Entrevista com Leandro Assis, de Os Santos

Ilustrador, Leandro Assis começou sua carreira buscando realizar perfis, personalidades, entre outros. O mundo político entrou em sua vida com uma força tremenda, fazendo o quadrinista realizar trabalhos sempre bastante críticos a diversas forças da direita, desde o juíz e atual Ministro da Justiça, Sérgio Moro, até o presidente brasileiro, Jair Bolsonaro. Algumas dessas tiras podem ser vistas aqui.

Após participar da coletânea “Moluscontos”, na qual será impressa através do financiamento pelo Catarse, ele começou uma série de tiras chamada, incialmente de “Os Bolsominions”. A mudança ocorreu e agora a produção possui o título de “Os Santos”, contudo a ideia é a mesma: contar, de forma bem direta e dura, sobre o que é a elite brasileira. Isso, através de uma trama diversa e que ressoa de maneira precisa com os dias atuais.

Cláudio Gabriel: Você mudou o nome das tiras de Os Bolsominions para Os Santos. Por que essa escolha?

Leandro Assis: A ideia de fazer a tira veio da vontade de falar sobre um tipo de eleitor do Bolsonaro. Mas vários Bolsominions passaram a entrar no meu perfil alegando que eu estaria generalizando, chamando todos os Bolsominions de preconceituosos e racistas. Claro que não estava fazendo isso. Estava falando de um determinado tipo de eleitor do Bolsonaro. Enfim. Para não permitir que os Bolsominions entrassem no perfil para reclamar e desviar o foco das tiras para essa questão, decidi mudar o título. 

CG: Qual a importância de trazer esse olhar sobre a elite brasileira, especialmente em um período forte ideologicamente no país?

LA: Temos uma elite escravocrata, preconceituosa, classicista e extremamente egoísta. Nossa elite luta furiosamente para não perder privilégios e manter toda uma parcela da população na condição de subalterno. Até quando? E a eleição do Bolsonaro é a reação direta dessa elite a um momento em que os pobres tiveram alguma melhoria de vida. Estamos em um momento triste, em que a política neo liberal e os retrocessos nos costumes vão representar uma piora na vida dos pobres e das minorias. Só nos resta enfrentar isso. Falar dessa situação. Tentar promover discussão, reflexão e constranger a elite. 

CG: Como você vê a força da sua obra na atual realidade do país? Contando também o fato que diversas produções brasileiras retratam a disputa de classe do país.

LA: Eu não sei avaliar a força do meu trabalho. Sei que a reação está sendo muito maior do que eu poderia imaginar. Professores vieram me dizer que estão usando as tiras em sala de aula. Leitores dizem que tem refletido mais sobre como agir. Domésticas me procuram para agradecer, dizem que se sentem representadas. Enfim. Obviamente as tiras estão tocando muita gente. E se isso ajudar a promover discussão sobre racismo e desigualdade social já terá sido espetacular 

CG: Vejo muitos comentários retratando sempre uma tristeza aos ler as tiras. Como você vê isso?

LA: Acho que as tiras expõem a falta de empatia da elite. E como essa falta de empatia leva à exploração de outros brasileiros. E essa é uma situação extremamente triste para quem a vive na pele. Vem daí a tristeza vista nas tiras. Mas eu espero não ficar apenas na tristeza. Não é para ser uma série sobre pessoas que só fazem sofrer. E quem sabe haverá reviravoltas nessa história?

CG: A história tem sido publicada através das redes sociais. De que forma você observa esse processo? É diferente do que realizar em um meio tradicional?

LA: Essa tira foi pensada para ser lida no Instagram. Tive essa ideia depois lendo as tiras do “Pacha Urbano”, As traumáticas aventuras do filho do Freud. Gostei muito da experiência de ler quadro a quadro. Ou seja, a história está sendo contada nesse formato porque foi pensada pro Instagram. Se eu tivesse sentado para fazer uma graphic novel, certamente seria bem diferente.

Além disso, há a resposta imediata dos leitores. Os comentários. A troca. Tudo muito rico e estimulante. O livro, nesse aspecto, é mais frio. Por outro lado, muita gente vem pedindo para que eu lance as tiras em livro (o que está nos planos), que tem a vantagem de ler todas as tiras reunidas, em ordem etc.

CG: Ao fim das tiras, há uma possibilidade de haver uma edição reunindo todas? Como você tem visto isso?

LA: Sim. É praticamente certo reunir as tiras em um livro. Só é precisa que a história tenha fôlego para isso! 

Capa de O Gourmet Solitário

Notícia da Semana. A editora Devir lança no Brasil a HQ “O Gourmet Solitário”, escrita por Masayuki Kusumi e desenhada por Jiro Taniguchi. O mangá acompanha o selo tsuru, de obras clássicas japonesas trazidas pelo Brasil, como já haviam sido trazidas antes “O Homem que Passeia”, “Nonnonba”, entre outros.

Na história, acompanhamos uma passeio por diversas regiões de Tóquio enquanto o protagonista saboreia os mais variados sabores, além de adentrar em um mundo diferente a cada prato comido. A obra custa o preço de capa de R$45 reais.

Claudio Gabriel

Apaixonado por cultura pop no geral. Repórter da rádio CBN e editor-chefe do site Senta Aí.

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