Os 10 melhores quadrinhos de 2020

Fim de ano e as famosas listas começam a aparecer. Bom, demorei um pouquinho mais, mas chego aqui com minhas 10 HQs favoritas do ano. Admito que vi realmente alguns problemas nessa seleção, especialmente por ter conseguido pouco acesso aos materiais nacionais pela falta de eventos durante o ano. Por isso, deixo essa crítica pessoal aqui presente. Segue abaixo em ordem descrescente, com comentários breves de cada uma:

10 – “Degenerado”, de Chloé Cruchaudet (Editora Nemo) trad. Renata Silveira

Uma obra fluída. É assim que podemos definir esse trabalho de adaptação da quadrinista Chloé Cruchaudet da história real descrita no livro “La Garçonne et l’assassin”. Definitivamente, não é uma obra que busca diretamente um desenvolvimento de uma construção de mundo para abordar seus personagens, mas faz seus protagonistas questionarem o mundo ao redor, para desconstruir toda a relação de gêneros. Ao mesmo tempo, Cruchaudet também demonstra o fato de sermos tão fluídos também nos torna complexos por natureza.

9 – “Dementia 21”, de Shintaro Kago (Editora Todavia) trad. Drik Sada

Talvez o quadrinho mais insano do ano. É muito feliz que finalmente o mangaká Shintaro Kago chegue ao Brasil e ainda com sua produção mais maluca. A história busca retratar desde um legado sobre a política com idosos no Japão contemporâneo, até as formas de trabalho insanas do mesmo país. É uma espécie de ciclo eterno de um local pronto para explodir, misturado com um humor característico do autor.

8 – “A Grande Odalisca: Olympia”, de Bastien Vivès,  Florent Ruppert e Jérôme Mulot (Editora Pipoca e Nanquim) trad. Érico Assis

O primeiro volume de “A Grande Odalisca” já trazia uma obra de ação pura destacada em uma produção de quadrinhos. Mas, diferente das HQs de herói, por exemplo, o trio aqui presente cria quase um filme, com diversão, uma troca de quadros insana e ainda uma forma que adapta isso tudo para o mundo da nona arte. É absurdo como “Olympia” só solidifica isso tudo e cria provavelmente uma das melhores obras que o gênero fez recentemente. Por favor, chamem Christopher McQuarrie para filmar isso.

7 – “Laura Dean Vive Terminando Comigo”, de Mariko Tamaki e Rosemary Valero-O’Connell (Editora Intrínseca) trad. Rayssa Galvão

A mistura de drama e comédia adolescente na dose certa. Tamake e Rosemary criam uma obra que coloca uma jornada de redenção geral e pessoal de uma protagonista em crise. E o mais interessante de tudo: uma protagonista lésbica, sem medo de deixar isso claro o tempo inteiro. Acima de tudo, é uma obra que sabe ser leve, mas também desenvolver toda uma perspectiva complexa. Junto com o primeiro lugar que falarei adiante, possui a personagem mais bem desenvolvida do ano.

6 – “Black Hammer vol. 4”, de Jeff Lemire, Dean Ormston e Rich Tommaso (Editora Intrínseca) trad. Fernando Scheibe

Talvez essa possa ser muito frustante para muitos leitores, porém devo dizer que sou completamente apaixonado pelo fim que Lemire dá para a odisséia espetacular de “Black Hammer”. É uma obra que deixa menos claro esse lado satiríco dos heróis – que faz parte de muitos outros trabalhos, como “The Boys” – e mais um desenvolvimento sobre a noção de pertencimento. O autor já havia me feito chorar com todo o desenvolvimento colocado na terceira edição. Agora, com as definições e explicações sobre tudo, percebemos como os heróis são apenas vazios nesse universo que precisam defender.

5 – A Odisseia de Hakim vol.1, de Fabien Toulmé (Editora Nemo) trad. Fernando Scheibe

A primeira parte desse grande épico contado pelo francês Toulmé sobre o imigrante Hakim é, sem dúvidas, uma das produções mais reais recentemente dos quadrinhos. Igualo como produção de jornalismo na nona arte com “Virgem depois dos 30”, lançada por aqui em 2019. São duas HQs que olham menos para uma busca existencial sobre isso e tentam analisar de forma bem clara toda essa situação. Porém, Fabien se coloca mais presente em sua produção, buscando entender em que ponto a humanidade chegou.

4 – Buscavidas, de Carlos Trillo e Alberto Breccia (Editora Comix Zone) trad. Jana Bianchi

Os quadrinhos latino-americanos, especialmente argentinos, têm ganhado espaço dentro do mercado editorial brasileiro. Assim, retrato “Buscavidas” como a obra mais curiosa que li no ano. Longe de ser instigante, é muito mais diferente e curiosa sobre essas andanças de um homem que irá apenas ouvir histórias. A forma de expressas isso tudo pela arte de Breccia e os roteiros de Trillo trazem quase uma inerente tristeza sobre a humanidade. Ao mesmo tempo que mostra sobre como somos curiosos que entendê-las.

3 – A Solidão de Um Quadrinho Sem Fim, de Adrian Tomine (Editora Nemo) trad. Érico Assis

A autodepreciação como forma de arte. É basicamente isso que Tomine faz com esse quadrinho, que explora a carreira do artista quase como uma autobiografia. Talvez não seja uma HQ para todos, justamente pelo auto nível de confusão que a produção compõe, no entanto é justamente esse lado meio difuso de mundo que a torna tão curiosa. Ao fim, é interessante como quase sentimentos pena de Adrian Tomine em muitas situações – ao mesmo tempo que um grande olhar sobre como isso tudo fez ele chegar aonde chegou.

2 – Berlim, de Jason Lutes (Editora Veneta) trad. Alexandre Boide

Esse segundo e o primeiro lugar são trabalhos que mais remetem ao nosso momento atual de mundo, especialmente no Brasil – porém, os fatos nos Estados Unidos demonstram como estamos correlacionados. Em um trabalho gigantesco (de tempo, tamanho de páginas e pesquisa), Lutes cria em “Berlim” uma realização de uma vida. Uma HQ que, ao mesmo tempo que possui seu lado analítico sobre a República de Weimar e tudo que viria dali para frente dentro da Alemanha, também busca um olhar único: o da vida das pessoas. E isso é o mais desesperador.

1 – Sabrina, Nick Drnaso (Editora Veneta) trad. Érico Assis

A grande HQ dos nossos tempos. Drnaso faz um trabalho que passa desde o medo das fake news e redes sociais até a construção da verdade em nossa volta no mundo atual. É um quadrinho que traz uma história linear para discutir os mais diversos elementos de nosso mundo atual. Além disso tudo, é impossível se desgrudar propriamente da narrativa proposta em “Sabrina”. Nada para e vivemos dentro de um espiral de medos e loucuras com tudo a nossa volta. É como se o universo do início fosse se desmoronando ao ponto de nem nos entendermos mais nele mesmo. É basicamente nosso planeta Terra em pleno século XXI.

Claudio Gabriel

Apaixonado por cultura pop no geral. Repórter da rádio CBN e editor-chefe do site Senta Aí.

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