Os bangue-bangues

Li 3 quadrinhos recentes que me chamaram bastante atenção tanto em aspectos semelhantes, quanto diferentes. São eles: “Trilogia Gatilho”, de Carlos Estefan e Pedro Mauro; “Pulp”, de Ed Brubaker e Sean Phillips; e “Hailstone”, de Rafael Scavone e Rafael De Latorre. O aspecto que liga as três HQs é bem claro, já que todas são histórias de faroeste. Todavia, o que é mais interessante desse lado que faz elas pertecerem a um mesmo gênero, também as torna absurdamente diferentes uma da outra por conseguirem passar por elementos novos do que os bangue-bangues podem fazer.

Começando pela primeira. Lançado mais cedo nesse ano pela editora Pipoca e Nanquim, a obra reúne os três volumes da trilogia publicadas originalmente de forma totalmente independente. Seguem preceitos bem clássicos e básicos do faroeste, com um forasteiro, uma trama de vingança, o melhor atirador bem desconhecido, e mais. É claro como esse lado que está onipresente dentro do cinema do gênero, é transportado como inspirações para a dupla. No entanto, nada menos clichê no faroeste que uma trama na qual o desenvolvimento dos personagens é algo fundamental, o que diferencia bastante do que podemos ver, por exemplo, na trilogia dos dólares, de Sergio Leone.

A segunda é uma HQ publicada em 2020 pela Image Comics e que chegará em nosso país em um futuro próximo pela editora Mino. Brubaker busca em seu roteiro, enquanto Phillips olha dentro dos desenhos, uma intenção por reafirmar ideias e preceitos estabelecidos dos clássicos pulps do início do século XX. Desse jeito, tramas de faroeste e policiais entram em voga para complementar uma narrativa cíclica de vida de um personagem totalmente dúbio. É interessante aqui como o aspecto do faroeste assume essa camada mais da lembrança, de um envelhecimento, como se, realmente, os autores estivessem observando toda a trama da ótica do protagonista, em uma nostalgia desses tempos.

Por fim, o primeiro volume de “Hailstone”, que chega em uma parceria do Stout Club com a ComiXology (que publica quadrinhos digitais), é que menos se contempla com elementos clássicos do gênero. Ela busca ousar com uma possibilidade sobrenatural, além do aspecto mais de suspense que alguns filmes – e quadrinhos também de “Tex” – costumaram gostar de brincar com. Como apenas a primeira edição está disponível, não poderei aprofundar mais, contudo é curioso como esse elemento cênico do velho oeste é muito mais pertencente a maneira que os personagens se portam no cenário, do que propriamente como uma forma de “vender” a HQ para um público específico.

Os três quadrinhos de faroeste mostram bem como narrativas do tipo têm se portado de forma a ousar buscar novidades. São obras que, em muitos casos, vão olhar de forma curiosa para o seu universo construído e como os protagonistas, agora sempre bem trabalhados e, em muitos casos, nem tanto carismáticos, estarão em contato com o passado, presente e futuro do que acontece dentro dele.

Se na maioria dos casos nos acostumamos a ver produções italianas de bangue-bangue, agora elas se disseminam por diversos países, que são capazes de criar sempre algo novo e diferente. Brindado fica o público, agora em deleite e estado de graça para acompanhar mais uma batalha de dois atiradores. Que vença o melhor!

Claudio Gabriel

Apaixonado por cultura pop no geral. Repórter da rádio CBN e editor-chefe do site Senta Aí.

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