicos por parte de um artista que já teve até filme publicado? É realmente relevante dar enfoque a essas pessoas. Existem opiniões e existem ideias sem base alguma. No caso de Cunha, estamos falando do segundo lado.

Do mesmo jeito, o preconceito também é algo que precisa ser tratado de maneira diferenciada. Um dos casos mais famosos nesse sentido na nona arte é “Holy Terror”, obra de Frank Miller que causou extrema polêmica quando foi lançada pela sua clara xenofobia contra islâmicos. Ao tratar eles como terroristas, lançava uma perspectiva problemática que foi bastante debatida quando saiu.

Assim sendo, é importante destacar que existem claramente diferentes vertentes e pensamentos sobre os mais diversos assuntos. Isso não é problema algum e é importante que a sociedade por completo não seja igual, já que o debate traz melhorias sempre. Todavia, toda opinião precisa ter uma base em algo concreto e não apenas em ideias ou defesas tiradas da cabeça. Dar voz a preceitos como os defendidos por Luciano Cunha deve ser algo fora de cogitação.

Claudio Gabriel

Apaixonado por cultura pop no geral. Repórter da rádio CBN e editor-chefe do site Senta Aí.

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