Histórias de uma Curitiba Plural

O Brasil tem um Angoulême

“Escuta, Formosa Márcia” é uma HQ trágica. Não apenas na sua própria história em si, mas ao repensar e tentar refletir sobre a própria história dos pequenos personagens brasileiros. No caso, uma mãe solteira, nascida e criada em uma comunidade do Rio de Janeiro. Uma enfermeira, que busca disciplinar sua filha e que ainda tem ela envolvida com o crime organizado. Além de ser uma das grandes obras do quadrinho nacional recente, a produção de Marcello Quintanilha traz diversos temas e debates propostos pela nona arte brasileira ao menos da última década.

Porém, não quero falar das diversas magnitudes que transformam essa HQ em algo ainda maior. E sim, nos efeitos dela. Especificamente, na vitória no maior prêmio na 49ª edição do Festival Internacional de Quadrinhos de Angoulême. Um Fauve D’Our para o Brasil. Nos quadrinhos. Se há muito já foi falado sobre a fase ruim pós-ditadura que os quadrinhos nacionais viveram, isso começou a se transformar a partir do início dos anos 2000 e ganhou ares maiores na última década – ainda mais com a internet e popularização de grandes eventos. E quem sempre foi um dos nomes a ser pioneiro em tudo? Quintanilha, o mesmo que comemorou uma honraria que o país nunca havia conquistado.

Fato é que vivemos uma fase auge da produção, disseminação e debate sobre produções na nona arte dentro do nosso território. São diversas localidades e pessoas distintas que conseguem fazer algo relevante e que sempre está desde nas páginas de jornais, até mesmo na boca do povo. Antes nicho, as HQs hoje em dia são algo disseminado na nossa sociedade – ponto que já debatemos nessa coluna. Mas, obviamente, prêmios colaboram para que nomes ganhem ainda mais relevância. Claramente eles não são o que define algo ser bom ou não, porém sempre são relevantes para um público geral. E o feito com “Escuta, Formosa Márcia” deverá ter reverberações que só olharemos daqui há alguns anos.

Já estamos cansados de falar bem da nos nossos quadrinhos nacionais. Eles também já estão cansados de falar por eles mesmos. Agora talvez ocorra uma mudança de chave que, como eu disse, só poderemos ver frutos daqui um tempo. Só que essa alteração, é fundamental para a maneira como, cada vez mais, o mundo das HQs será compreendido por nossas bandas. Viva Agostini! Viva Laerte! Viva Pasquim! Viva D’Salete! Viva Germana! Viva Mutarelli! E viva Quintanilha!

Claudio Gabriel

Apaixonado por cultura pop no geral. Repórter da rádio CBN e editor-chefe do site Senta Aí.

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado.

Voltar ao topo