Os quadrinhos mais vendidos e o que isso mostra

Escrevo essa coluna no dia 20 de maio de 2021. Aviso isso antes porque é possível que tenham algumas incrongruências caso o leitor tente olhar as listas que comentarei.

Tomei dois sustos recentes que me chamaram bastante atenção. O primeiro, na realidade, vem já de algum tempo. Ao olhar a lista dos mais vendidos de abril do site Publish News, me deparo com a edição 01 de “Naruto Gold” entre as mais vendidas na lista de Ficção. Chegando na primeira semana de maio, algumas novidades aparecem novamente de forma bem forte: no top 20 de Ficção estavam “Demon Slayer: Kimetsu No Yaiba – 1, 2 e 3”, “My Hero Academia 1”, “The Promise Neverland 1” e, novamente, “Naruto Gold”. Curioso como quase nenhuma remetia a algo presente, mas, ao mesmo tempo, eram todas relacionadas a produções no mangá de grande sucesso. Acima de tudo, os que mais os uniam é que eram “apenas” mangás.

Olhando para uma outra lista de mais vendidos, também me deparo com algumas surpresas. No caso, foi na Amazon. É importante destacar que existe um enviesamento por conta das promoções que o site de vendas possui, mas deixemos isso de lado em busca de debater os gostos. Entre os 10 mais vendidos, 6 são mangás. Além de “Demon Slayer”, “Jujutsu Kaisen” também domina com 2 edições inclusas. O espaço, porém, traz surpresas como a já clássica HQ “Retalhos”, de Craig Thompson, e “Sky Masters”, de Jack Kirby e Wally Wood. Se olharmos até os 20, os mangás representam 8 dos 10, ou seja, são 16 nesse top.

Essas duas listas representam a consolidação clara do cenário dos quadrinhos japoneses dentro do mercado brasileiro. É algo que começou tem bastante tempo, como muitos sabem da história, e tem relação forte com a vinda dos animes para cá. De toda forma, é representativo um fenômeno relacionado a publicações mais clássicas por aqui, com um certo olhar de veneração. Cito como exemplo “Patrulha Estelar Yamato”, de Leiji Matsumoto, e “Ayako”, de Osamu Tezuka. Estaria o público brasileiro querendo consumir mais desse tipo de material?

O fortalecimento de editoras menores também é um fator decisivo. Apesar de um claro domínio da Panini, que ainda publica os shonens mais vendáveis, New Pop, Veneta e Pipoca e Nanquim se mostram ativas nesse cenário. Todas apostam em um material diferente, trazendo também um contato mais “amadurecido” para esse leitor de histórias sempre jovens durante toda a vida.

Observar as duas listas foi um estudo importante para compreender o interesse do público leitor de HQs no Brasil atualmente. De jovens – que se interessam por publicações mais introdutórias – até adultos – através de narrativas mais complexificadas e até dramáticas -, é curioso perceber uma certa diversificação e também fortalecimento dos nichos.

Hoje em dia, sabendo fazer bem, vende-se quadrinho fácil em nosso país. Se isso parecia uma realidade difícil a até alguns anos atrás, é bem claro dizer que temos um mercado consolidado. “Por que isso é tão relevante assim?”, você pode se perguntar. Bom, a lista dos mais vendidos deixa claro. Temos variedade, conteúdo e, acima de tudo, diversos autores, dos independentes aos mais gabaritados. E o público parece cada vez mais curioso para que chegue ainda mais e de forma cada vez mais apressada. Estamos ávidos, editoras! Venham logo, por favor.

Claudio Gabriel

Apaixonado por cultura pop no geral. Repórter da rádio CBN e editor-chefe do site Senta Aí.

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