Histórias de uma Curitiba Plural

Existe realmente quadrinho de esquerda ou de direita?

Uma polêmica ganhou enfoque nas redes e perfis voltados para quadrinhos nas últimas semanas. Uma matéria publicada no site UOL Tab dizia haver um movimento de HQs de direita em plena ascensão, inclusive com um público de nicho bem forte. O texto foi criticado por muitos e defendidos por outros, mas sua ideia se central se baseava em como a nona arte produzida no Brasil parecia querer se relacionar com o momento histórico de um sucesso ideológico da direita no campo eleitoral. Como resposta, diversos produtores de conteúdo sobre cultura pop direcionaram criticas até a uma possível existência de produções de quadrinhos para o espectro da direita. Essa discussão, inclusive, reascendeu outro debate do Twitter há tempos atrás se existiria uma produção artística pensada dessa maneira. Assim, se abre a discussão: existem realmente quadrinhos de direita ou de esquerda?

É complexo tentar explicar isso de uma maneira mais direta, mas é óbvio que sim. Acima de qualquer aspecto estético e formal – também essenciais para entender uma obra artística -, a arte existe pela contrução de uma pessoa ou de pessoas. Essas, invevitavelmente, irão ser construídas socialmente e, desse jeito, possuírem opiniões e ideologias que regulamentam seus estados de agir e pensar. Ao transferir suas concepções do campo das ideias para uma prática física e material, no caso fazendo arte, isso irá transparecer. Pode não de uma maneira mais diretamente dentro do texto, porém aparecendo em gestos ou formas. Um desses exemplos é pensar em como o racismo e a xenofobia são traços importantes para entender a construção de um conto escrito por H.P. Lovecraft. Isso tira seu valor referencial ou estético? Claro que não. Porém, são relevantes para entender como se pensa tal autor/autora.

Depois dessa divagação, vamos entrar no ponto da discussão no meio das HQs. Olhando historicamente, é fato como a produção da nona arte, especialmente em seu território de maior sucesso, os Estados Unidos, tiveram uma conexão clara como uma concepção liberal de mundo – algo que, nos EUA, é relacionado ao Partido Democrata, à esquerda. Um dos maiores exemplos é clássica capa de “Capitan America #1”, em que o Capitão soca a cara de Hitler. Os ideias de liberdade, aliás, são pontos centrais para entender quem é essa figura. Por isso torna tão interessante o debate travado entre ele e Homem de Ferro na “Guerra Civil”, trazendo a tona a relação ideológica entre conversadores contra liberais.

Essas ideias voltadas para esquerda vão passar também por uma reformulação nos debates posteriores, como nos X-Men ao abordar o preconceito ou também em produções quadrinísticas dos anos 80 com Alana Moore, que irá trazer preceitos marxistas e anárquicos em suas obras.

E como fica a direita nisso? Especialmente com o legado de um caminho patriótico dos países. A figura do Superman é um importante sentido nisso, por trazer toda uma ideia da necessidade da força do país, e sendo inteiramente legalista. Mas aí, entra também o ponto se a ideia do vigilantismo por si só, ou seja, fazer justiça com as próprias mãos, também não seria uma característica quase fascista de agir. E esses debates vão se colocar em “Watchmen” e “Batman – Cavaleiros das Trevas” fortemente. O escritor dessa segunda, aliás, Frank Miller, que fez “Holy Terror”, uma HQ bastante execrada quando lançada pela sua tratativa anti-islâmicos. O contexto da proximidade com a tal guerra ao terror promovida pelo governo Bush contra os países árabes favorece um crescimento desse sentimento no povo, algo que está refletido como quase um ideal de vida do para Miller.

Enfim, é possível listar o debate, que é bastante complexo, com diversas maneiras dentro desse texto. É até complicado entender se eu realmente respondi a pergunta proposta, mas ela possui uma resposta bem mais direta e simples: sim. Os quadrinhos de direita e esquerda, no entanto, vão olhar para trazer suas visões em diferentes maneiras de agir dentro do texto. Assim, autores existem e as diferenças sociais também. Ao ponto que não cheguemos ao traço de literais guerras, essas disputas serão onipresentes na história humana.

Notícia da Semana. A editora Pipoca e Nanquim lança um compilado das histórias de quadrinhos de terror produzida pelo luso-brasileiro Jayme Cortez. É um trabalho histórico com diversas tiras e HQs quase esquecidas no tempo. Com 132 páginas, uma edição especial e diversos extras exclusivos, a edição custa o preço de capa de R$69,90.

Claudio Gabriel

Apaixonado por cultura pop no geral. Repórter da rádio CBN e editor-chefe do site Senta Aí.

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