Aquele sobre quadrinhos digitais

Ok, eu admito. Entre os leitores que olhavam para o mundo dos quadrinhos digitais, sempre fui um dos mais reticentes. Via esse universo até com bons olhos, especialmente pela popularização de livros digitais e audiobooks nos Estados Unidos, porém as HQs pareciam ainda algo muito puro a ser modificado. Era uma conexão profunda que a virada de página e o ato de acompanhar através das mãos provocava sempre uma sensação diferente, nova, quase impossível de ser percebida em qualquer outro tipo de circunstância.

Mudei um pouco de perspectiva após ver o trabalho que a Conrad vinha fazendo (e ainda faz) dentro desse tipo de ideia no Brasil. Até entrevistei o editor Cassius Medauar, um dos responsáveis por fazer a editora investir nesse iniciativa. Foi um certo despertar, mas ainda me parecia muito pouco. Como conseguir construir uma relação de leitura profunda dentro das páginas de um celular, computador, leitor digital, tablet, etc? É algo que exige não apenas uma formalização muito bem feita e capaz de conseguir gerar uma tranquilidade para a leitura, ao mesmo tempo que também é necessário fazer com que a obra fale com essa digitalização.

Depois desse tempo, pude comprar e ler algumas HQs nesse formato. Entendo que é algo que realmente veio para ficar, impossível dizer ao contrário. Preço de produção, facilidade na publicação e ainda possibilidade de leitura em diversas formas. Tudo facilita um barateamento de custo e também da possibilidade de atingir novos nichos com os quadrinhos totalmente digitalizados. No entanto, trago a discussão para o âmbito primordial aqui: como trazer a mesma sensação? Acredito que é impossível fazer isso e explico o porquê.

Primeiramente, existe uma barreira que diferencia ambos de um jeito bem óbvio: um foi feito em papel e outro nas telas. Esse preceito é o grande primordial para compreender como a experiência é um ponto fundamental na leitura de quadrinhos – e livros também, óbvio. O físico permite um apreço maior pela parte, pelo tempo e espaço em que é consumida aquela história. Dentro do digital, contudo, somos simplesmente colocados ali dentro, e com pouco espaço para admirar a construção de quadros, por exemplo (o Kindle permite você abrir sempre cada quadro em separado). Isso constrói diferentes experiências na maneira de observar o contato com uma produção artística da nona arte. Claro que aqui não reclamo, é um mundo novo e necessário. E, como disse antes, tenho me acostumado e até lido bastante assim. Porém, é impossível comparar.

Em segundo lugar, a virada de página. Ela é um fator espetacular dentro do contato com o material físico, já que permite a expectativa e as possibilidades que virão pela frente. É nela que abrange um espaço quase vital entre público e obra. Os quadrinhos digitais acabam por perder essa mágica. Entretanto, como já disse antes, é possível fazer com que isso aconteça de formas diferentes. Produções feitas diretamente para esses meios conseguem fazer algo mais concreto e puro nesse uso do que as digitalizadas.

No fim de tudo, sei que minha opinião pouco importa. Leitores diferentes e consumidores igualmente diferentes vão pensar a forma de olhar para esse mundo das HQs de um jeito único. Eu gosto de conviver com a possibilidade de uma coexistência curiosa dos quadrinhos pela tela e pelo papel, já que ambos tem o poder de construir grandes narrativas. Mas, peço com apreço para que cada vez mais autores e artistas busquem consolidar um trabalho digital feito inteiramente para esse meio. Dessa forma, as possibilidades da linguagem da nona arte são passíveis de serem cada vez melhor e mais exploradas.

Claudio Gabriel

Apaixonado por cultura pop no geral. Repórter da rádio CBN e editor-chefe do site Senta Aí.

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