O Canil e a prisão

Fazer um trabalho que envolve a visualidade nunca é fácil. Por isso, em muitas ocasiões, quadrinhos são pensados de uma forma pelo roteirista, porém idealizados inteiramente diferentes pelo responsável dos desenhos. E vice-versa. O visual constrói não apenas uma linguagem própria, mas também um impacto na construção de universo para com o público leitor. E isso, é, sem sombra de dúvidas, um trabalho extremamente bem executado – e com bastante sinergia – em “Canil”.

A HQ de Rodrigo Ramos e Marcel Bartholo se inicia de forma bastante bizarra, no entanto, simplista. Vemos, primeiramente, um grupo de pessoas procurando por uma menina. Ao encontrar, acham como se ela tivesse comida e um outro menino do lado com a boca cheia de sangue. Esse jovem seria morto ali mesmo, devido ao ódio daqueles que o encontraram. Todavia, acaba sendo protegido e indo a delegacia, pelo fato de ser filho do governador da cidade.

Elementos clássicos do terror e suspense já se encontram na história mesmo em pouquíssimas páginas. Apesar disso, o mais interessante desse desnvolvimento é como a situação vai se formar aos poucos. Todos os pontos colocados a prióri, viram coisas fundamentais no grande clímax da narrativa. A arte bastante carregada de traços de Bartholo causa sempre uma estranheza, como se algo ainda pior fosse acontecer a qualquer instante.

Da mesma forma, o roteiro de Ramos traz uma ambientação climática desse espaço pequeno que é o presídio. É como se os personagens existissem ali ainda mais presos do que o simples fato de estarem enjaulados. Literalmente, em uma espécie de canil, como brinca o título.

Quando o ápice acontece, um profundo debate sobre papel da polícia, direitos humanos, além de estado de animalidade humano, ganham contornos até bastante épicos. A história avança e vai gerando sensações para trazer um profundo suspense sobre quem somos. Os personagens, não apenas o protagonista, vivem em um código moral sempre deturpado, como se a moralidade “comum” não os pertencesse. Assim, quando o clima de horror do quadrinho toma forma – literalmente – para transformar esse universo apresentado em pavor.

“Canil” é uma história sobre desenvolvimentos do medo da nossa sociedade. Essa construção acontece não apenas por questões sobrenaturais, mas também por elementos físicos da vida cotidiano. Dessa forma, ao nos depararmos com a violência do dia a dia, isso já está embutido de uma elevação do medo social. Horror esse que não está apenas em quem nós estamos sendo no momento, porém da forma que nascemos e existimos no mundo.

Para contatar os autores e comprar a HQ:

Instagram – @carnicahq @bartholomarcel @rcr_eddie
www.marcelbartholo.com/loja

Claudio Gabriel

Apaixonado por cultura pop no geral. Repórter da rádio CBN e editor-chefe do site Senta Aí.

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