A representação errada da Mulher-Gato

Recentemente li a HQ “Mulher-Gato: Guardiã de Gotham”. Lançada ainda nos idos dos anos 2000, é uma história até boba, apesar de interessante em alguns aspectos. Trata sobre uma realidade alternativa que a Mulher-Gato seria a heroína da cidade de Gotham, assumindo realmente o papel de Batman. Assim, tem relação próxima com Gordon e enfrenta frequentemente os vilões que dominam a criminalidade do local. A grande mudança acontece quando, certo dia, um tal de homem-morcego aparece, matando (de forma totalmente fria) esses antagonistas da protagonista.

É uma representação curiosa e que poderia render até bons frutos para a trajetória da felina nos quadrinhos. Contudo, se tem algo que merece ser criticado é sua forma de realização. Ok, vemos uma personagem principal forte, decidida de suas questões e até sem medo de enfrentar o perigo. O roteiro de Doug Moench consegue trazer resultados positivos em termos de sua representação – ainda mais se contabilizada o período que foi feita, a qual não se tratava tanto disso. No entanto, o grande X da questão para a minissérie, que foi publicada por aqui em 2 números, são os desenhos de Jim Balent.

Em uma das poucas HQs que temos uma mulher como protagonista apenas combatendo o crime, vemos uma reverberação de poses sensuais para qualquer tipo de batalha. A leitura do quadrinho me fez lembrar a polêmica entorno da capa de “SpiderWoman” feita por Milo Manara. A sensualização e exploração do corpo feminino fez com que a Marvel, na época, se desculpasse oficialmente. Eles ainda tiraram aquela publicação de circulação, mudando para uma nova arte de abertura.

Pois bem, tais críticas não param e, retomando o passado, o trabalho feito por Balent em “Mulher-Gato” traz similaridades bem fortes. O primeiro ponto – e mais óbvio – é sua roupa colada, exacerbando os peitos e a bunda, em poses que nenhuma luta possível traria. A situação só piora quando vemos Selina Kyle, alter ego da heroína, sem os trajes. Cada vez mais aparecem suas partes íntimas sem necessidade alguma. Junta-se sua empregada Brooks, uma espécie de Alfred dentro da história. Essa é uma representação de fetiche ambulante, com roupas extremamentes sensualizadas e sempre em poses quase advindas de um filme pornô.

Bom, tratando de uma trama que envolve especilamente uma mulher, seria possível tratar de sua capacidade de controle emocional sobre toda situação – algo que, em muitas ocasiões, não vemos representado. Ao início parece que realmente veremos isso, contudo, ao avançar dos fatos, ainda vemos Selina ser facilmente dominada psicologicamente. E isso sem contar o final, que é melhor não comentar aqui por conta dos spoilers.

É difícil ainda em 2020 lidarmos com HQs ou qualquer obra artística nesse estilo. Entendo que a produção aconteceu no início dos anos 2000, porém, em poucos quadrinhos que aparecem por aí com a Mulher-Gato como protagonista, é frustante tal forma de demonstração aconteça. O que dá esperança é a força que, cada vez mais, roteiristas e desenhistas diversos apareçam dentro do mercado da nona arte, ganhando seu espaço. Só assim heroínas poderão realmente ter controle para comandar uma cidade da luta contra o crime, ou um homem negro vai poder sem ser seguido pela polícia, ou até um prefeito não vai censurar uma obra que mostra dois homens se beijando.

Claudio Gabriel

Apaixonado por cultura pop no geral. Repórter da rádio CBN e editor-chefe do site Senta Aí.

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