Os Jogos de Sombras

Surgida do medo, mas do nosso medo. Talvez essa possa ser uma definição diferente e instigante para “Jogo de Sombras”, nova HQ de Gabriela Güllich junto de Isabor Quintiere. As duas fazem uma história que é complexa, ao mesmo tempo que simples, ao retratar um “horror urbano”.

A trama se passa nos anos 90, quando acompanhamos um apagão no brejo da Paraíba. Após uma “brincadeira” familiar com um jogo de sombras, para buscar uma distração sem ter muito o que fazer, eles acabam sendo atacados e aterrorizados por uma estranha aparição.

O quadrinho está disponível aqui.

Confira a entrevista completa com as duas abaixo:

Cláudio Gabriel: Como surgiu a ideia da HQ?

Gabriela Güllich: Surgiu enquanto a gente embalava os pacotes de recompensas do Catarse de “São Francisco”. Isabor foi lá em casa me ajudar, passamos a tarde conversando e no meio desse papo surgiu a vontade de fazermos algo juntas. Nós duas gostamos muito de terror, e queríamos fazer algo que se passasse no Brasil e que envolvesse algo do cotidiano. Como o FIQ estava programado para 2020, a ideia era lançar lá (não rolou, então
lançamos no início desse ano).

CG: Vocês utilizam na história um pouco desse lado de um certo
“folclore” brasileiro de histórias de terror. Por que resolveram
trazer isso como tema principal?

GG: Então, a parte do (ATENÇÃO, SPOILER!) Sem Contorno parece
com o que a gente vê como folclore, né? História de vó, aquela coisa da
memória oral, mas na verdade não tem nada folclórico nela… Tudo
invenção de vó Graça pros netos pararem de tirar sarro da falta de
habilidade dela no jogo. Justamente por ser algo que não existe, foi um
momento de bastante criação, tanto nos meus experimentos com tinta
quanto na própria narrativa de Isabor.

Isabor Quintiere: Eu busquei criar algo que simulasse os contos de mal-assombro que fazem parte da cultura de cidades interioranas de todo o Brasil. No imaginário popular, existe todo um bestiário de perigos sobrenaturais que deixaria qualquer autor estrangeiro de terror com os cabelos em pé. A partir dessas narrativas, todas muito únicas e brasileiras, nasceu a ideia do Sem Contorno, uma entidade até então inédita nas nossas fantasias. O resultado é que vários leitores já perguntaram se essa lenda existe na Paraíba mesmo… E eu respondo que não, mas quem sabe não se populariza e acabamos criando uma nova sem querer? É assim que elas
surgem, afinal! Acho que vou parar de responder “não”, pra assustar mais
o povo.

CG: Vocês já tinham uma relação com algumas histórias do tipo nas suas vidas?

IQ: Sempre gostei de ouvir histórias sobre lendas e causos parecidos,
principalmente quando contadas por pessoas que estão convictas da
veracidade delas, porque dá um tom ainda mais assustador à história. É
sempre algo que aconteceu a um vizinho, um parente do interior, um
conhecido da cidade, e isso traz o medo para mais perto. Mesmo depois
de adulta, eu me interessava e me interesso muito ainda por
creepypastas, as histórias de terror originadas na Internet que tentam se
fazer passar por acontecimentos reais. Tudo isso influenciou na hora de
escrever “Jogo de Sombras”.

CG: Apesar desse medo mais simbólico dessas lendas e histórias do
tipo pelo país, “Jogo de Sombras” acaba de forma mais frontal e
mostrando até um certo nível gráfico. Por que resolveram ir para
esse caminho? Funcionaria mais na história?

GG: É uma história que se passa no breu, né? Então foi necessário usar
cada pedacinho de contraste pra aproveitar o medo de não enxergar o
que está te ameaçando, e o nervosismo das próprias personagens
perante o desconhecido. O suspense está em confundir as formas, querer
saber quando a luz vai voltar e, por fim, o impacto da claridade do dia
depois que tudo acaba.

IQ: Também aconteceu que, conforme trabalhávamos na narrativa,
percebemos que a história vinha crescendo tanto no seu desenvolvimento
escrito quanto no visual. A tensão aumenta até explodir, e o que fica no
fim são os cacos da vida que costumava existir ali antes. Seguindo esse
ritmo, deixar a violência mais explícita pareceu apropriado.

CG: Acreditam que produções do tipo precisam ser mais contadas nos
quadrinhos, filmes, séries, entre outros, produzidos aqui no país?

GG: Acho que a variedade sempre é necessária, né? De autores, de locais,
de experiências, de mídias. Conhecer novos locares, ler/ouvir novos
sotaques, experimentar novas narrativas. Diversificar o mercado traz
novas referências, tanto de produção quanto de público.

IQ: Com certeza! Eu, enquanto leitora, adoro histórias que reinventam
temáticas que já conheço, como tentamos fazer com “Jogo de Sombras”
em relação às lendas sobrenaturais brasileiras, e também que exploram
outros recantos do Brasil menos conhecidos na grande mídia, como o brejo paraibano que é o cenário do nosso trabalho. Vivemos em um país
imenso, extremamente fértil em matéria-prima para a imaginação. É
necessário explorar, criar e conhecer histórias plurais em todas as mídias.

Claudio Gabriel

Apaixonado por cultura pop no geral. Repórter da rádio CBN e editor-chefe do site Senta Aí.

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Voltar ao topo