As despedidas de fases


Desde o início dos anos 2000 publicando tiras no jornal O Globo, Bruno Drummond se tornou um nome relevante para as histórias em quadrinhos no Brasil. Apesar disso, o quadrinista sempre quis buscar coisas a mais, produzindo histórias separadas, que foram publicadas totalmente independentes de seu material no jornal. Até seu próprio cartum já possuia tramas particulares, mostrando uma vontade de expansão. Há relações nos temas debatidos – especialmente na ideia da elite carioca -, porém em formatos diferenciados. E agora, Drummond lança “Despedida” que usa, novamente, os temas recorrentes, mas explorando ainda mais as possibilidades da nona arte.

Bruno aborda na HQ duas despedidas, como o título mesmo traz. Edgar quer e vai se matar. Já Silvia vai para uma despedida de solteira com amigas, já que vai se casar. No entanto, ambos acabam se encontrando e o destino muda totalmente a vida da morte e da celebração do amor. Ou será que eles estão apenas continuando nessa mesma condição?

A narrativa se desenvolve bastante nesses diálogos que são estabelecidos de um com o outro. Apesar disso, Drummond não dá espaço para algo fechado no arco de cada um desses dois protagonistas. A flexibilização sobre a noite em que a história se passa é o grande triunfo para isso. Como a vontade de morrer é bastante inevitável para Edgar, ele se dá ao luxo de ter uma experiência na despedida de Silvia. Ambos, então, embarcam em uma jornada de desconstruir a ideia fixa que tem no início da obra em suas cabeças.

Para transformar isso, essa construção não ocorre apenas nos diálogos e no desenvolvimento dos personagens, mas também nos desenhos, que sempre usam e abusam do contraste. Um dos destaques específicos é uma cena na piscina, em que Drummond inventa uma relação do preto e branco como reverberações dos dramas dos personagens, incluindo um contraste no desenho também. Enquanto usa isso para efeito do desenvolvimento dessa noite, também usa a comédia como forma de ironizar essa elite carioca que vive apenas por status – a sequência de flashaback é um deleite, nesse sentido.

Bruno Drummond transforma “Despedida” em uma obra que abre expectativas sobre reflexões da existência. De certa maneira, existe até um caráter de ironia em toda parte para todos os acontecimentos, mas o autor também dá espaço para um entendimento dramático sobre a tristeza contemporânea. Nenhum dos personagens parece feliz com coisas concretas e os poucos momentos de maior sorriso vem através de futilidades. Se isso é um problema para os protagonistas? Não. Mas, de toda forma, o quadrinista olha de forma profunda a um mal estar de uma classe urbana que precisa apenas se ouvir.

Claudio Gabriel

Apaixonado por cultura pop no geral. Repórter da rádio CBN e editor-chefe do site Senta Aí.

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