Histórias de uma Curitiba Plural

As complexidades e pessoalidades de Derf Backderf

Do meio para o final de 2021, me chamou atenção que duas editoras diferentes estavam dando atenção para a obra de Derf Backderf. Depois do lançamento de “Meu Amigo Dahmer” em 2017 pela Darkside Books – HQ que ganhou até uma adaptação para o cinema -, achei que o autor teria ficado meio esquecido por nossas bandas sulamericanas. E olha que esse trabalho já tinha sido um certo sucesso no país.

Bom, demorou um certo tempo, mas finalmente as editoras se interessaram em trazer mais. No caso a própria Darkside, que veio com “Eu, Lixeiro” em novembro do ano passado, e a Veneta, que trouxe “Kent State: Quatro Mortos em Ohio” em dezembro. Duas produções extremamente diferentes, porém que retomam características presentes também em Dahmer: a pessoalidade dentro do trabalho de Backderf. Ele não é um autor que vai se utilizar da própria vida e narrativas para construir histórias, ele quase as baseia por completo através da reconstrução da memória (seja essa pessoal, ou um estudo da coletiva). Vamos entender isso através de cada um dos livros.

Começando pelo fim. “Kent State” traz uma trama em 1980 na unidade do estado de Ohio, que tem o mesmo nome do título. No meio da Guerra do Vietnã, com vários mortos, uma série de protestos se inicia contra o governo Nixon. O governante, entretanto, via infiltração comunista em cada local e pensamento dos estudantes. Sendo assim, ele resolve reprimir de forma cada vez mais bruta as manifestações, terminando, como o título demonstra, com quatro mortos.

Esse momento histórico não teve participação de Derf (com pouco mais de 10 anos de idade no período). Entretanto, foi uma situação que sempre marcou muito com ele ainda jovem e se tornou uma coisa mais complexa após o artista estudar na própria universidade. Ele até comenta dentro dos diversos textos da edição da Veneta como aquilo faz parte da memória coletiva do espaço do campus. Assim, mais do que apenas tentar traduzir um sentimento de época através dos desenhos e das correlações entre os diferentes tipos de jovens, o autor também busca tentar compreender o que foi aquilo, de que forma aconteceu. É uma tentativa de olhar para não esquecer.

Mas se essa pessoalidade aparece de maneira menos direta na vida de Backderf nesse primeiro analisado, no segundo faz parte da realidade do próprio. Já que “Eu, Lixeiro”, apesar de não ser uma autobiografia, traduz algumas sensações, histórias e sentimentos da vida de lixeiro que ele próprio teve. Assim, entramos em uma camada muito importante da obra do quadrinista: a relevância dos detalhes. Eles são tão importantes quanto o fio narrativo em si, já que trazem todo um clima necessário para a construção de mundo. Ao mesmo tempo que também se apresentam dentro do imaginário.

Assim como em “Kent State”, aqui ele busca uma base jornalística descarada. Assim, quaisquer situação ou tempo estão ilustradas por dados bem complexos, que reveberam esses universos particulares dos personagens que iremos acompanhar. Isso traz uma relação mais direta com o público, querendo mostrar a realidade nua e crua.

Por fim, chegamos ao mais ‘antigo’ dentro do país. É “Meu Amigo Dahmer”, que vai remontar uma biografia do serial killer Jeffrey Dahmer. Só que, mais uma vez, a pessoalidade está presente na perspectiva de contar aqui, já que Derf estudou na mesma turma que o assassino – obviamente, antes de saber dos seus crimes. Não é apenas um retrato psicológico da mente dessa figura, mas também – mais uma vez -, um trabalho coletivo, da memória construída na população local. O micro forma o macro.

São três trabalhos distintos e é até bem curioso como saíram da mente de uma mesma pessoa. Contudo, ao analisarmos de forma mais sistemática e observando cada aspecto dos quadrinhos, podemos perceber a sua inteligação na pessoalidade de Derf Backderf faz parte das suas construções narrativas. É impossível ser passivo, no fim das contas.

Fica a torcida para que ele nunca pare e nem que suas HQs parem de sair por aqui tão cedo. Até porque “Punk Rock & Trailer Parks” está por ai, igual a “The City”, e poderiam ser lembradas logo.

Claudio Gabriel

Apaixonado por cultura pop no geral. Repórter da rádio CBN e editor-chefe do site Senta Aí.

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