A importância das histórias individuais

Nessa semana que se passou li, talvez, um dos melhores quadrinhos do ano. “Em Ondas”, de AJ Dungo, lançado em nossas bandas pela editora Nemo. É uma obra sigela, simples e bastante direta sobre libertação, liberdade e sentimento de pertencimento. Tudo isso dentro da história de vida do autor após perder seu amor, Kristen. Ela, que teve um câncer que foi piorando com o tempo, havia pedido – antes de morrer – que queria sobreviver na arte de Dungo. Promessa feita e cumprida pelo autor.

A HQ, que me fez chorar rios e lembrar da necessidade de amar sem limites, também trouxe uma espécie de raciocínio particular sobre a relevância que tramas individuais tem para os outros e nós mesmos. Pegando como exemplo a citada acima, AJ com certeza conseguiu liberar muito da dor que sentia escrevendo e desenhando as páginas. Da mesma forma, quem ler irá se tocar e se aprofundar mais em algo particular da própria vida. E isso só tem como acontecer se cada vez mais relatos sobre nossa própria existência forem colocados para fora e admirados por todos.

Inclusive, isso me fez lembrar de quando li “Pílulas Azuis”, de Frederik Peeters (por acaso, também publicado aqui pela Nemo). Um trabalho belíssimo sobre como é conviver com alguém que, por um simples acaso da vida, é HIV positivo. Pode ser feito sexo? É preciso tomar cuidado com tudo? Aquela pessoa pode te contaminar em qualquer momento? São dúvidas que aparecem na cabeça dessa história individual do autor, mas que são perpassadas com o tempo. Elas não se transformam mais em relevante, e sim em apenas mais um aspecto de vida. Contudo, são importantes para reflexões particulares da sociedade como um todo.

Obviamente que nem sempre essas narrativas serão super relevantes para algo específico que precisa ser ouvido no momento. Aliás, isso pode até vir de onde se menos espera, como em um quadrinho de heróis (sou louco por “Surfista Prateado: Parábola” por esse motivo). Até mesmo porque, em muitas ocasiões, essas tramas pessoais não tem tanto a dizer, trazendo mais relevância para a política e debate público do que em um caso filosófico.

No fim das contas, trago aqui uma vontade cada vez maior de apreciar narrativas do tipo. Por que não corremos atrás de nos encher mais de esperança e amor pelo mundo que já sofremos tanto? Talvez essas pequenas grandes HQs ajudem a explicar alguma coisa.

Claudio Gabriel

Apaixonado por cultura pop no geral. Repórter da rádio CBN e editor-chefe do site Senta Aí.

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