Como lidar com o câncer?

Enfrentar a morte de frente sempre foi algo extremamente complicado. Não a toa, desde as primeiras civilizações, o tema da mortalidade é tratado sempre como algo bastante particular. Já foi observado do ponto de vista de viver para sempre, assim como também pelo lado de aproveitar o tempo de vida que temos. Porém, e se esse, de uma hora para outra, desaparece? O câncer, normalmente, é o maior culpado em situações do tipo, a qual tudo parece ocorrer do nada, com melhora ou piora do paciente.

Foi essa situação que viveu o quadrinista e jornalista Brian Fies fez ele transformar esse momento em arte. No caso, o câncer não aconteceu com ele, mas sim com sua mãe. Em “Mamãe está com Câncer”, observamos um tratado sobre a vivência e também a busca por se entender próximo ao fim. Ao não dar nome a esses personagens, a obra brinca com o limiar do contemplativo e de autoreflexão.

Porém, Fies também não está nada interessado em fazer um quadrinho que vá tratar do assunto de forma inteiramente séria. É quase, na maior parte do trabalho, uma HQ de comédia. A relação dele com a mãe e as irmãs se tornam sempre gigantescas para os menores acontecimentos possíveis. Ao mesmo tempo, o lado meio cético e meio dramático da mãe cativa o leitor, que se afeiçoa nesses eternos questionamentos da personagem sobre si mesma. O cigarro, parte fundamental da sua caminhada, transita entre o necessário e o absurdo nesse tratamento.

Apesar dessa tentativa sempre de suavizar a situação – quase como em um cartum -, “Mamãe está com Câncer” trabalha, do mesmo modo, um olhar bem dramático sobre o tema. Todo o lado científico, que é explorado de modo bastante inventivo pela curiosidade do tema pelo autor, se atrela a relação de entendimento sobre essa condição. Assim sendo, não há nenhuma passividade quando se trata da temática principal da obra, mas sim um tom mais forte, da luta por sobrevivência.

Tudo isso chega até o fim de forma a fechar um ciclo iniciado. Os acontecimentos realmente importam, porém a busca eterna por se entender na nova condição de vida é mais relevante. O câncer consegue matar inteiramente uma pessoa, todavia pode não tirar dela as possibilidades de viver com a doença Ao refletir inteiramente sobre si, a protagonista da história chega ao nível de realmente se compreender em um novo corpo e numa nova alma por completo. Ela, assim, se aceita por completo.

Claudio Gabriel

Apaixonado por cultura pop no geral. Repórter da rádio CBN e editor-chefe do site Senta Aí.

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