Entrevista com André Diniz, de “A Revolta da Vacina”

André Diniz é um dos grandes nomes conhecidos pelo mundo da atual geração brasileira de quadrinistas. Sempre fazendo muito sucesso em Portugal, onde chega a lançar algumas HQs de forma antecipada do que aqui, o autor se transformou em um grande nome editorial. Nas suas obras, temas políticos e sociais sempre aparecem, quase como uma marca. Da Ditadura Militar até a situação nas favelas, ele reverbera essas discussões sempre.

Lançando agora “A Revolta da Vacina” pela Darkside, que retrata um pouco sobre a rebelião popular no Rio de Janeiro no início do século XX, o autor traz uma temática social super atual para foco mais uma vez. Porém, como ele conta na entrevista, mais como pano de fundo do que o verdadeiro enfoque.

Cláudio Gabriel: Qual a expectativa para o lançamento de “A Revolta da Vacina”? Como que foi a produção dessa HQ?

André Diniz: Foi um processo bem mais longo e intenso do que o leitor pode imaginar! Isso porque a ideia inicial veio lá por 2007, mais ou menos. O tema foi sugestão do Alexandre Linares, amigo querido que me editava na época. O projeto não foi adiante, mas aquele tema já tinha me fascinado. Eu via ali a possibilidade da combinação que eu mais gosto de trabalhar: um cenário histórico e social real, onde eu poderia criar à vontade um personagem fictício. Fiz uma primeira versão a cores, com outro tipo de acabamento, que foi publicado pela primeira vez em 2012. Mas a editora visava apenas ter um livro na gaveta caso o PNBE (o programa que compra – ou comprava – livros para as bibliotecas escolares) se interessasse, e nisso quase ninguém viu o livro. Agora, com o convite da Darkside, tive a oportunidade de corrigir tudo o que não havia me agradado: a finalização dos desenhos, a falta de distribuição e divulgação e até mesmo o título (“Z de Zelito”, que focava no personagem e não no momento histórico). Então, além da felicidade de publicar por uma editora como a Darkside, houve também toda uma oportunidade de corrigir os erros anteriores e oferecer o meu melhor aos leitores

CG: A obra tem uma relação muito forte com nosso momento, de uma lembrança de um evento em que muitas pessoas fugiram e se revoltaram contra a vacinação, assim como parte do mundo e no Brasil atualmente. Acredita que o trabalho reverbera essas questões contemporâneas? Você chegou a pensar nisso?

AD: Claro, é impossível não ver os dias de hoje revisitando esse episódio: oposição política à vacina, desinformação, fake news, autoritarismo… Com uma diferença: a confusão na época era mais legítima. A informação era pouca, a maior parte da população era analfabeta e, claro, os canais de informação eram irrisórios se comparados aos de hoje. O povo não tinha a experiência de uma vacinação em massa (ao contrário do Brasil de hoje, que até a pouco era referência mundial em vacinação). Ver isso tudo repetindo-se hoje é que é assustador. Eu sempre soube na teoria que a história se repete, mas ver isso na prática é assustador.

CG: Existe também uma discussão sobre questões sociais, como desigualdade, dentro das suas obras. “A Revolta da Vacina” reverbera isso também?

AD: Sim, são questões muito fortes nas minhas HQs. Não quero pregar nada, mas acho importante trazer o leitor a um outro cenário e um outro contexto, na pele de alguém provavelmente diferente dele, para exercitar a empatia. Mas isso tudo tem que estar 100% em função da trama. Não insiro nenhum desses elementos, ou cenas, ou diálogos, se a história não pedir. O meu dogma é esse: há uma história a ser contada, a um ou mais personagens que passarão por uma transformação, e tudo deve estar em prol do prazer da leitura. No caso da “Revolta da Vacina”, joguei em Zelito, um jovem na faixa dos 18 anos, as angústias da pressão social que diz que a gente tem que ser perfeito no campo profissional, financeiro, social, amoroso etc. Quando essa pressão vem do próprio pai depois que o filho preferido morre, e quando há um contexto social tumultuado como cenário, corresponder às expectativas vira algo quase impossível. Aí, como todo jovem ambicioso e pressionado que se preza, ele comete um monte de erros e tenta corrigi-los com mais um monte de erros…

CG: Qual a foi a maior dificuldade em fazer o quadrinho?

AD: Casar uma história fictícia e uma história real, lidar ao longo de anos com os altos e baixos de uma mesma obra e, depois, sentar para praticamente redesenhar uma HQ que já era dada há muito como pronta (e nem foi a primeira vez em que eu fiz algo assim!…).

Capa de “A Revolta da Vacina”

CG: Você sempre buscou nas suas HQs tratar elementos da história do país. Inclusive seu último lançamento no Brasil (“Entre Cegos e Invisíveis”) retrata o período da ditadura militar. Por que gosta de abordar isso? Acha interessante a reconstrução frequente da memória sobre diversos eventos da nossa história?

AD: Como eu citei logo acima, gosto de casar contextos reais e personagens fictícios, isso me inspira muito. E contar uma história, ao menos para mim, é lidar com os medos, as angústias, jogar nelas um olhar questionador, irônico, sarcástico, inconformado, e lembrar que as emoções e buscas do ser humano são basicamente as mesmas desde sempre. É também uma forma de tentar trabalhar tudo aquilo que me causa perplexidade. “Olimpo Tropical”, por exemplo, sobre um rapaz de 15 anos que vira vigia do tráfico, foi baseada numa cena que eu vi e que me marcou muito. Ironicamente, não é um quadrinho que eu leria, é um tema que me faz muito mal, mas trabalhar 3 anos nessa HQ (em parceria com o meu amigo irmão Laudo Ferreira Jr.) foi uma catarse, e é um dos meus roteiros pelo qual eu mais tenho carinho

CG: É possível esperar que isso vai continuar presente nas suas produções?

AD: Sim! É mais forte do que eu.

CG: Já tem pensado em próximos projetos? Se sim, quais eles são?

AD: Nas ideias, há sempre mil projetos pela frente. Mas eu preciso me reorganizar para bater o martelo em qual eu vou encarar agora. Mas, para o leitor brasileiro, há ainda o “Malditos Amigos”, que já foi publicada em Portugal e sai em breve no Brasil. Ao lado de “Morro da Favela”, foi a HQ que eu mais gostei fazer. Espero que o leitor curta também!

Claudio Gabriel

Apaixonado por cultura pop no geral. Repórter da rádio CBN e editor-chefe do site Senta Aí.

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