Histórias de uma Curitiba Plural

Entrevista com o cartunista Benett

[Observação aos leitores: as novas postagens do blog passam a sair agora toda sexta-feira]

Os últimos tempos foram de forte ataque aos cartunistas por parte do governo federal e de grupos voltados à direita. Em 15 de junho, o quadrinista Renato Aroeira sofreu uma crítica por parte do ministro da Justiça, André Mendonça, que pediu à Polícia Federal e à Procuradoria-Geral da República para investigar uma charge de sua autoria, em que relacionava o presidente Bolsonaro ao nazismo. A postagem havia sido feita no Blog do Noblat, na revista Veja. Dois dias antes, policiais militares interpelaram na justiça a Folha de São Paulo e os cartunistas Laerte, João Montanaro, Alberto Benett e Claudio Mor, por cartuns sobre a violência policial no Brasil. Todos eles continham críticas para a Polícia Militar.

Entre os acusados estava, então, Benett, um dos cartunistas e quadrinistas mais famosos do país. A situação e um clima de perseguição à liberdade de expressão desses artistas foi tema da conversa dele, que também é cartunista do Plural.jor, ao blog:

Cláudio Gabriel: A charge do cartunista Aroeira foi denunciada pelo governo Bolsonaro, com uma investigação com base na lei de segurança nacional. O que achou sobre a situação?

Alberto Benett: Achei vergonhoso. Porque isso nos coloca ao lado de regimes como Turquia e Síria, que perseguem cartunistas – e qualquer um que ouse criticar o governo. Ainda que até agora nenhum cartunista foi preso ou teve seus dedos esmagados por marteladas. No entanto parece-me que a sociedade começa a reagir a esse tipo de mentalidade que domina o grupo que está atualmente no poder, deixando claro que não vai admitir autoritarismo a essa altura da vida.

CG: Recentemente uma situação envolveu você, na qual uma entidade de PMs interpelou você, Laerte, João Montanaro e Claudio Mor por charges críticas à violência policial. Como recebeu essa situação? 

AB: Acho que eu já esperava que começasse a acontecer esse tipo de coisa. Processe seus críticos, amarre a mão de seus inimigos, Arruine-os financeiramente. É a diretriz dada pelo Svengali do bolsonarismo, que vive lá nos EUA.

CG: Acredita que de que forma é possível crítica no meio a diversas tentativas de censura, como essas explicitadas?

AB: As críticas continuarão acontecendo quer eles queiram ou não. O fetiche por um governo autoritário não encontra espaço nos dias de hoje. E eles sabem disso.

CG: O senhor acha que é possível um crescimento cada vez maior de pessoas interessadas em produzir e ler cartuns com esses atentados à liberdade por parte do governo?

AB: Acho que sim. Os cartunistas estavam todos entediados, ilustrando livros infantis, tentando achar outra coisa mais interessante na vida para fazer. Mas aí começaram os absurdos e eles voltaram todos, mais atuais do que nunca.

CG: Como acha que será o futuro? Acredita que cada vez haverá mais e mais restrições?

AB: Acho que não vai rolar golpe militar, nem o sonhado regime fascista dos lunáticos 300. Acho que a sociedade vai reagir. Não sei se  por convicção, mas pelo menos por vergonha. Aliás, vergonha que já estamos passando faz tempo.

CG: Como os produtores de cartuns e quadrinhos podem reagir a isso? Serem cada vez mais críticos?

AB: Têm que mostrar a união que mostrou no caso Aroeira. Isso inibe os mais saidinhos que não podem ver um texto crítico que já querem passar com o tanque de guerra por cima. E, claro, continuar denunciando, criticando. Eles vão entender o recado. Podem não entender a charge, mas o recado, tenho certeza que entenderão.

Claudio Gabriel

Apaixonado por cultura pop no geral. Repórter da rádio CBN e editor-chefe do site Senta Aí.

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