A Máquina Assassina de Riotsistah

Os quadrinhos underground brasileiros buscam cada vez mais o limiar entre o absurdo e o politicamente incorreto. Aliás, era isso que deveria ser feito mesmo, já que o underground da produção da nona arte, como Robert Crumb fez, sempre buscaram um lado extremamente expositivo sobre determinada sociedade para chegar ao limite da crítica. É basicamente nesse caminho que se anda, no limite, no exagero, nesse absurdo que se faz necessário a um universo cada vez mais “comum”, só que menos aceitável.

É através dessa perspectiva que Riotsistah não tem medo de usar e abusar dos elementos do underground em “A Máquina Assassina”. Na HQ, em que acompanhamos uma história de uma mulher vítima de um experimento e em busca de vingança, nada tem uma relação muito clara. Parecemos estar vendo uma realidade que se baseia sempre no caminho do desespero. Em um mundo em que estamos cada vez mais fechados, mais renegados a grupos específicos, há uma necessidade quase vital de se colocar como fora e contra o mundo real. E é bem isso que o quadrinho faz.

As influências são bem claras de um universo cinematográfica misturado com uma idealização de um mundo advindo dos anos 70 e 80. Porém, em vez das clássicas histórias de homens brancos lutando contra tudo, aqui vemos uma mulher negra em busca de realmente assumir seu espaço nesse lugar. O destaque dado pela artista a todo seu lado “anormal” e “inumano” – a qual foi vítima de um experimento – a transforma em um ser antisocial, o que apenas corroba pela sua exclusão já clara devido a cor de pele e ao gênero.

Porém, Riotsistah não está em busca de usar isso de uma forma ou panfletária ou qualquer coisa aprecida. Assim como a clara inspiração no blaxploitation, a condição negra e feminina (como nos longas “Coffy” e “Foxy Brown”) é usada apenas de forma de extrair ainda mais força dessa personagem. Ela é o que ela é, com sua condição de gostar de sexo e de morte. Dessa maneira, parte da obra quase se transforma em um estudo absurdo de personagem, como se ela precissasse fugir desse mundo que a persegue e a destrói, mas que também constrói a forma de como ela existe no universo.

Toda a brincadeira dos elementos estéticos de morte e guerra também reforçam um mundo de morte que está ao seu redor. A todo tempo, a protagonista está em uma realidade quase anarquista de si mesma, a fim de simplesmente rejeitar tudo a sua volta. Não é necessário ter escrúpulos, ter moral ou qualquer coisa parecida quando o universo a sua volta apenas lhe dá ódio e belicismo.

Dessa forma, é muito interessante e curioso o caminho trilhado por Riotsistah em “A Máquina Assassina”. Rememorando um mundo sem medo de ser simplesmente anti o mundo, é interessantíssima a forma que suas inspirações para a produção da HQ também se transformam em algo particular para dentro do quadrinho por si só. Essa máquina construída por seres que odeiam mulheres negras, a tornam também o que quiseram criar. Se for para ser uma máquina, que mate todos que a fizeram ser assim.

Claudio Gabriel

Apaixonado por cultura pop no geral. Repórter da rádio CBN e editor-chefe do site Senta Aí.

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