Por que Bone é tão bom?

Existem HQs que entram uma espécie de cânone da cultura pop. São celebradas e muito premiadas ao longo da história, virando uma espécie de mito próprio. Na maioria das vezes, esses trabalhos são singulares, ou seja, lançados apenas uma única vez ou de uma única forma, e não tramas mensais do Batman, Homem de Ferro e mais – não que essas não sejam boas. Entretanto, o fato de serem histórias únicas a tornam mais especiais, pelo simples motivo de só existirem naquele cosmo de páginas. Um desses casos é de “Bone”, a série de quadrinhos independentes feita por Jeff Smith. Uma dos quadrinhos americanos mais valorizados da história.

Talvez o mais interessante da obra seja sua loucura própria. Afinal, estamos falando de três seres Bone, que significa quem nasceu em Boneville. Certo dia, eles acabam parando em uma cidade do interior, com pastos e histórias mitológicas sobre monstros e dragões. O protagonista da trama, Fone Bone, vira próximo de uma menina do local, a Espinho. Inicialmente, nos deparamos com aventuras próprias e também brigas constantes, especialmente pelo fato dos primos de Fone estarem mais antenados no dinheiro e no prestígio que poderiam ganhar lá. No fim do volume 1 (a narrativa completa foi lançada em 3 volumes no Brasil, com tradução de Érico Assis), no entanto, a história vira de ponta a cabeça e nos deparamos com um épico trágico digno de “Senhor dos Anéis”.

A mistura da comédia com o elemento mágico e que se torna cada vez mais épico é o grande diferencial de “Bone”. Não necessariamente por sua trama completa – até porque ela não chega a ser algo INCRÍVEL -, mas sim pelos divertidos personagens, que vão se transformando em cada vez mais complexos. Fone, Espinho, a vovó Ben e Lucius são os grandes destaques nesse terreno, por irem construindo uma complexificação natural, principalmente pelo envolvimento desses na história da cidade. O volume 2 usa e abusa desse caminho de personagens, não deixando claro protagonistas para a HQ. Todavia, ele também bate a terra para a chegada da grande batalha que toma forma na derradeira edição.

Esse complexo chamariz narrativo faz do quadrinho ser algo extremamente chamativo. Ao fim do primeiro volume, é impossível o leitor não se mostrar empolgado em saber mais sobre esse universo, tentando entender o porque de tudo estar como está. O traço cartunesco de Jeff Smith também ganha brincadeiras soturnas, transformando a obra em algo ainda maior. Ao fim, restará ao leitor uma saudade grande das aventuras com os amigos construídos no processo. Uma lembrança própria de um lugar para qual nunca foi.

Claudio Gabriel

Apaixonado por cultura pop no geral. Repórter da rádio CBN e editor-chefe do site Senta Aí.

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